LEFFEST ’16 | Ma Loute, em análise

Em Ma Loute, Bruno Dumont cria uma insana paródia que envolve pescadores canibais, aristocratas incestuosos, um polícia voador e os milagres de Nossa Senhora.

ma loute leffest bruno dumont

A história da carreira cinematográfica de Bruno Dumont é uma de insanos contrastes e reviravoltas imprevisíveis. Tendo começado em Filosofia, a entrada deste francês no mundo da sétima arte foi marcada por um extremismo estilístico que primava o realismo austero acima de todas as outras possibilidades de expressão. Autênticos estudos das profundezas do sofrimento e depravação humana, as suas obras eram caracterizados por um formalismo quase Bressoniano acompanhado por um uso de não-atores do Norte de França. Então, em 2014 e sob uma encomenda da televisão francesa, Dumont fez a obra-prima de comédia que é P’tit Quinquin, um épico de mais de quatro horas que parece o que ocorreria se alguém pedisse a Jacques Tati que realizasse uma temporada de True Detective. Apesar do seu projeto seguinte se voltar a focar em temas espirituais à la Bresson, neste caso o julgamento de Joana d’Arc, Ma Loute, que estreou este ano em Cannes, é uma clara continuação dos temas de Quinquin.

Aliás, já houve muita gente que, na sua falta de criatividade e sentido crítico, foi rápida a acusar Ma Loute de ser uma simples e pueril reciclagem das mesmas ideias do épico televisivo. Enquanto é certo que existem similaridades notórias, reduzir Ma Loute a uma fotocópia vistosa de Quinquin é injusto para com ambos os trabalhos. Enquanto o épico de TV havia sido uma odisseia quase literária pelos grotescos da raça humana que terminava com a incompreensão humanista face ao mal, Ma Loute é um circo ensandecido, sem estribeiras nem conclusão bem definida.

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Esta é a história de uma zona costeira do norte de França em plena Bélle Époque. Junto a uma baía, onde se caçam ostras e se apanha mexilhão, uma série de desaparecimentos suscitaram o envolvimento da polícia local sob a forma de um par de investigadores que parece ser o perfeito ponto médio entre Laurel e Hardy e os Dupond e Dupont. Incompetentes e ridículos, Machin e Malfoy não se apercebem que os malfeitores são uma pobre família de pescadores, que têm chacinado os turistas ricos como fonte de alimento. O filho mais velho desta família dá o nome ao filme, e, com a ajuda de seu pai, tem um negócio em que carrega as mulheres endinheiradas de uma margem à outra da baía.

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Tal revelação dos costumes canibais destas pessoas poderá parecer um spoiler terrível, mas, ao contrário do que acontece em Quinquin, o mistério criminal nunca é o foco do filme. Na realidade, se existe um mistério central à narrativa de Ma Loute é um muito mais íntimo e de difícil definição. Falamos do género e sexualidade de Billie, uma jovem que captura o interesse romântico de Ma Loute e que veio passar o verão à localidade com seus tios e primas. Habitando numa casa ao estilo egípcio situado no cimo de uma alta colina, estes burgueses excêntricos são uma tresloucada caricatura das altas classes da sociedade francesa, cheios de manias grotescas, afetações teatrais e um historial de preconceito e incesto na sua história familiar.

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Essa família rica, de apelido Van Peteghem é composta por uma insólita coleção de celebridades, outrora inexistentes no cinema de atores amadores que Dumont. Fabrice Luchini é o patriarca, André, e vive num estado de constante histeria, excitando-se com as mais anódinas questões. Sua esposa é interpretada por Valeria Bruni Tedeschi que está bem à vontade no registo de humor seco mesclado de absurdismo slaptick que tanto caracteriza este esforço cómico. Por vezes estoica, outras vezes paralisada em expressões bizarras, ela é perfeita na mesma medida em que Juliette Binoche é terrível. No papel de Aude, a mãe de Billie, esta deusa do cinema francófono vê-se perdida num registo de teatralidade demasiado expressiva para este filme. Longe de parecer um alien intoxicado, como o restante elenco, Binoche simplesmente parece uma má atriz a fazer uma pueril paródia.

Uma coisa é certa, quando postos em contraste com os atores amadores, esta trupe de profissionais parece incontornavelmente forçada e assim se estabelece, mesmo a nível de método e metatextualidade, o principal tema de Ma Loute, ou seja, a guerra de classes. Apesar da imensa paródia do seu argumento e do crescente absurdo das situações em que as personagens se encontram – a certa altura, levitações miraculosas tornam-se algo recorrente – existe uma contracorrente de desenfreada crítica social, onde a burguesia usa os pobres como burros de carga e depois os denigre como inferiores engraçados e sem maneiras, ao mesmo tempo que os pobres se vingam, literalmente, usando os seus senhores como alimento. Colocar esta farsa no meio da Bélle Époque – época que exemplifica a elegância e sublimação artística da cultura francesa – apenas exacerba a ousadia política de Dumont que, em Ma Loute, se coloca em oposição a toda essa ideia de superioridade sofisticada francesa e aponta o dedo acusatório para as injustiças subjacentes a essa mesma cultura e á sociedade que a originou.

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Para tornar tudo ainda mais perverso, Dumont e sua exímia equipa criativa, criaram em Ma Loute um verdadeiro festim visual de recriação histórica aliada a um sentido estético mais perto dos absurdos da banda-desenhada que da sóbria respeitabilidade de um drama de época. A fotografia de alto contraste é especialmente bela quando conjugada com a expressividade caricaturada dos figurinos que exacerbam silhuetas de proporções hilariantes e a futilidade associada às modas da época. Mesmo a nível sonoro, Dumont mostra uma deliciosa vontade de subverter ideias de elegância e sofisticação, usando efeitos anti-naturalistas para fazer do inspetor Machin uma espécie de boneco insuflável que chia a cada movimento, e pontuações musicais quase operáticas em momentos onde as atitudes melodramáticas das personagens chegam ao seu rubro.

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No seu final, Ma Loute conclui-se com muito por explicar, apenas deixando como certeza um ato de piedade cuja motivação, mesmo assim, nunca é totalmente esclarecida. No entanto, será preciso entender por completo as intenções e os simbolismos de Dumont para se apreciar esta sua comédia? É verdade que a componente social do filme é um pouco incoerente quando emparelhada com a estrutura narrativa e que algumas inconsistências fotográficas tiram valor à polidez técnica, mas Ma Loute é, mesmo assim, uma das mais idiossincráticas e divertidas comédias do ano. Num panorama contemporâneo em que este tipo de slapstick parece estar quase extinto, ver um cineasta como Dumont celebrar os básicos prazeres de uma boa queda ou do desabamento de um espaldar, tem um valor intrínseco, nem que seja puramente arqueológico. Que, no seu âmago, Ma Loute é também uma obra de grande humanismo, não punitivo, escondido por entre grotescos e histerias, é a cereja no topo de um bolo temperado com absinto e muita criatividade.

Fabrice Luchini, Juliette Binoche, Valeria Bruni Tedeschi ma loute leffest bruno dumont

O MELHOR: A concretização estética do mundo de Ma Loute.

O PIOR: A prestação mal modulada e de insensata hipérbole de Juliette Binoche.



Título Original:
 Ma Loute
Realizador: Bruno Dumont
Elenco:
Fabrice Luchini, Juliette Binoche, Valeria Bruni Tedeschi, Brandon Lavieville, Raph

LEFFEST | Comédia | 2016 | 122 min

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CA

 

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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