Marriage Story | © Netflix

76º Festival de Veneza | Marriage Story: Cenas de um Divórcio

Scarlett Johansson e Adam Driver vivem uma crise matrimonial em ‘Marriage Story’, o novo filme de Noah Baumbach, que recria de certo modo as emoções de seu próprio e doloroso divórcio.

Marriage Story de Noah Baumbach era também um dos filmes mais esperados desta competição. Com a história de um casamento em ruptura, o realizador norte americano Noah Baumbach (A Lula e a Baleia, e ‘Enquanto Somos Jovens’), centra-se nas ‘cenas de um divórcio’, onde é parcialmente revista a sua experiência pessoal, passada há dez anos atrás, aquando da separação da sua (ex) esposa a actriz Jennifer Jason Leigh. Conheço bem este assunto, dizia Baumbach, além de ter passado por um divórcio trago comigo as memórias de um filho de pais divorciados. As conversas com tantos amigos que passaram por esta experiência dolorosa também ajudaram. Na verdade, o drama do filme é essa experiência vivida por muitos casais com filhos, que por uma razão ou outra se separam e acabam por transformar amor, num pesadelo judicial, existencial e humano — dependentes das negociações de advogados e das decisões dos tribunais de família — e às vezes num trauma para as crianças.

Marriage Story
Adam Driver (no quarto filme com Baumbach) e Scarlett Johansson (o primeiro com o realizador). | © Netflix

Para dar vida ao ‘casal modelo’ nesta história de um amor à deriva, que culmina num ‘esticar da corda’, Baumbach escolheu dois excelentes atores: Adam Driver (no quarto filme com Baumbach) e Scarlett Johansson (o primeiro com o realizador), que colam perfeitamente com as jovens personagens de ‘Marriage Story’, uma espécie de Kramer Contra Kramer, da actualidade. Driver interpreta Charlie, um encenador e director teatral, casado com a atriz Nicole (Johansson). A partir do momento em que o casal caminha para uma separação definitiva há como que um crescendo de tensão entre os dois, que vão enfrentar por causa da complexidade do caso — ela regressa a casa da mãe para trabalhar na rodagem de uma série de televisão, em Los Angeles, ao passo que ele tem de permanecer em Nova Iorque com a sua companhia teatral — e sobretudo devido à disputa pela custódia do filho de 6 anos.

Lê Também:
Óscares 2016 | Os prémios da MHD vão para...

TRAILER DE ‘MARRIAGE STORY’

‘Marriage Story’ é filmado em 35 mm em planos apertados, que parecem inspirados abertamente em A Máscara de Ingmar Bergman, (ou poderia ser igualmente de Cenas de Um Casamento), mesmo no que toca aos poucos momentos musicais da história. ‘Marriage Story’ é um filme muito simples e emocionante, em que quase todos os espectadores se identificam ou colocam um pedaço de si num drama tocante e sensível. É um dos filmes com a marca N (Neflix), que aliás curiosamente criou alguns aplausos e reações contrárias na sessão de imprensa da competição.

The Perfect Candidate
A bela Maryam (Mila Al Zahrani), uma médica que no seu dia-a-dia luta pelos seus direitos. | © Al Mansour Est. for Audiovisual Media

A cineasta saudita Haifaa Al Mansour (O Sonho de Wadjda) trouxe igualmente à competição um dos filme mais belos e sensíveis até agora. É um projeto algo ingénuo, com uma história da emancipação de uma mulher passada no seu país natal, que denuncia e procura quebrar convenções sociais e religiosas. Apesar de ser uma estreia na competição, a realizadora saudita já tinha apresentado ‘The Green Bicycle’, em 2012 na Orizzonti, outra história de defesa dos direitos das mulheres e talvez o primeiro filme rodado por uma mulher na Arábia Saudita. Num momento de aparente abertura em relação ao papel das mulheres sauditas — agora podem inclusive guiar um automóvel, como a protagonista — Haifaa concentra-se numa jovem mulher que, com uma enorme coragem e determinação, tenta subverter as sufocantes regras de uma sociedade patriarcal e antiquada que deliberadamente atrapalha há tanto tempo o seu desenvolvimento e a igualdade de géneros. ‘The Perfect Candidate’ conta o extraordinário desafio da bela Maryam (Mila Al Zahrani), uma jovem e ambiciosa médica hospitalar, que no seu dia-a-dia, apesar de seu profissionalismo, tem de conquistar a pulso o respeito dos seus colegas e pacientes do sexo masculino. Impedida de participar num seminário de medicina no Dubai, devido a um problema com os seus documentos, Maryam decide quebrar todos os padrões tradicionais concorrendo às eleições do concelho municipal, independentemente das limitações sociais e contra tudo e contra todos. Uma palavra para os momentos musicais que são um apuro e uma novidade igualmente para os apreciadores das ‘músicas do mundo’.

JVM em Veneza

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *