"Midway" | © NOS Audiovisuais

Midway, em análise

Midway” ataca-nos do ar com uma precisão visual estrondosa, mas falha o alvo principal ao ser incapaz de provocar dano na alma com uma emoção genuína.

Quando ouvimos falar que “Midway” – a batalha aeronaval mais famosa da Guerra no Pacífico, seria recriada pelo espalhafatoso cineasta alemão, Roland Emmerich (Dia da Independência), revirámos logo os olhos com o óbvio ceticismo de quem não estaria a contar com tamanha informação dramática. A verdade é que, o seu percurso cinematográfico, não abona muito a favor daquele tipo de registo emocional que vai à medula extrair o grito agudo e o berro ensurdecedor, algo que é genericamente confirmado em “Midway”. Poder-se-ia argumentar, que uma fita que retrata os horrores da guerra, não tem necessariamente de aumentar os decibéis da sua emocionalidade para se fazer ouvir com estrondo, e um exemplo bem clássico de que os silêncios são igualmente poderosos, levar-nos-ia a revisitar “Dunkirk” de Christopher Nolan. Mas, aqui, essa mudez emotiva não abunda e o “fake overacting” mata quase sempre o ímpeto daqueles momentos mais impactantes, restando pouco mais que a nota artística do espetáculo pirotécnico de Emmerich. Não queremos com isto dizer, que “Midway” é só fumaça sem conteúdo, até porque consente um raro e valioso “insight” em matéria de geoestratégia militar entre as duas forças antagónicas em disputa (Estados Unidos/Império do Japão), mas o enredo com aspeto de telenovela delineado por Wes Tooke (Colony), quase que ridiculariza o peso real de um ambiente hostil encarado, aqui, com demasiada descontração e leviandade. É certo que este “Midway”, consegue ilibar-se daquele vício melodramático que já sufocava o filme original de 76, até ao mais recente “Pearl Harbor”, e não obstante a boa intenção de valorar os feitos heróicos dos participantes neste conflito armado à escala mundial, perdemo-nos regularmente nos atos machistas de quem parece viver a guerra como quem joga um videojogo no conforto eufórico dos seus lares.

Midway
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O elenco, de segunda linha ou “B-Grade”, como se diz na gíria do cinema é, logo à partida, encabeçado por alguns nomes conhecidos do público para fazer cartaz, não estivéssemos perante uma produção altamente comercial. Das caras mais mediáticas de Hollywood, Patrick Wilson (Edwin Layton), na qualidade de contra-almirante da Marinha americana, é dos poucos que consegue arrancar uma sólida interpretação como especialista em contra-inteligência e mediador na jigajoga diplomática, que aquece o tabuleiro de interesses americano e nipónico. É ele, que na sequência do impasse nas negociações com os japoneses devido ao embargo americano no fornecimento de petróleo, adverte para a iminência de um ataque surpresa do inimigo à frota do Pacífico atracada na base naval de “Pearl Harbor”, que rotulou o fatídico 7 de Dezembro de 1941, como o maior desaire dos serviços secretos americanos em toda a sua história. A película não perde tempo em recriar um compacto desse raid aéreo, que dizimou quase duas dúzias de navios de guerra e tirou a vida a mais de duas mil pessoas, fazendo recorrência a efeitos especiais de ponta, que impressionam, é um facto, mas não deixam de se insinuar quase como se o ato de matar à metralhada devesse ser admirado como forma de arte. Aliás, numa das cenas verídicas mais bizarras do filme, vemos um renomeado realizador (John Ford) com a sua equipa de filmagem a subir o atol de “Midway”, no exato momento em que decorria um bombardeamento dos chamados “zeros”, ato que lhe valeu um Óscar para melhor documentário nesse mesmo ano. Mas por muito que Emmerich se tenha esforçado, como é seu apanágio, em almejar atingir os píncaros imagéticos do que serão, provavelmente, as mais realistas e frenéticas reconstituições de confrontos aéreos e marítimos alguma vez reproduzidas numa grande tela, imaculadamente auxiliadas pelas deslumbrantes paisagens radiografadas verticalmente e horizontalmente por Robby Baumgartner (Jogos da Fome), a incipiência dos diálogos preguiçosos retira-lhe a longevidade desse esplendor.

