Milagre no Rio Hudson, em análise

Milagre no Rio Hudson aterra de emergência nos nossos corações como uma bênção cinematográfica. Hanks é brilhante neste cockpit triunfante de Eastwood.

Sully” como é conhecido nas margens do Hudson, é o diminutivo do heróico piloto Chelsey Sullenberger – que ousou mergulhar o nariz do seu avião comercial nas margens do rio Hudson -, transformando um dos maiores acidentes da estória da aviação na sua melhor hora. E terá sido, porventura, a mais louca e famigerada antítese do mal, aquela que arraigou “Sully” ao “Dever Supremo” em que se inspirou o roteirista Todd Komarnicki neste retrato vivo e cru da fragilidade humana. Mas ele impõe que façamos primeiro uma pergunta a nós próprios: “Qual é o meu momento Sully?”, cuja resposta Eastwood se encarrega de dar na sua forma mais singela, altiva e subliminar. Isto porque “Hudson” é um filme sobre fé, coragem e instinto de sobrevivência.

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E mal nos refastelamos naquele assento marcado, supostamente seguro, da sala de cinema – que bem poderia ser o de um Airbus A320 – para logo de seguida arregalarmos os olhos e sentirmos um calafrio na barriga que nos afunda até ao chão. Eastwood quer-nos lá, no cerne daquele trambolhão celeste, quando um bando de gansos-canadenses explodem com as duas turbinas do voo 1549 da US Airways, mesmo a escassos minutos de ter descolado do aeroporto LaGuardia. Mas o comandante “Sully” (Tom Hanks) coadjuvado pelo co-piloto Skiles (Aaron Eckhart), não se faz de rogado perante a insistência dos controladores aéreos em desviar o aparelho para a pista mais próxima, advertindo nos píncaros do seu entendimento superior que “vamos estar no Hudson”, como se despenhar um avião em duzentos e oito segundos com cento e cinquenta e cinco almas a bordo fosse uma medida razoável.

“(…) O experimentado realizador de oitenta e seis anos revela toda a sua mestria e astúcia como um “deep emotion maker”, aliciando o espetador com fragmentos da verdade, enquanto senta o milagreiro de Hudson no “banco dos réus” a fim de provar a sua inocência perante os simulacros computorizados.”

Por vezes, situações extremas requerem medidas extremas, e Chelsey “Sully” Sullenberger é o expoente máximo dessa premissa; uma que exige a frieza sanguínea de um veterano habitué nas danças de tango com caças F-4 da Força Aérea Americana e um “connoisseur” da técnica de amaragem, que é como quem diz: a arte de planar um avião sem motores. Conhecido entre os amigos como “Capitão Cool“, Hanks encaixa na perfeição nesse perfil mais sisudo e comedido, deleitando-nos com aquele olhar empertigado e aquela presença quase silenciosa em paridade com o seu homónimo real. E Eckhart não lhe fica nada atrás enquanto “second in command” Skiles, preenchendo as lacunas emocionais que a personalidade de “Sully” não permite explanar, adornando-a com alguns laivos de humor como um “wingman” multidimensional.

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A cinematografia documental de Tom Stern rasga os céus nova-iorquinos com uma amplitude e fidelidade visual que só as câmaras IMAX conseguem granjear, palpitando as octanas daqueles pulsos à beira de um colapso cardíaco, que Eastwood faz questão de revisitar numa colagem de “deja-vus” encarreirados em múltiplas perspetivas do mesmo crash. Mas “Sully” não se esgota na tragédia aérea criadora de um herói público instantâneo, sem que este passe pelo polígrafo moral e ético de uma rígida comissão de inquérito (National Transportation Safety Board), não acostumada a ilibar “erros humanos”. É neste segmento que o experimentado realizador de oitenta e seis anos revela toda a sua mestria e astúcia como um “deep emotion maker”, aliciando o espetador com fragmentos da verdade, enquanto senta o milagreiro de Hudson no “banco dos réus” a fim de provar a sua inocência perante os simulacros computorizados.

“Hanks encaixa na perfeição nesse perfil mais sisudo e comedido, deleitando-nos com aquele olhar empertigado e aquela presença quase silenciosa em paridade com o seu homónimo real.”

Charles Porter (Mike O’Malley) e Elizabeth Davis (Anna Gunn) são os corrosivos porta-vozes da investigação que tentam menosprezar o heroísmo de “Sully” perante os media, fazendo com que o argumento de Komarnicki revele aqui o seu lado mais subversivo e controverso, já que dilui a barreira entre a coragem heróica e a responsabilidade criminal. O argumento vai puxando por esta dialética entre o instinto de um homem destemido que no seu íntimo não encontra mácula na sua acção, e a racionalidade de um protocolo de segurança que entra em conflito com a primeira proposição. Eastwood vai amarrando eficazmente a audiência a este conflito ideológico, que encerra em pano de fundo uma disputa de interesses superiores ulteriormente suplantados pela sua maior contradição: o tempo e o factor humano não podem ser replicados por meros dados analíticos, sem que todos os fatores sejam equacionados.

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Milagre no Rio Hudson” não é o melhor filme já produzido por Clint Eastwood mas, certamente, será um dos mais marcantes. Eastwood consegue descompactar duzentos e oito segundos de aflição em noventa e seis minutos de “popcorn-hour”. “Sully” é um testemunho humilde e genuíno de um comandante que soube levar os seus passageiros a bom porto pelos ditames da sua vontade, mas mais do que isso, enaltece o espírito hercúleo de um conjunto de pessoas que desafiaram a lógica e os astros para salvarem as suas vidas contra todas as probabilidades. E não é por acaso que “Sully” estreia nos cinemas por alturas da celebração do décimo quinto aniversário do 11 de Setembro, relembrando aos americanos que a união faz a força e que é preciso não perder a esperança.

O MELHOR – As interpretações de luxo de Hanks e Eckhart enchem a estória de interesse e emoção em paridade com os seus congéneres reais. Os efeitos visuais da queda do avião são dignos de registo e louvor. Boa cadência a nível da ação e excelente edição mantêm o espetador envolvido na estória.

O PIOR – Sub-plots do enredo poderiam ter sido mais exploradas, conferindo mais profundidade à trama. Pouca variedade de planos promove alguma repetição.


Título Original: Sully
Realizador:  Clint Eastwood
Elenco: Tom Hanks, Ryan Eckhart
NOS | Drama | 2016 | 96 min

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Miguel Simão

Jurista e Poeta em algumas horas vagas. Cinéfilo incurável com forte pancada pelo sci-fi, que se perde algures pelo vício noturno de umas quantas séries televisivas de renome; amaldiçoado pelo perfecionismo estético de uma resma de palavras mais ou menos caras. Podem encontrar-me a divagar entre a Terra e o Espaço no meu blogue premiado Última Transmissão Humana.

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