Maggie Tem Um Plano, em análise

Maggie Tem Um Plano de Rebecca Miller é o perfeito exemplo de um filme cuja existência é singularmente justificada pela rapsódia de brilhantes prestações do seu elenco, que inclui Greta Gerwig, Julianne Moore e Ethan Hawke.

maggie tem um plano

No começo de Maggie Tem Um Plano, encontramos a personagem titular num diálogo extremamente expositivo com um dos seus amigos. Aqui, ela informa a audiência do seu mais recente plano de vida, ter um bebé, cujo pai será um antigo colega de faculdade agora tornado num aspirante empresário da indústria de pickles. Seria de esperar que este fosse o plano titular e que o restante filme tratasse dos problemas de tal esquema, afinal estamos a lidar com uma jovem nova-iorquina interpretada por Greta Gerwig e esse tipo de personagem normalmente não é nenhum exemplo de estabilidade ou maturidade. No entanto, o plano que dá nome ao filme pouco ou nada tem que ver com este desejo maternal. Na verdade, o plano titular está infinitamente mais relacionado com George, um colega de Maggie, ambos professores numa universidade local.

Inicialmente, Maggie entra em contacto com George através de um clássico meet cute, em que, devido aos seus apelidos semelhantes, ela recebe o cheque do colega. Este encontro, depressa resulta numa amizade fortemente apoiada em amor literário. George está a escrever um romance, sua primeira obra de ficção, e pede a Maggie que leia o seu rascunho e lhe vá dando a sua opinião, Tudo isto ocorre ao mesmo tempo que George se vai sentindo cada vez mais infeliz e encurralado no seu casamento com a carismática e cortantemente genial Georgette, uma académica de nome muito mais importante que seu marido. É fácil perceber para onde esta situação acaba por cair, sendo que a originalidade narrativa não é uma característica particularmente marcante de Maggie Tem Um Plano.

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E assim, a narrativa salta no tempo, e encontramo-nos com Maggie e George, agora casados e com uma filha concebida mais ou menos ao mesmo tempo que Maggie tentava inseminar-se com a progénie do seu conhecido visionário dos pickles. No entanto, o que outrora foi uma fogosa paixão atiçada pelas chamas da admiração intelectual, depressa se tornou numa aborrecida e sufocante relação em que Maggie tem de cuidar do inseguro George como se fosse sua mãe. Aqui, Georgette reentra nas suas vidas e emerge o verdadeiro plano do título, reunir o casal de ensandecidos académicos e assim livrar-se do fardo de um marido indesejado sem causar desnecessárias infelicidades.

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Este é um filme que segue a onda de comédias intelectuais urbanas à la Woody Allen que têm consumido a produção independente americana há décadas, e a sua narrativa segue fortemente esses cânones acabando por se tornar numa farsa protagonizada por pessoas neuróticas a viver no privilégio da elite intelectual de Nova-Iorque. A maior diferença entre este e os outros filmes que compõe essa numerosa família cinematográfica é mesmo o toque de desconcertante sinceridade e complexa seriedade emocional que a realizadora Rebecca Miller e o seu elenco conseguem desenterrar do edifício de clichés e desenxabida forma que é o seu filme.

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Greta Gerwig é particularmente espetacular como Maggie, uma personagem que lhe possibilita a rara oportunidade de interpretar a pessoa mais madura e sã de uma comédia. Aqui, Gerwig está longe do registo que tanto a caracteriza na obra de Noah Baumbach e interpreta uma figura mais próxima de uma Emma Woodhouse contemporânea. É precisamente a sua inteligência e maturidade que fazem com que, quando tudo começa a correr mal, a audiência realmente sinta a sua angústia que emerge organicamente da sua caracterização e não é rudemente forçada por um guião rico em deselegantes soluções narrativas.

Tão louváveis como Gerwig são Ethan Hawke e Julianne Moore como George e Georgette. Hawke volta a afirmar-se como o rei vigente do naturalismo descontraído e consegue fazer com que a personalidade insuportável da sua personagem seja minimamente simpatética, o que não é fácil. Por seu lado, Moore dispensa quaisquer impulsos erróneos de naturalismo e dá vida a Georgette com toda a impetuosidade caricaturesca de uma vilã de uma screwball comedy dos anos 30. Desde o seu sotaque ridículo até à cortante inteligência sempre presente no seu olhar, Moore é uma presença de divina genialidade neste filme, encontrando humor e ácidos toques de tragédia pessoal mesmo nas falas mais desastradamente pretensiosas.

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Na verdade, Maggie Tem Um Plano vive singularmente do trabalho dos seus atores, sendo que, para além dessa contracorrente de invulgar seriedade emocional, a direção de Miller é tristemente banal. Mesmo o guião está pejado de fragilidades, como os já mencionados clichés narrativos e o seu irritante uso de irrealista híper verbosidade académica como fonte de humor. Aliás, a única razão pela qual esses academismos não afundam o filme, são os atores que estão encarregues de vomitar estas torrentes de palavras. A partir das virtuosas interpretações de Gerwig, Hawke, Moore e também de Maya Rudolph e Bill Hader, Maggie Tem Um Plano acaba por revelar alguns momentos de puro génio em que o seu elenco de personagens se parece aperceber de quão absurda é a sua maneira de encarar a vida e que por vezes a intelectualização e referencialidade das suas palavras em nada os ajudam quando têm de lidar com as suas caóticas crises pessoais.

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A certa altura desta insana história, a Georgette de Julianne Moore olha astuciosamente para Maggie e diz: “Há algo tão puro em ti. E estúpido” e o mesmo poder-se-ia dizer de todo o filme. Apesar das suas deliciosas caracterizações e surpreendente contracorrente de sinceridade anti irónica, Maggie Tem Um Plano é vítima de uma corrosiva montanha de problemas textuais e uma clara falta de interesse em fazer algo formalmente interessante com a sua história. Podemos admirar a sua pureza, mas há que aceitar e reconhecer o amargo travo de estupidez e inconsequência que afetam esta leve e ocasionalmente astuta sobremesa cinematográfica.

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O MELHOR: O genial elenco de luxo, especialmente Julianne Moore e Greta Gerwig que transcendem as limitações textuais das suas personagens e injetam saudáveis doses de inteligência e virtuosismo interpretativo a uma narrativa com notórios sinais de anemia dramática.

O PIOR: O final extremamente previsível e sua horrenda tentativa de resolver todos os conflitos do filme e atar um bonito laçarote em volta de todas as personagens e suas vidas.


 

Título Original: Maggie’s Plan
Realizador:  Rebecca Miller
Elenco: Greta Gerwig, Ethan Hawke, Julianne Moore
NOS | Comédia, Romance | 2015 | 98 min

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CA

 

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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