Jaume Quiles, Nohelia Rodrigues e Alberto Gutiérrez, responsáveis pelo Madeira Fantastic Film Fest © Madeira Fantastic Film Fest

Madeira Fantastic FilmFest | Diretores do festival em entrevista exclusiva

Jaume Quiles, Nohelia Rodrigues e Alberto Gutiérrez estiveram em conversa em exclusiva à MHD para falar do Madeira Fantastic FilmFest. 

O Madeira Fantastic FilmFest está quase a chegar à Madeira, começando amanhã dia 12 de março e estendendo-se até ao próximo dia 16 de março. O objetivo é assustar o público madeirense que poderá assistir gratuitamente ao que de melhor é feito no cinema dos géneros de terror e do fantástico.

Mesmo assim, o MFFF preocupa-se apenas em deixar o público assombrado pelas histórias dos filmes, e que não tenha medo de sair de casa para marcar presença no festival. Verdade seja dita, o Madeira Fantastic FilmFest quer firmar-se como oferta cinematográfica de relevo entre os variados eventos culturais disponíveis na ilha da região autónoma.

Poucos deverão saber, mas habitualmente na Madeira e mais especificamente nas suas salas Cineplace e NOS, estreiam sobretudo filmes comerciais de Hollywood, comédias francesas de êxito e filmes portugueses mais ou menos comerciais. O cinema de autor é, por vezes, uma realidade desconhecida ao público madeirense, à excepção talvez dos Screenings Funchal que mensalmente têm trazido o melhor do certame internacional.

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A organização do MFFF falou connosco!

Madeira Fantastic FilmFest
Madeira Fantastic FilmFest

É por isso que nos últimos anos, nomes por detrás da AFTM – Associação do Filme, TV e Multimédia da Madeira têm procurado fortalecer os laços do público regional com o cinema mais independente e, por sua vez, chamar a atenção a pequenos festivais como é o caso do Madeira Fantastic FilmFest. Digamos que este festival dos géneros de terror e do fantástico é liderado por rostos da mudança, por pessoas que querem fazer do cinema uma arte para todos e não apenas para e sobre alguns. Com o Madeira Fantastic FilmFest chegam projetos de cineastas dedicados ao ofício, e tudo graças aos seus organizadores, grandes portadores da arte às gentes madeirenses.

Hoje estivemos numa conversa exclusiva com os diretores do Madeira Fantastic FilmFest: Jaume Quiles, Nohelia Rodrigues Andrade e Alberto Gutiérrez. Em conversa com estes “três mosqueteiros do MFFF”, a equipa da MHD procurou essencialmente saber aquilo que no repertório cinematográfico nacional, internacional e madeirense é promovido pela organização na 3ª edição do festival.

Ao mesmo tempo, visamos dar a conhecer o que preocupa Jaume Quiles, Nohelia Rodrigues Andrade e Alberto Gutiérrez no que diz respeito à necessidade de atrair mais público a festivais independentes como MFFF. Discutimos ainda os orçamentos e os custos que acarreta um festival como o Madeira Fantastic FilmFest. A entrevista intensa, mas não nos sentimos apavorados! Gritámos não de medo, mas de felicidade porque existem festivais como o Madeira Fantastic FilmFest para nos alegrar a alma e de nos transportar para o cinema.

Os géneros de terror e do fantástico conquistaram sempre o ser humano, estão intrínseco na nossa maneira de ser

MHD: Porque acham que o género de terror e o género do fantástico conquistam tanta gente nos dias de hoje? Qual a razão para as pessoas gostarem tanto de ser assustadas e aterrorizadas na sala escura do cinema?

Jaume Quiles: Os géneros de terror e do fantástico conquistaram sempre o ser humano, estão intrínseco na nossa maneira de ser e desde sempre temo-nos sentido atraídos pela descarga de adrenalina que pode produzir, por exemplo, um filme deste género. Ser assustado por um filme de terror produz uma sensação de euforia cientes de que o risco real é nulo. Trata-se de uma forma de entretenimento admitido, num lugar controlado. Por isso nos deixamos levar por este tipo de situações irreais que nos transportam para universos alternativos.

Nohelia Andrade Rodrigues: A sala de cinema é a caixa mágica que nos leva a mundos alucinantes, no qual cada espectador cria a sua própria percepção. Os géneros fantástico e de terror concedem-nos esse espaço surreal para experimentar sentimentos de angústia, temor e ansiedade. A sala de cinema converte-nos muitas vezes no veículo catártico do espectador.

