˝Marriage Story" | © Netflix

Marriage Story, em análise

Adam Driver e Scarlett Johansson arrasam no mais recente filme de Noah Baumbach, o lacerante gesto de autoficção “Marriage Story”. A obra competiu no Festival de Veneza e agora está disponível na Netflix.

Em 2001, Noah Baumbach era um cineasta nova-iorquino em ascensão com um par de filmes independentes e um punhado de boas críticas no seu repertório. Nesse ano ele conheceu Jennifer Jason Leigh, uma das mais audaciosas atrizes americanas dos anos 80 e 90, uma estrela que conquistou Hollywood com uma comédia de adolescentes e depois dedicou a carreira a arriscadas propostas performativas. Quatro anos passados desde esse primeiro encontro, realizador e atriz casaram. Eles tiveram um filho juntos e até colaboraram artisticamente, com Leigh a entrar nos projetos do marido. Contudo, a bonança não estava destinada a durar e o casal separou-se no crepúsculo da segunda década do século XXI. O divórcio começou em 2011, em Los Angeles, e veio a ser finalizado em 2013.

Este remexer de detalhes da vida pessoal de artistas não é um mero gesto de sensacional bisbilhotice. Acontece que, como muitos outros criativos, Baumbach vai buscar muita inspiração à sua vida pessoal e era inevitável que a sua turbulenta relação com Leigh fosse explodir no grande ecrã. O resultado do sofrimento pessoal filtrado para o feito artístico, no entanto, surpreende pela sua falta de fúria. Quando realizadores exploram o divórcio no cinema, é normal vermos enraivecidos hinos de misoginia e revolta à la “A Ninhada” de Cronenberg ou a “Possessão” de Zulawski. “Marriage Story” foge a tal regra e, desde o seu primeiro gesto, tenta estabelecer um retrato putativamente igualitário do casal em separação.

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Tudo começa com uma lista de detalhes pessoais. Charlie fala sobre o que ama em Nicole e Nicole fala do que ama em Charlie. Ao início, isto pode parecer um monólogo interno, mas depressa se revela como um exercício terapêutico. Não obstante as tonalidades amorosas das suas palavras, esta relação já se desmoronou e marido e mulher estão na presença de um mediador de separações. De certa forma, “Marriage Story” é um título que engana, pois esta não é uma história de matrimónio, mas sim uma história de divórcio. Ou melhor, para Nicole esta é a história de um divórcio pois a relação já morreu antes do filme começar. Para Charlie, é a história de um casamento que ele julgava seguro, mas não estava, e a sua imparável aniquilação.

Nestes primeiros instantes, a câmara de Baumbach curiosamente escolhe simpatizar mais com a figura de Nicole. Vemos como ela já nem tem energia para apontar as hipocrisias egocêntricas do marido, como ouve críticas e chora na privacidade do quarto, como para ela já não há volta a dar. Acabar a relação com Charlie é tão necessário como remover um tumor maligno e o processo cirúrgico começa com uma viagem para Los Angeles. Nicole quer voltar às suas raízes, à televisão e a Hollywood, à Califórnia onde nasceu e cresceu, onde a sua família ainda mora e onde a indústria está preparada para a receber de braços abertos depois de anos perdidos na realidade obscura do Teatro avant-garde encenado por Charlie.

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É na casa da mãe que Nicole prepara os documentos para iniciar o divórcio, um processo que seria muito mais fácil se o casal não tivesse um filho pequeno. Henry assim fica no epicentro de uma tempestade de ressentimentos dolorosos que ele não tem ainda a capacidade de perceber. Transplantado de Nova Iorque para Los Angeles, o menino parece preferir viver no mesmo estado que os seus primos chegados, mas Charlie só consegue ver na situação as manipulações de uma esposa traiçoeira. Os ânimos só se exaltam mais quando as questões pragmáticas do divórcio se começam a revelar em toda a sua feiura e o imbróglio cai nas mãos de vorazes advogados de Hollywood. Nora Fanshaw, a advogada de Nicole, é particularmente poderosa na sua influência sobre a separação, mas é Charlie quem dá o passo final que torna o conflito numa guerra aberta na sala de tribunal.

