De 2 a 10 de Novembro, Cascais recebe a primeira edição de um laboratório internacional que promete reinventar a produção cinematográfica independente. Joana Vicente e Jason Kliot comandam a operação, acompanhados por alguns dos mais influentes produtores e argumentistas de Hollywood. Entre a criatividade humana e os algoritmos, a questão é saber quem vai escrever o futuro do cinema. E quem fica com os direitos de autor.
Hollywood sempre foi especialista em vender sonhos, sobretudo quando consegue comprá-los baratos. O problema começa quando os sonhos precisam de financiamento, os produtores fazem contas e os realizadores descobrem que a liberdade artística tem um preço que raramente aparece no orçamento. A inteligência artificial promete alterar esta equação. Mas será que vai libertar os cineastas ou oferecer aos financiadores mais uma desculpa para reduzir equipas, salários e ambições? A primeira edição do OPEN CITIES ACCELERATOR, que decorre de 2 a 10 de Novembro, em Cascais, propõe-se discutir precisamente esse futuro. E, melhor ainda, experimentá-lo, com gente que sabe como se faz cinema, como se arranja dinheiro para o produzir e como se sobrevive à maquinaria de Hollywood sem entregar a alma ao primeiro algoritmo disponível.
A iniciativa, organizada pela Open Cities International em parceria com a Câmara Municipal de Cascais, chega com credenciais bastante mais interessantes do que o habitual desfile de palavras como inovação, sustentabilidade e transformação digital. A Open Cities nasceu em Fevereiro de 2026, fundada pelo casal constituído pela prestigiada produtora, programadora de cinema portuguesa Joana Vicente e o marido o produtor nova-iorquino Jason Kliot, em parceria com Tony Gonçalves e Filipe de Botton. A companhia tem sede em Lisboa, presença em Nova Iorque e ao que parece tem uma ambição internacional: ajudar o cinema independente a desenvolver projectos de ficção de maior escala, com orçamentos sustentáveis, acesso a novas tecnologias e possibilidades reais de financiamento, produção e distribuição. Uma espécie de ponte entre a imaginação dos artistas e os cofres de quem paga as contas. E que ponte!
Joana Vicente conhece os bastidores do cinema independente como poucos. Foi directora executiva do Festival de Toronto e liderou o Sundance Institute, duas instituições fundamentais na descoberta e promoção de novos talentos. Jason Kliot, produtor nomeado para os Óscares, trabalhou com Jim Jarmusch, Steven Soderbergh, Brian De Palma e Nadine Labaki, entre muitos outros. Tony Gonçalves traz a experiência da WarnerMedia e do lançamento da HBO Max; Filipe de Botton, empresário e investidor português, acrescenta a dimensão financeira e empresarial. Uma combinação invulgar de cinefilia, indústria, tecnologia e capital. O desafio será impedir que os três últimos acabem por mandar no primeiro.
Onze projectos, nove países e nenhuma receita milagrosa
O OPEN CITIES ACCELERATOR não é um festival de cinema, nem uma conferência para executivos fascinados pelo último brinquedo tecnológico. É um programa de desenvolvimento de projectos que combina o acompanhamento individual de um laboratório cinematográfico, a disciplina de um acelerador empresarial e a experimentação de ferramentas digitais. Nesta edição participam 11 projectos de nove países, trabalhados ao longo de 16 semanas em sessões virtuais e agora reunidos numa residência presencial de nove dias. Workshops, mentorias, estudos de caso e experiências com especialistas tecnológicos procuram transformar argumentos em propostas de produção concretas. A organização pretende que cada participante termine com uma estratégia mais sólida e instrumentos capazes de aproximar o seu filme da realidade.
Segundo Joana Vicente, o objectivo é utilizar a inteligência artificial como instrumento ao serviço dos criadores, nunca como substituto da sua imaginação. A intenção é louvável. Mas convém lembrar que nenhum software inventou ainda um novo Fellini, um novo Bergman ou um novo Manoel de Oliveira. E que escrever mais depressa não significa escrever melhor. A questão decisiva será descobrir até onde estas tecnologias podem ampliar as possibilidades do cinema independente sem transformar os autores em operadores de máquinas.
Três encontros que valem uma viagem a Cascais
A programação pública constitui o grande atractivo desta primeira edição. No dia 4 de Novembro, às 18h00, na Casa das Histórias Paula Rego, Jon Kilik participa em “By Any Means Necessary”, acompanhado por Joana Vicente e Jason Kliot. Kilik pertence àquela espécie cada vez mais rara de produtores capazes de defender projectos difíceis diante de investidores que prefeririam financiar a décima sequela de um êxito garantido. Trabalhou com Spike Lee em Malcolm X, com Alejandro González Iñárritu em Babel, com Jim Jarmusch em Paterson e esteve ligado à saga Os Jogos da Fome. Uma carreira suficientemente diversificada para demonstrar que o cinema de autor e o cinema comercial não precisam de viver em guerra permanente. O tema da conversa é particularmente oportuno: como produzir filmes aparentemente impossíveis. Uma competência que, para muitos realizadores portugueses, devia ser reconhecida como modalidade olímpica.
A 6 de Novembro, também às 18h00 e na Casa das Histórias Paula Rego, a palavra passa aos argumentistas. Erik Jendresen, responsável pela escrita da extraordinária minissérie Irmãos de Armas e colaborador da saga Missão: Impossível, junta-se a Dana Stevens, argumentista de A Mulher Rei e A Cidade dos Anjos, em “Where the Story Begins”. Rui Tendinha modera uma conversa sobre escrita cinematográfica, processos criativos e novas tecnologias. Será provavelmente uma das sessões mais estimulantes para quem acredita que nenhum orçamento, efeito especial ou proeza tecnológica consegue salvar uma história mal contada. A IA pode sugerir diálogos, organizar estruturas e multiplicar versões de um argumento. O problema é saber se alguma vez compreenderá verdadeiramente o silêncio de uma personagem ou a força de um olhar.
Finalmente, 8 de Novembro, às 16h00, no Centro Cultural de Cascais, três produtores de primeira linha reúnem-se em “The Scenes That Changed Our Lives”. Ted Hope, figura decisiva do cinema independente norte-americano, associado a filmes como 21 Gramas e Vidas Privadas, e antigo responsável pela produção cinematográfica da Amazon Studios; Anne Carey, produtora de Mulheres do Século XX e O Americano; e Amy Robinson, ligada a Nova Iorque Fora de Horas, de Martin Scorsese, e Julie e Julia, de Nora Ephron, regressam às cenas que determinaram a sua paixão pelo cinema. Um exercício de memória, cinefilia e transmissão de experiências que pode acabar por ser o momento mais comovente do programa. Afinal, ninguém escolhe dedicar a vida ao cinema por causa de uma folha de Excel.
O futuro não se escreve com um comando automático
O aspecto mais interessante do projecto está precisamente na tentativa de reconciliar duas realidades frequentemente apresentadas como incompatíveis: a autonomia dos cineastas e a revolução tecnológica. Num sector onde o financiamento se concentra, as plataformas impõem critérios comerciais e os filmes independentes enfrentam crescentes dificuldades de circulação, qualquer iniciativa capaz de devolver poder de decisão aos autores merece atenção. Mas seria ingénuo ignorar os riscos associados à inteligência artificial, desde os direitos de autor e a substituição de profissionais até aos custos ambientais das novas ferramentas. Produzir de forma mais barata não significa necessariamente produzir de maneira mais responsável.
Cascais tem aqui uma oportunidade cultural que ultrapassa a promoção turística ou a fotografia de circunstância com personalidades internacionais. A verdadeira medida do sucesso do OPEN CITIES ACCELERATOR não estará no número de convidados ilustres, nas apresentações ou nas promessas tecnológicas. Estará nos filmes que conseguirem nascer destes encontros, na liberdade dos seus autores e na capacidade de chegar a espectadores que ainda acreditam que o cinema pode surpreendê-los.
Se daqui saírem boas histórias, novas vozes e obras que de outra maneira ficariam esquecidas numa gaveta, a experiência terá valido a pena. Se acabar por produzir apenas apresentações impecáveis sobre o futuro da indústria, será mais uma demonstração de que a tecnologia evolui muito mais depressa do que as ideias.
E o cinema, felizmente, continua a precisar destas últimas.
O essencial para não perder o OPEN CITIES
Quando: 2 a 10 de Novembro de 2026, em Cascais.
4 Novembro, 18h00 — Casa das Histórias Paula Rego: “By Any Means Necessary”, com Jon Kilik, Joana Vicente e Jason Kliot. Os segredos da produção de filmes difíceis.
6 Novembro, 18h00 — Casa das Histórias Paula Rego: “Where the Story Begins”, com Erik Jendresen e Dana Stevens. Moderação de Rui Tendinha. A arte de escrever para cinema.
8 Novembro, 16h00 — Centro Cultural de Cascais: “The Scenes That Changed Our Lives”, com Ted Hope, Anne Carey e Amy Robinson. As cenas que fizeram nascer três carreiras.
Entrada gratuita, mediante inscrição prévia. Sessões em inglês, sem tradução.
Informações e inscrições: info@open-cities.com
Organização: Open Cities International, em parceria com a Câmara Municipal de Cascais.
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