10 filmes esquecidos pelos Óscares | A Luz entre Oceanos

Eletrizado pela química genuína entre Alicia Vikander e Michael Fassbender, A Luz entre  Oceanos parecia um filme perfeito para a Awards Season.

 


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Depois de Blue ValentineComo um Trovão eram muitos os que esperavam com grande antecipação o novo trabalho do realizador Derek Cianfrance. A seguir a essas obras de lírica dissecação de vidas humanas através do tempo e da decomposição de relações pessoais, muitos esperavam que A Luz entre  Oceanos fosse finalmente o seu bilhete de entrada para as boas graças do público e da Awards Season. Afinal, este projeto consiste numa adaptação de um romance histórico bastante popular e envolto em prestígio. Acrescente-se a isso um elenco de nomeados e vencedores de Óscares sob a forma de Michael Fassbender, Alicia Vikander e Rachel Weisz e a receita parecia impossível de falhar.

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Infelizmente, o impossível aconteceu e, a seguir à sua estreia em Veneza, muito depois das filmagens terem sido completadas, o filme teve uma receção crítica e comercial comedida antes de ser perfeitamente ignorado por praticamente todas as organizações envolvidas na Awards Season. Ainda houve uma ou duas almas caridosas a pensar que o filme poderia ter sorte e reclamar uma ou duas nomeações em categorias como Banda-Sonora Original, Fotografia ou ainda uma surpreendente reviravolta na categoria de Melhor Ator, mas nada disso ocorreu e o filme terminou a Awards Season praticamente da mesma maneira que começou – de mãos a abanar.

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Verdade seja dita, é fácil entender a receção crítica do filme pois, apesar de ter aspetos muito valerosos, o seu todo é problemático. Note-se, por exemplo, a diferença abismal que se nota entre a qualidade da primeira metade do filme e a segunda, mais rica em enredo e melodrama, ou como o epílogo é um total desastre que leva todo o filme a descarrilar a se enterrar num lamaçal de clichés típicos dos mais banais dramas de época imagináveis. Não bastasse tudo isso, A Luz entre  Oceanos sofre ainda de outro terrível problema – é honestamente entediante durante uma parte significativa da sua duração, por muito magníficas que sejam as imagens, quase Malickianas, que Cianfrance e o diretor de fotografia Adam Arkapaw passam o tempo todo a oferecer à audiência.

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Isto é relativamente trágico pois existem vários aspetos dignos de consideração e celebração neste filme. A começar pelo espetacular trabalho de Alicia Vikander. O ano passado, a atriz sueca arrecadou o Óscar de Melhor Atriz Secundária pela sua mais desinspirada e simplista prestação anglófona de sempre, em A Rapariga Dinamarquesa. É verdade que o seu desempenho, enquanto coprotagonista, é, de longe, a parte mais vibrante desse sonolento exercício de Tom Hooper. No entanto, não deixa de ser triste que esse trabalho medíocre vá para sempre ofuscar os seus esforços muito mais complicados e virtuosos como o deste filme. Michael Fassbender pode quase queixar-se do mesmo, depois de ter sido nomeado por um dos seus trabalhos mais problemáticos em Steve Jobs e depois abjetamente ignorado pela sua prestação sólida e inteligente em A Luz entre Oceanos. Dos figurinos, cenários, fotografia, e soberba maquilhagem de envelhecimento nem se fala. Este foi um filme bem maltratado pela Awards Season.

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Esta consideração de prémios nunca dados traz-nos a outra discussão importante que tem a ver com argumentos adaptados. Nas últimas páginas, temos vindo a falar de filmes baseados em trabalhos literários e, tirando a obra de Tim Burton, todos podiam ter sido bons concorrentes ao Óscar. O minimalismo elegante da primeira metade de A Luz entre Oceanos é de particular destaque, sendo bem contrastante com as desastradas explosões de exposição histórica que corroem o argumento inspirador de Elementos Secretos, a segmentação arrítmica do segundo ato de Lion ou a adaptação quase inexistente no guião de Vedações. Esses três exemplos foram nomeados ao Óscar ao invés de uma série de outros trabalhos imensamente mais merecedores.

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Como nota final, gostaríamos de lembrar alguns dos filmes que, por serem obras de autor, terem um carácter infantil ou serem originalmente em línguas que não inglês, foram completamente ignorados pela Academia no que diz respeito aos seus argumentos. Falamos da maravilhosa e elegante excisão melodramática feita por Pedro Almodóvar com o texto de Julieta, da insana sexualização e reinvenção histórica e geográfica de The Handmaiden e da interpretação taciturna que Kelly Reichardt fez dos contos de Maile Meloy em Certain Women. Também nos referimos ao modo como, ao adaptar O Principezinho, Irena Brignull e Bob Persichetti capturaram, não só a essência do livro como a experiência de o ler; ou o processo pela qual a forma episódica de Miss Hokusai sugere os ritmos de uma vida; ou os jogos transgressivos de Elle que foi adaptado de um livro de  Philippe Djian. Finalmente, referimo-nos ao filme mais injustamente ignorado nesta categoria, o brilhante e venenosamente divertido Amor & Amizade, onde Whit Stillman mostra que é o melhor tradutor cinematográfico do trabalho de Jane Austen (ainda melhor que Emma Thompson!).

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Enfim, na próxima página poderás encontrar outro exemplo que nos mostra como os óscares raramente celebram os atores pelas suas melhores prestações. Não percas!

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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