Alberto Gutiérrez: O cinema de terror funciona sempre muito bem, já que o medo é um instinto primário, e muita gente desfruta de “ter medo” no cinema porque produz uma sensação que nos porta aos nossos sinais mais ancestrais e primitivos. Por conseguinte, o cinema de género fantástico transporta-nos a lugares e a situações da nossa imaginação, permitindo-nos converter-nos em personagens fantásticas, algo que de outro modo não seria possível.

Eu, a Nohelia e o Alberto conhecemo-nos no Madeira Film Festival. Foi a primeira vez que Alberto e eu viajámos até à Madeira e pareceu-nos que a ilha tinha uma auréa fantástica e misteriosa.

MHD: Como é que se ligaram ao Madeira Fantastic FilmFest e como é que este festival de cinema nasceu na Região Autónoma da Madeira?

Jaume Quiles: Eu, a Nohelia e o Alberto conhecemo-nos no Madeira Film Festival. Foi a primeira vez que eu e o Alberto viajámos até à Madeira e pareceu-nos que a ilha tinha uma áurea fantástica e misteriosa. Uns tempos depois reencontramo-nos em Madrid e aí, no terraço de um bar, surgiu a louca ideia de porque não criar um festival de cinema fantástico na Madeira. E aqui estamos 3 anos depois…

Madeira Fantastic Film Fest
O misticismo da floresta Laurissilva da Madeira. Foto de Flávio Joaquim.

Nohelia Andrade Rodrigues: Sim é verdade, conhecemo-nos na Madeira e já vimos que a ilha, como bem disse Jaume, tem uma áurea mística! Vimos que havia e, efetivamente, há tanto potencial para um festival dos cinemas do fantástico e do terror, como também para a rodagem de filmes relacionados com estes dois géneros.

Alberto: A Madeira é o lugar ideal para desenvolver o festival, tem essa magia especial para o cinema deste género.

A Madeira é uma ilha única, as suas paisagens podem-nos levar aos sentimentos mais idílicos aos sentimentos de profunda melancolia e muitas vezes de terror que a tornam única.

MHD: Em que se distingue o Madeira Fantastic FilmFest dos outros festivais de cinema existentes na Madeira?

Jaume Quiles: Obviamente o Madeira Fantastic FilmFest distingue-se do resto dos festivais da Madeira pela sua temática principal, os géneros fantástico e de terror. A sua programação não se pode ver em mais nenhum outro festival de cinema da Madeira e a entrada para o público é completamente gratuita.

Nohelia Andrade Rodrigues: A Madeira é uma ilha única, as suas paisagens podem-nos levar aos sentimentos mais idílicos aos sentimentos de profunda melancolia e muitas vezes de terror que a tornam única. E nada melhor que um festival do cinema de terror e do fantástico para poder viver de perto todas estas experiências.

Alberto Gutiérrez: O que nos diferencia não é apenas a temática, como também a nossa aposta inequívoca por filmes de formato de curta duração, que no caso destes géneros é ainda muito arriscada. As produções de terror tendem a necessitar de altos pressupostos, algo que não costumamos ver no mundo das curtas-metragens. É por isso que os cineastas afinam a sua sagacidade para poder levar a cabo as suas criações. Nós apenas colocamos o nosso grão de areia no apoio a estes criadores, expondo assim as suas obras no nosso festival.

MHD: Que filmes gostariam de destacar da programação desta 3ª edição do Madeira Fantastic FilmFest?

Jaume Quiles: É difícil destacar um filme em concreto. Eu destacaria a nova secção que temos este ano, que corresponde à secção oficial de longas-metragens. Nela competem 4 longas-metragens de diferentes géneros, e que acompanham muito bem a seção oficial de curtas-metragens. Contamos com filmes de alto nível com atores conhecidos em Espanha, Itália e República Checa. São projetos muito mais modestos, mas são uma proposta muito interessante para o público. Penso que, no geral, a programação é muito completa e variada. O público presente poderá desfrutar de todos os géneros que envolvam o terror e a fantasia, desde a ficção-científica, o gore, e até o humor ou a animação.

Nohelia Andrade Rodrigues: Tal como disse Jaume, penso que é difícil destacar algo em especial. A programação é tão variada tal como as edições passadas do Madeira Fantastic FilmFest, e de muito boa qualidade.

Madeira Fantastic Film Fest
Madeira Fantastic Film Fest

MHD: Qual o orçamento deste ano do Madeira Fantastic FilmFest? E já agora que apoios e parcerias suportam os custos?

Jaume Quiles: O valor é irrisório para um festival internacional desta envergadura. A parte económica é sustentada por mim, pela Nohelia e pelo Alberto com a nossa contribuição pessoal. Graças ao apoio da UMa – Universidade da Madeira – temos a sede do festival onde levamos a cabo as projeções, e graças à AFTM temos a promoção do festival. A AFTM cobre uma parte das necessidades técnicas das projeções. Inclusive, temos alguns voluntários que nos ajudam espontânea e desinteressadamente com a divulgação durante a semana do festival.

Nohelia Andrade Rodrigues: Somos nós três que economicamente sustentamos o festival mas, esperamos que para as próximas edições possamos contar com patrocinadores.

MHD: Acham que o público madeirense é admirador de sétima arte ou que ainda há um longo caminho a percorrer para conquistar mais espectadores? Que ferramentas seriam tidas em conta para captar mais a sua atenção?

Jaume Quiles: Penso que os espectadores madeirenses são amantes de cinema, mas como bem dizes acho que há ainda um longo caminho para percorrer. É preciso fazer com que as pessoas saiam de casa, da frente da sua televisão. O comodismo que oferece o sofá, e a dificuldade em irem para a sala de cinema é uma realidade com a qual temos que lutar. Nós oferecemos a experiência de viver em grupo, na sala escura do cinema e no grande ecrã o terror, o fantástico e como já dissemos até a comédia. Por isso oferecemos uma programação que não se pode consumir em casa, que não se encontra na televisão e nem sequer na internet. Só e apenas no nosso evento.

a falta de financiamento consegue converter-se em algo positivo, pois permite a que os criadores tenham muita mais liberdade na hora de abordar o género, daquela que costumam ter um cineasta mais “atado” às exigências de uma grande produção.

Nohelia Andrade Rodrigues: Efectivamente há um longo caminho a percorrer. O público madeirense pouco a pouco tem-se acostumado a assistir a festivais de cinema alternativos ou não comerciais. Muitos são os eventos e festivais na região e, não apenas este dois géneros do fantástico e de terror têm despertado o interesse da população em compartir e desfrutar em espaços culturais de bons filmes. Um dos objetivos do Madeira Fantastic FilmFest é criar uma plataforma sólida para criar mais atividades relacionadas ao género e envolver cada vez mais o público. Para isso, e retomando a pergunta anterior, necessitamos de mais apoios e patrocínios.

Alberto Gutiérrez: Conseguir público é algo cada vez mais difícil, não importa se seja na Madeira, em Barcelona ou Moscovo. As pessoas têm muitos conteúdos acessíveis desde a palma da sua mão. Além disso, se somas a falta de financiamento que te limita à hora de conseguir promover e dar visibilidade a um evento como o MFFF tudo é ainda mais complicado. De todos os modos acreditamos que também é uma questão de tempo, se lutas por estabelecer um projeto cultural com conteúdos interessantes, pouco acessíveis ou pouco conhecidos pelo público finalmente esse mesmo público mais cedo ou mais tarde acabará por surgir.

MHD: Diriam que os filmes de um festival de cinema fantástico e de terror tendem a ser distintos das narrativas demasiado previsíveis dos filmes do género que estreiam nas salas de comerciais?

Jaume Quiles: Totalmente. No Madeira Fantastic FilmFest, o público não encontrará um programa típico de uma grande sala de cinema. Os nossos filmes são independentes, mas não por isso de pior qualidade, pelo contrário. Os realizadores e cineastas destes filmes têm a liberdade absoluta para indagar nos géneros e contar as suas histórias mais pessoais. E graças a festivais como o nosso têm a visibilidade e reconhecimento que merecem. O público não deve deixar de assistir aos nossos festivais de cinema e conhecer o trabalho dos futuros realizadores de cinema.

Alberto Gutiérrez: Precisamente, como comentava antes, a falta de financiamento consegue converter-se em algo positivo, pois permite a que os criadores tenham muita mais liberdade na hora de abordar o género, daquela que costumam ter um cineasta mais “atado” às exigências de uma grande produção com alto valor de financiamento. É por isso que acredito que para o público será algo muito mais interessante tendo em conta aquilo que poderá desfrutar se assistir às projeções do Madeira Fantastic FilmFest.

Madeira Fantastic Film Fest
Um dos organizadores do MFFF destaca Blade Runner como apoteose do cinema géneros de terror e fantástico

MHD: Qual o filme fantástico que viram mais vezes nas vossas vidas?

Jaume Quiles: “El día de la bestia” (1995), de Alex de la Iglesia.

Nohelia Andrade Rodrigues: “Honogurai mizu no sokokara (Dark Water)” (2002), de Hideo Nakata.

Alberto Gutiérrez: “Blade Runner” (1982) de Ridley Scott, para mim um dos melhores, senão mesmo o melhor filme do género, ou até mesmo de toda a história do cinema.

MHD: Numa frase: o que faz um grande filme do género fantástico?

MFFF (os três): É natural ter medo!

MHD: Obrigado!

MFFF: Obrigado a ti!

 

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