"Martin Eden" | © LEFFEST

LEFFEST ’19 | Martin Eden, em análise

Luca Marinelli venceu o prémio para Melhor Ator em Veneza pela sua prestação em “Martin Eden”. Este épico italiano chega agora a Portugal graças ao Lisbon & Sintra Film Festival.

“Martin Eden” foi o décimo romance publicado por Jack London e marcou um gesto de particular autoficção pela parte do pioneiro literário americano. London foi um escritor autodidata e, graças às fortunas ganhas com as suas obras, conseguiu escalar a hierarquia social e económica. De origens humildes, ele tornou-se num homem de sucesso, mas jamais virou as costas à causa socialista ou às maladias do proletariado empobrecido. Nesse romance, London concebeu uma história reminiscente da sua mesma biografia, mas fez da figura titular um seguidor de ideologias individualistas, um ativo inimigo do socialismo que acaba por ser cosmicamente punido pela sua arrogância e monstruoso egoísmo.

Dando forma trágica à sua adaptação literária do romance, o realizador Pietro Marcello começa “Martin Eden” com uma portentosa confissão de derrota. Pela voz do ator Luca Marinelli ouvimos que o mundo é mais forte que Martin Eden. O tom é de fracasso, é pesado e ateia o pavio da desgraça inevitável. Até ela se manifestar, contudo, a história parece posicionar este homem como um herói romântico ao invés de um alerta para o veneno do individualismo selvagem. Tudo é uma questão de aparências e subterfúgios, de fachadas sociais e arquétipos narrativos. Alguns poderão acusar o realizador de deturpar as intenções originais de Jack London, mas lá porque Marcello não declara as suas intenções com gritos ribombantes não significa que elas sejam menos clarividentes para o espectador atento.

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Por entre imagens de arquivo e fragmentos documentais, chegamos a uma Itália perdida no tempo. Por essas marés de anacronismos incertos, navega um marinheiro sem pretensões de grandeza infundada. Ele é Martin Eden e sua beleza é só superada pela confiança com que seduz donzelas em portos anónimos e confronta rufias. De uma dessas altercações mais violentas, Eden ganha acesso à casa de uma família abastada e lá trava conhecimento com a mais bela das suas paixões. Elena Orsini é como uma flor de estufa, uma espécie rara e sedutoramente inatingível, a Daisy do Gatsby prefigurado pelo marinheiro. No dia em que a conhece, ele também cruza o caminho com outra voz que lhe vai mudar o rumo. Trata-se da prosa de Baudelaire.

Inspirado pela glória verbosa de livros prendados e inebriado com a ambição de um homem apaixonado, Martin decide tornar-se escritor. De Elena só vêm ambíguas palavras de retribuição amorosa e uma enchente de conselhos inúteis. Fala-se de instrução, mas essa está vedada àqueles que não têm dinheiro com que a pagar. Fala-se de talento, mas o mundo da publicação é feito de sorte e cunhas. Fala-se de histórias reais, mas o que o público quer são sonhos escapistas e não espelhos de miséria. Com todos estes obstáculos, Martin Eden se confronta e, gradualmente, a sua luta com a derrota começa a deixar vislumbrar a possibilidade de um futuro fortunado.

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Com o dom da palavra e a ambição de escalada social vem também a arrogância e um sentimento de individualismo que corrompe. Apesar de em seu redor os pobres se organizarem em volta de movimentos sindicalistas e de socialismo, o escritor aspirante tudo rejeita. Ele acredita no mito da meritocracia e no poder do indivíduo, fermentando no seu coração tanto escárnio pelos pobres que lutam por uma vida melhor como pelos liberais enriquecidos que se julgam isentos de ideologia socialista. Esse escárnio torna-se na imagem de marca do escritor e é dele que nasce a flor do triunfo literário e de onde provém a chave que lhe abre as portas a uma nova prosperidade. Só que, pelo caminho, houve muita perda.

