Miguel Guilherme em "O Pátio das Cantigas". ©NOS Audiovisuais/Divulgação

Miguel Guilherme, O Consagrado | Cinetendinha 2026

Com Miguel Guilherme em modo lenda viva e Nahuel Pérez Biscayart em versão algarvia, Loulé e os Cinetendinha voltaram a provar que o cinema português também sabe festejar-se de forma independente.

Miguel Guilherme foi o rei da festa. Mas Loulé foi, mais uma vez, a capital simbólica do cinema português. A sexta edição dos Prémios Cinetendinha, uma iniciativa do crítico e jornalista de cinema integrada na Algarve Film Week, transformou o Cineteatro Louletano, no sábado passado, dia 24 de Janeiro, numa pequena república independente da cinefilia: sem passadeiras vermelhas infinitas, sem discursos em modo tese, sem música a cortar agradecimentos. Mas com claquetes, palmas sinceras, conversa e gente que gosta mesmo de cinema. Aqui não se distribuem estatuetas apenas para decorar prateleiras. Distribui-se entusiasmo.

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Miguel Guilherme
Miguel Guilherme em “Non ou Vã Glória de Mandar”, de Manoel de Oliveira. @Medeia Filmes

Miguel Guilherme: carreira, talento e zero vedetismo

A grande homenagem da noite foi, naturalmente, para Miguel Guilherme. Actor total — teatro, cinema, televisão —, presença constante na memória colectiva, capaz de ir de Manoel de Oliveira a João Botelho, passando agora por João Canijo em “Encenação”, que estreará ainda este ano. Um daqueles casos raros em que o prémio não consagra: confirma. Depois de Joaquim de Almeida, Victor Norte, Inês de Medeiros, Virgílio Castelo e Isabel Ruth, era inevitável. Guilherme recebeu a claquete com emoção contida, sem pose, sem discurso ensaiado, como quem sabe que o verdadeiro reconhecimento está no trabalho feito e no que ainda falta fazer. “Começo agora à Cinetendinha”, brincou o Rui Tendinha, lembrando que muito poucos actores em Portugal atravessaram tantas gerações e estéticas sem nunca perder identidade. O homenageado agradeceu com simplicidade, sublinhando “a alegria de continuar a trabalhar com realizadores que ainda acreditam no cinema como risco e aventura”.

30º EFA
O jovem Nahuel Pérez Biscayart como Melhor Actor em ‘120 Batimentos por Minuto’.

 

Nahuel Pérez Biscayart sem Zoom

Além de Miguel Guilherme dimensão internacional chegou em carne e osso com Nahuel Pérez Biscayart. Tributo Internacional merecido para o actor de 120 Batimentos por Minuto, do francês Robin Campillo e “Matar o Jóquei”, do argentino Luis Ortega, que confessou, com humor: “É o meu primeiro prémio português.” “Adoro o Rui. Pensei que vinha só fazer imprensa e promover ‘Matar o Jóquei’, mas encontrei uma festa”, disse, promovendo o seu filme como “uma obra refrescante, livre, cheia de humor e de liberdade expressiva”. Prometeu regressar — Madeira, Algarve, convívios — e até melhorar o português: “Se treino, falo melhor.” “Quero voltar, mas têm de me convidar para filmes”, acrescentou, entre risos. Internacionalização assim: com presença, não com conversas à distância.

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Os prémios e os filmes do ano

Num ano particularmente forte de cinema, mas sem o Miguel Guilherme, os Cinetendinha distinguiram: Melhor Filme Nacional: On Falling; Melhor Filme Internacional: “Batalha Atrás de Batalha”, de Paul Thomas Anderson; Melhor Actriz: Joana Santos; Melhor Actor: Sérgio Coragem (“O Riso e a Faca”) ; Prémio Futura: Cleo Diára (“O Riso e a Faca”) ; Prémio Animação: Fausta Pereira (Hirundo). Cléo Diára, em vídeo, deixou uma das mensagens mais fortes da noite: falou de futuro, diversidade, financiamento, público e respeito pelas histórias. “Que o cinema português tenha mais gente, mais corpos, mais vozes e mais espaço para sonhar”, resumiu. Já Joana Santos agradeceu emocionada: “On Falling fez-me crescer como actriz e como pessoa, e perceber que vale a pena continuar a arriscar.”

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CineCapitólio Rooftop
Rui Pedro Tendinha é um agitador cinematográfico. ©José Vieira Mendes

Rui Pedro Tendinha: agitador cinematográfico

Nada disto existiria sem Rui Pedro Tendinha. Criador, agitador, anfitrião, motor, aliás bastante elogiado por Miguel Guilherme. Transformou um programa num movimento. Uma gala numa referência. Uma cidade numa paragem obrigatória. Sem fundos milionários. Sem discursos vazios. Com trabalho. “Isto só faz sentido se for feito com paixão”, disse, nos bastidores. Num país onde tudo morre em reuniões, os Cinetendinha sobrevivem porque alguém decidiu fazer.

VÊ TRAILER DE “18 BURACOS PARA O PARAÍSO”

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Vozes, ideias e cinema em movimento

A gala foi também espaço de pensamento e apresentação dos novos filmes portugueses em estreia em 2026, para além da grande homenagem a Miguel Guilherme. O realizador João Nuno Pinto apresentou o seu novo filme “18 Buracos para o Paraíso”, que estreará em principio em junho, um retrato das desigualdades, da especulação e da erosão social: “Estamos nivelados por baixo, com uns poucos cada vez mais em cima.” Joaquim de Almeida veio para entregar o prémio de Melhor Actriz e explicou o seu regresso a Portugal com franqueza política: “Houve um senhor nos EUA que me convenceu que era tempo de mudar.” Paulo Trancoso recebeu com emoção o prémio honorário pelos seus 15 anos à frente da Academia Portuguesa de Cinema: “Começámos 30. Hoje somos mais de mil. Foi uma aventura que valeu a pena.” Fausta Pereira emocionou-se também ao falar do trabalho da Hirundo, no cinema de animação, junto de refugiados: “A animação é uma ferramenta para construir relações e dar voz a quem não a tem.” Inês Meneses e Bruno Ferreira apresentaram o documentário “Falem Com Ela”, celebrando o poder da escuta e um programa/poadcast de entrevistas, que é um fenómeno na rádio portuguesa: “Descer ao íntimo é a verdadeira entrevista.” Por onde passou também o Miguel Guilherme. E o actor Rubén Gomes que entregou o Prémio de Melhor Actor a Sérgio Coragem, aproveitou para falar da sua participação e de “Terra Vil”, de Luis Campos outro dos filmes portugueses com estreia prevista para Março.

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Mais do que prémios: uma comunidade de cinema

Entre trailers, entrevistas improvisadas, apresentações e gargalhadas, a gala-programa de televisão que será transmitido pela SIC Radical, mostrou o que tantas vezes falta ao sector: leveza. Aqui não se dramatiza. Celebra-se. Os actores entregam prémios. Os realizadores sorriem. Os críticos baixam a guarda. Os convidados participam, nem que seja na fotografia final. O cinema torna-se também ponto de encontro, de convívio e de troca de ideias. Os Cinetendinha não competem com os Sophia nem com os Oscars. Complementam. Criam ecossistema. Criam memória. Criam conversa. Em 2026, com Miguel Guilherme homenageado, Nahuel presente, claquetes distribuídas ficou claro: o cinema português cresce quando se multiplica. E Loulé, mais uma vez, deu a lição.

JVM

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