Os melhores guarda-roupas de 2016 | 4. Macbeth

Entre a realidade histórica e a fantasia, a figurinista Jacqueline Durran concebeu um memorável guarda-roupa para a mais recente versão de Macbeth.

 


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macbeth jacqueline durran

Entre as muitas mortes de artistas e celebridades que marcaram o annus horribilis de 2016, uma das que passou mais despercebidas foi a da figurinista e cenógrafa Janet Patterson, principalmente conhecida pelas suas colaborações com Jane Campion em filmes como O Piano e Bright Star. Podemos mesmo afirmar que ela era das melhores figurinistas no que diz respeito à invocação de épocas passadas, não tanto pelo modo como criava impecáveis reproduções dignas de museu, mas pelo modo como inseria idiossincrasias, peculiares escolhas de têxteis, assim como detalhes pessoais nos desenhos de época. Consequentemente, ela concebia visões que, apesar de sugerirem um contexto histórico transpareciam uma natureza intemporal, quase primordial.

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A razão pela qual invocamos o nome de Patterson deve-se ao modo como, na sua conceção do guarda-roupa de Macbeth, a figurinista Jacqueline Durran empregou o mesmo tipo de abordagem a uma época sobre a qual temos uma relativa razia de informação referente à indumentária – a Escócia medieval. Tal como nos filmes vestidos por Patterson, Macbeth apresenta um guarda-roupa rico em peculiares, quase fantasiosas, texturas, silhuetas e decorações reminiscentes de realidades históricas estilizadas, a Europa românica e bizantina. Também vemos alguns toques de idiossincrática modernidade que elevam o filme de um drama histórico a uma tragédia hermeticamente fechada numa realidade que, por muito semelhante à nossa, está bastante distante.

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Em termos de distanciação, Macbeth é um grotesco triunfo, sugerindo na imagem de Michael Fassbender vestido para a batalha, um demónio alienígena com a face coberta em igual medida por maquilhagem bélica e a sujidade sanguinária resultante da carnificina. O seu armamento, uma mistura de referências medievais e japonesas, apenas o torna mais estranho a nossos olhos habituados a associar a Europa Medieval a armaduras metálicas possantes. De igual modo, as suas túnicas simples e vestes reais, sugerem uma fantasia pagã mais do que um rei coroado pela santidade institucional da Igreja Católica, cuja imagética vai aparecendo pelo filme em bizarras apresentações meio apocalípticas.

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Por muito que a narrativa se foque na tragédia masculina, convém referir que, se há uma figura memorável nesta versão cinematográfica da peça Shakespereana é, sem dúvida, Lady Macbeth, interpretada por Marion Cotillard. Pela mesma lógica, as suas vestes são as mais impactantes, começando por pesadas indumentárias de luto em lãs pretas que incluem pesadas saias que ela puxa para cima e usa como um vistoso capuz. Tal solenidade enlutada desvanece-se a passo rápido, começando por dar lugar a silhuetas mais delgadas e sedutoras, antes de se transmutar na pureza branca, quase nupcial e hipócrita da sua indumentária de coroação. Esse sim, é o grande figurino do filme, sintetizando as suas inspirações históricas, os seus toques de modernidade anacrónica em detalhes como o pregueado da saia, e uso de imagética cristã, sob a forma de crucifixos, apresentada a um nível primitivo que relembra iconografia pagã.

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À medida que a espiral de obsessão, manipulação e amoralidade vai enterrando o casal Macbeth nas suas próprias ambições, a natureza primitiva dos figurinos vai-se intensificando e o fausto da Corte escocesa dá lugar a um constante jogo de mantos em linho e lã rude. A certa altura, Marion Cotillard parece uma visão espectral da Virgem Maria, algo que Kurtzel salienta com as suas escolhas formais. Por seu lado, Fassbender manifesta o definhar da sua personagem com uma fisicalidade animalesca e maníaca que é salientada pela simplicidade das suas roupas. Em contraste, os restantes aristocratas e guerreiros aparecem progressivamente sólidos em armaduras que lhes escondem os corpos e os tipificam como agoiros do violento final da trama.

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O singular toque de génio destes figurinos está contudo, não tanto na sua estilização e mistura de referências, mas no modo como Durran consegue fazer com que todas as indumentárias, por muito rebuscadas que sejam, pareçam orgânicas extensões do ambiente em que as personagens vivem. Não se trata de naturalismo, mas sim de uma certa tatilidade e harmonia entre os figurinos e os restantes aspetos visuais do filme. Também isso era um dos toques particulares da filmografia de Janet Patterson mas, com pessoas como Jacqueline Durran a trabalhar, podemos ter segurança que o mundo dos figurinos de cinema continuará a evidenciar trabalhos tão geniais como as criações de Patterson. Em 2017, Durran vai estrear um dos seus maiores projetos até agora com A Bela e o Monstro e, se tudo correr bem, talvez iremos ver o seu nome aparecer nesta mesma lista no ano que vem.

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Dos primórdios da História escocesa, a nossa lista volta à contemporaneidade na próxima página, sob o caloroso sol italiano e com um dos elencos mais sedutores que o cinema dos últimos anos nos ofereceu.

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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