Perderam-se amores e perderam-se ideais. Mais importante ainda, perderam-se amigos lúcidos o suficiente para questionar a ganância e o elitismo de Martin Eden. De facto, é o suicídio de um desses amigos que despoleta a última secção da história, quando a identidade tonal da obra realmente se afirma. Se até então, o filme se perdia em romantismos penosos, o último ato catapulta a produção para o patamar da tragédia e esclarece qualquer intransigência tonal. Aí, encontramos o escritor depois de ter completado a escalada social, depois de ter alcançado tudo o que queria e de se encontrar encurralado no niilismo do sucesso sem valor. De que serve a vitória quando não há mais nada para vencer e quando não se acredita em nada que não a glória do próprio?

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No final, tudo culmina numa coda metafísica e Marcello cede o filme ao ator principal. Luca Marinelli pega na oportunidade e faz o melhor que consegue com ela, concluindo o arco da personagem sem redenções ou sentimentalismos desnecessários. O que ele faz é mostrar a corrosão da pessoa e do espírito, ilustrando a dor de quem se apercebe da sua mesma corrupção e não lhe vê alternativa. Tudo isto o ator faz depois de ter passado todo um filme como o prototípico anti-herói a resvalar do romantismo para o veneno político. Sem dúvida, trata-se de uma performance e peras, um ato de caracterização que tanto vai buscar às complexidades do texto como ao carisma natural do ator. Martinelli tem o aspeto de uma estrela de matiné e sabe minar essa mesma qualidade e, em simultâneo, retorcer-se em epítetos de naturalismo feio e gesticulação dramática à moda italiana.

Num filme menos extraordinário, o ator poder-se-ia ter afirmado como sua maior mais-valia. Contudo, “Martin Eden” tem muito mais para oferecer do que a extraordinária prestação do seu protagonista. A adaptação textual impressiona, nem que seja pela sua transposição de prosa laboriosa para cinema etéreo. Há também a transformação de um conto americano de 1909 numa história intrinsecamente italiana, numa tese sobre os ciclos repetidos da história que ganha tanto mais peso pelo modo como o realizador usa imagens de arquivo e indefine o lugar temporal da ação. “Martin Eden” é tanto o retrato do escritor individualista como a pintura do século XX e seus vícios, suas mentiras e ilusões. Tal engenho não vacila sob o peso das suas mesmas ambições e muito disso se deve ao primor estético do exercício. Esteticamente, não há incoerência e o ritmo faz tudo para sugerir a memória fragmentada ao invés do facto frio e imediato. Ver “Martin Eden” é como ver a Europa sonhar sobre as tragédias do século XX que parecem condenadas a repetir-se.

Martin Eden, em análise
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Movie title: Martin Eden

Date published: 21 de November de 2019

Director(s): Pietro Marcello

Actor(s): Luca Marinelli, Jessica Cressy, Vincenzo Nemolato, Marco Leonardi, Denise Sardisco, Carmen Pommella, Carlo Cecchi, Autilia Ranieri, Elisabetta Valgoi, Chiara Francini

Genre: Drama, Romance, 2019, 129 min

  • Cláudio Alves - 85
85

CONCLUSÃO:

Depois de muitos anos dedicados à arte do cinema documentário, Pietro Marcello assinala, com “Martin Eden”, a sua primeira longa-metragem ficcionada. Trata-se de um romance que tomba na tragédia, uma farsa política orientada pelo indivíduo desgraçado pelo fado do século XX. Imagens granulosas e ritmos mutáveis, prestações evocativas e a música do desgosto amoroso dão cor e muita vida ao drama.

O MELHOR: A fotografia em 16mm de Alessandro Abate e Francesco Di Giacomo, a transparência emocional de Luca Marinelli e a realização astuciosa de Pietro Marcello.

O PIOR: Certas figuras são meramente esboçadas e o filme seria mais rico se lhes dedicasse algum do seu esforço caracterizante. A eventual esposa do protagonista é uma vítima particularmente infeliz de tais limitações.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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