Macbeth | O vestuário da tragédia escocesa

Em Macbeth, Jacqueline Durran criou um impressionante guarda-roupa de inspirações primordiais para vestir um elenco de luxo que inclui Michael Fassbender e Marion Cotillard.

Ao longo da sua carreira, a figurinista Jacqueline Durran tem sido responsável por alguns dos mais gloriosos guarda-roupas do cinema contemporâneo. As suas colaborações com o realizador Joe Wright são de particular louvor, com as suas criações para Anna Karenina, onde Durran mesclou a alta-costura francesa do século XX com estilos vitorianos, a lhe valerem um Óscar da Academia. Com tudo isto dito, há que salientar quão os figurinos que Durran concebeu para Macbeth se distanciam do glamour opulente dos filmes em que vestiu Keira Knightley.

Macbeth

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A peça de William Shakespeare, em que este recente filme de Justin Kurzel se baseia, é rica em tenebrosas referências a um mundo natural em constante tormenta e caos, com chuva, nevoeiro, humidade e ventanias a serem constantemente descritas no diálogo. Seguindo esses elementos textuais, Kurzel construiu uma visão quase apocalíptica desse drama seiscentista, com a paisagem escocesa a ganhar uma violência expressiva que infeta todos os elementos visuais do filme. Os figurinos de Durran não são exceção, com texturas rudes, manchas lamacentas e detalhes grosseiros a marcarem este guarda-roupa.

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O resultado final de tais escolhas foram figurinos que em si perfeitamente expressam a sanguinária visceralidade da história de Macbeth e a abordagem autoral de Kurzel. O estilo das roupas é quase primordial, sem grandes elementos decorativos, e os que há, executados com uma severidade que transcende a simples inspiração medieval. Aliás, tendo em conta a escassez de informação sobre as modas escocesas no início do passado milénio, Durran usou inspiração de várias civilizações, nomeadamente os Vikings do norte da Europa.

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Tais inspirações levaram a que o guarda-roupa final fosse algo mais próximo do fantástico que da reprodução histórica. Segundo a própria figurinista, a narrativa de Macbeth ocorre num lugar e tempo que estão além da civilização, pelo que a geral atmosfera é intencionalmente uma de primitiva fantasia. Por exemplo, na criação dos figurinos masculinos, Durran empregou formas inspiradas em indumentárias japonesas, concebendo um estilo híbrido de formas simplificadas e executadas em materiais grossos, naturais e manufaturados de modo imperfeito.

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Esta mistura de inspirações é particularmente notável nas roupas de Macbeth, que começa o filme num traje de batalha negro, criado a partir de linho e cabedal unidos por uma técnica típica das mais antigas armaduras de samurais. Mais tarde, aquando da sua traiçoeira subida ao trono, as cores do seu guarda-roupa viram-se para os brancos e dourados, e suas referências para os Vikings. Efetivamente, ele veste os mesmos estilos de Duncan, o rei que Macbeth impiedosamente assassina. Isto, para além de ser um brilhante exemplo do discurso visual de Durran, é uma perfeita tradução do texto de Shakespeare em que este caracteriza Macbeth como alguém que veste roupas demasiado grandes para o seu corpo, as roupas de um homem morto.

Macbeth

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O filme, com as suas constantes batalhas e sufocante ambiente de guerra, está maioritariamente povoado por personagens masculinas em trajes de guerra semelhantes aos de Macbeth, com os pormenores de heráldica a servirem de principal diferenciação. No entanto, as personagens femininas têm uma imensa importância nesta tragédia, nomeadamente a formidável Lady Macbeth, interpretada por Marion Cotillard.

Macbeth

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As ações desta senhora podem ser tão bárbaras como as dos homens que a rodeiam mas a sua aparência é bastante distinta, sendo que começamos por a ver como uma mãe enlutada, vestida em pesados figurinos de têxteis rudes em preto e rígidos capuzes. A única decoração visível, uma coleção de simples pregueados claramente feitos à mão e sem anacrónico auxílio de maquinaria. Isto muda bastante aquando da sua subida ao trono ocasião em que, tal como seu marido, os seus trajes passam a tons de cinza e branco, com especial destaque para o seu vestido de coroação. Nessa majestosa ocasião, Lady Macbeth aparece numa indumentária de inspiração árabe e bizantina, com um véu de seda tecida à mão a cobrir-lhe o rosto pintado, e um par de rosários a adornarem o seu peito.

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Qualquer análise visual deste Macbeth ficaria incompleta sem uma referência ao conflito entre paganismo e cristandade, um elemento temático sugerido pelo texto de Shakespeare que é usualmente ignorado em adaptações contemporâneas. Esse conflito é perfeitamente expresso no contraste entre os figurinos de Cotillard, onde o temor supersticioso de Lady Macbeth chega a uma apoteose visual, e as vestes das bruxas cuja profecia despoleta toda a trágica trajetória de Macbeth e sua esposa. As bruxas, aqui multiplicadas das três originais, vestem roupas de civilizações pagãs do Norte da Europa, mais distantes ainda que os Vikings. Nas peças que lhes cobrem o corpo estão cosidos pequenos sinos, cujo som é como que um agoiro de desgraças. Um perfeito toque de génio neste esplêndido feito de glorioso figurinismo.

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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