Midway
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O espirituoso Woody Harrelson, que leva aqui um ligeiro “makeup” sénior para ostentar as insígnias da patente máxima do Comandante Supremo das Forças do Pacífico, até consegue exibir uma certa eloquência carismática e aquela cerebralidade própria de um estratega naval como o Almirante Chester Nimitz. A sua acção na liderança da contra-ofensiva americana foi crucial na preparação e antecipação do assalto final dos japoneses a “Midway”, um meritoso trabalho dos criptoanalistas da marinha, que intercetaram e reconstituíram as intenções do metódico Almirante Yamamoto. Nas entrelinhas temos ainda as participações parcimoniosas de Dennis Quaid (Comandante William “Bull” Halsey), Luke Evans (Tenente McClusky) e Aaron Eckhart (Tenente “Jimmy” Doolittle), que não podia honrar mais a fonética do seu apelido com uma aparição relâmpago. Mas o grosso das atenções acaba por recair no heróico piloto de bombardeiros de mergulho, Richard “Dick” Best, interpretado de forma quase desrespeitosa e caricatural pelo ator inglês, Ed Skrein. E é uma pena, porque o jovem ator tem pinta de estrela, mas desbarata aqui um papel importante ao colar-se ao cliché do típico insubordinado que não teme a morte a la “Maverick”, com a agravante de ainda apresentar trejeitos linguísticos e maneirismos corporais associados à semelhante personagem já interpretada por Ben Affleck.

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“Midway” poderia ter sido um épico histórico que ficasse registado nas nossas memórias, tal como permanece imortalizado nos arquivos dolorosos da Segunda Guerra Mundial. Mas ao tentar fugir do lado sangrento da guerra, Emmerich acaba por pulvilhá-la com uma camada de açúcar para toda a família visionar, tentando “dourar a pílula” quase como se de uma aventura “Disney” se tratasse. Está mais que visto, que este tipo de filmes belicistas não são a praia de Emmerich, que certamente terá mais sucesso no flexível segmento de ficção científica, onde a imaginação e os argumentos não estão limitados pelas constrições inerentes à fidelidade de uma peça de ficção baseada em factos reais.

Midway
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Movie title: Midway

Movie description: Recriação dos dias da famosa batalha de Midway, um confronto entre a Frota Norte-Americana e a Marinha Imperial Japonesa que mudou o rumo dos acontecimentos no teatro de guerra do Pacifico durante a Segunda Guerra Mundial. O filme baseia-se em eventos verídicos e heróis verdadeiros, narrando a história da audácia e da coragem, de ambos os lados, naquela que foi a mais longa batalha marítima da Segunda Grande Guerra.

Date published: 2019-11-12

Director(s): Roland Emmerich

Actor(s): Woody Harrelson, Mandy Moore, Patrick Wilson, Ed Skrein, Luke Evans, Dennis Quaid, Aaron Eckhart, Nick Jonas

Genre: Ação, Drama, História, Guerra

  • Miguel Simão - 65
  • Inês Serra - 65
65

CONCLUSÃO

“Midway” possui o mérito de nos oferecer uma visão mais ou menos fiel, na sua essência, do que foi um dos eventos mais marcantes da Segunda Guerra Mundial, mas foca-se em demasia na aparência da sua pintura, descurando o significado humano do que reproduz. “Midway” precisava de ter-se levado mais a sério, envez de quase parodiar a guerra com o tipo de interpretações imaturas e ação pipoca, vulgarmente associadas àqueles filmes de “encher chouriços” de Domingo à tarde.

O MELHOR: A nata dos efeitos especiais produz cenas incríveis; duelos aéreos de cortar a respiração; fidelidade histórica do guião proporciona um conhecimento alargado do que aconteceu; banda sonora competente.

O PIOR: Fraca qualidade dos diálogos; interpretações pouco credíveis; “mood” errada para um drama de guerra; aspeto visual demasiado imaculado e comercial;

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Miguel Simão

Jurista e Poeta em algumas horas vagas. Cinéfilo incurável com forte pancada pelo sci-fi, que se perde algures pelo vício noturno de umas quantas séries televisivas de renome; amaldiçoado pelo perfecionismo estético de uma resma de palavras mais ou menos caras. Podem encontrar-me a divagar entre a Terra e o Espaço no meu blogue premiado Última Transmissão Humana.

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