Ao longo de duas horas e um quarto, Baumbach vai revelando a transformação gradual das personagens e da relação. O casamento estrangulador do início começa por se desfazer sem animosidades, mas gradualmente a coisa lá se transforma num inferno. Se, ao início, os dois parceiros engolem os sapos do ressentimento, quando as labaredas judiciais estão em alta, eles perdem a contenção. Num par de cenas titânicas, testemunhamos a crueldade de que os dois são capazes. Com isso dito, convém mencionar que Charlie é quem ocupa mais tempo em frente à câmara. É a sua perspetiva que domina o filme, mas é Nicole que se revela como a alma da narrativa. Ela compreende por que razão o casamento não funcionou. Charlie, por seu lado, vive em constante negação até que a verdade lhe rebenta na cara.

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Charlie foi um mau marido. O que poderiam ser meras negligências nascidas da casual distração foram-se transformando num gesto sistemático de opressão matrimonial. As vontades de Nicole vinham sempre em segundo ou terceiro lugar e só as prioridades dele moviam a família. A parte mais perversa do seu egoísmo é que nem ele mesmo se apercebia da sua existência. Até para o espectador pode ser difícil de entender até que Nora lhe explode a muralha de defesas ilusórias com um comentário sagaz. A relação acrimónia do início não era um simples casamento infeliz, mas um amor tóxico cujo veneno estava a atordoar as suas vítimas. Quando a verdade se torna impossível de ignorar, tanto ele como ela se desapegam em lutas infernais. Ele diz desejar a sua morte e depois chora até que ela o consola. Estas são as perversidades casuais das relações abusivas que são invisíveis para aqueles que nunca viveram algo semelhante.

Com isso dito, “Marriage Story” não tem vilões. Charlie pode estar mais errado que Nicole, mas a tragédia da sua história é o fruto do conhecimento. Num interlúdio musical, quase no fim da obra, vemos na cara de Adam Driver o horror de alguém que acabou de se aperceber da sua banalíssima monstruosidade, da sua culpa. O ator é extraordinário em todo o filme, mas este é o ponto alto de uma das performances do ano. Scarlett Johansson, como Nicole, não lhe fica atrás, usando microexpressões como um sorriso abortado ou um sobrolho trémulo para dizer o que cem monólogos não conseguiriam. Laura Dern faz de Nora uma força da natureza e Ray Liotta e Alan Alda são um diabo e um anjo no limbo do divórcio litigado. O melhor de tudo é que Baumbach não se deixa ficar displicente atrás da câmara. “Marriage Story” é uma obra cuidadosamente criada, com ritmos precisos e movimentos de câmara bem orquestrados, figurinos escolhidos a dedo e uma filmografia que é bela e modesta em igual medida. Este filme é daqueles que faz doer, mas também diverte com surpreendente comédia. Ele compensa a dor com a flor da catarse e o milagre do entendimento humano.

Marriage Story, em análise

Movie title: Marriage Story

Date published: 2019-12-09

Director(s): Noah Baumbach

Actor(s): Adam Driver, Scarlett Johansson, Azhy Robertson, Laura Dern, Alan Alda, Ray Liotta, Julie Hagerty, Merritt Wever, Wallace Shawn, Kyle Bornheimer, Martha Kelly

Genre: Comédia, Drama , Romance, 2019, 136 min

  • Cláudio Alves - 90
  • Maggie Silva - 90
  • Daniel Rodrigues - 100
  • Marta Kong Nunes - 90
  • José Vieira Mendes - 80
  • Inês Serra - 85
  • Virgílio Jesus - 70
  • Rui Ribeiro - 80
86

CONCLUSÃO:

“Marriage Story” enfeitiça os sentidos e estilhaça o coração. Estas Cenas da Vida Conjugal do século XXI são um dos maiores triunfos na carreira de todos os envolvidos, desde o realizador até ao mais secundário dos atores.

O MELHOR: O trabalho dos atores, o ballet da montagem no fechar de um portão, a infantilidade de um homem em lágrimas a pedir misericórdia à esposa maltratada.

O PIOR: O desequilíbrio de tempo de ecrã entre ele e ela.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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