Miss Sloane – Uma Mulher de Armas, em análise

Jessica Chastain é uma presença magnética e impiedosa em Miss Sloane – Uma Mulher de Armas, uma fantasia política perfeita para os nossos tempos.

miss sloane uma mulher de armas

As imagens iniciais de Miss Sloane – Uma Mulher de Armas são de uma frontalidade eletrizante. Referimo-nos ao grande plano em que Jessica Chastain olha diretamente para a câmara e para os olhos, talvez também para a alma, da audiência e explica calmamente a função e o método pelo qual os lobistas trabalham na esfera política americana. Não há grandes floreados fílmicos ou dramatismo musical a pontuar as suas palavras mas, tal como acontece durante as restantes duas horas desta intriga política, é impossível resistir à presença magnética da atriz no papel titular de Elizabeth Sloane.

Ela é uma lobista celebérrima no Capitólio pelas suas técnicas impiedosas e genial imprevisibilidade, que um dia deixa a firma onde ganhou reputação para ir trabalhar com uma equipa muito mais pequena, depois dos seus patrões originais a terem pressionado a ajudar o poderoso lobby em defesa da 2ª Emenda e da desregulação das leis de porte de armas de fogo. Na sua nova firma, ela equipara-se a David contra o Golias que é a NRA e os seus antigos aliados, empenhando-se em apoiar a aprovação de uma lei que aumentaria exponencialmente o processo de registo para porte de armas a um nível federal e aplica a mesma amoralidade do costume a esta urgente causa. Confusos, muitos dos seus colegas e adversários interrogam-na sobre a sua motivação, se é apenas ambição cega, idealismo convicto ou algo pessoal. No seu gesto mais radical, Miss Sloane – Uma Mulher de Armas e a sua atriz principal recusam-se veemente a dar uma resposta conclusiva.

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Tal mistério é essencial para que a personagem não se converta numa caricatura de maquiavélica e omnipresente mestria política e, pela sua parte, Chastain sombreia mesmo os instantes mais exagerados com lacerante humanidade. Quer seja em ataques de fervorosa raiva, raríssimos momentos de incerteza ou explosões de indignação orgulhosa, Elizabeth Sloane é sempre cativante e, na boa tradição dos grandes anti-heróis, são precisamente as suas falhas que nos prendem e aproximam enquanto audiência à sua história. Essa proximidade, que nunca viola o mistério já mencionado, é particularmente evidente durante as sequências que encontram Sloane a testemunhar num inquérito do Congresso frente a um Comité de Ética. Todo o processo foi engendrado pelos seus adversários e, escusado será dizer, a lobista não consegue permanecer calada e perde a proteção da 5ª Emenda, sendo legalmente obrigada a responder a todas as perguntas do Comité.

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É aqui que temos de terminar a nossa celebração de Chastain e nos focar nos aspetos políticos deste thriller que, tendo em conta o estado atual do mundo, são de uma cataclísmica relevância para a sua justa apreciação. Não seremos os primeiros nem os últimos a denotar como a perseguição orquestrada contra Sloane tem desconfortáveis paralelos à malfadada questão dos e-mails de Hilary Clinton. Tal como aconteceu com a antiga Primeira-Dama, Senadora e Secretária de Estado dos EUA, a protagonista de Miss Sloane vê como um caso persecutório se monta contra ela baseado numa tecnicalidade mínima e, tal como Clinton se acabou por tornar aos olhos de muita gente, a personagem de Jessica Chastain converte-se num símbolo do lado mais feio e essencial da política moderna.

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O que queremos dizer com isto é que Sloane não é uma figura de idealismo inocente, mas sim alguém que percebe que a política se faz de concessões, de manipulações, de trocas de influências e acordos, que a mudança não é um processo repentino mas sim algo lento e gradual. Salientar e, de certo modo, celebrar essa mesma natureza do jogo político é uma raridade no cinema moderno e revela uma considerável maturidade para um filme que, no final, se revela como um melodrama político tão divertido e inspirador como absolutamente fantasioso e ridículo. Tal afirmação pode ser um exagero, mas há que considerar que uma das grandes reviravoltas finais depende de filmagens obtidas por uma barata ciborgue.

Para além do mais, o diálogo de Miss Sloane – Uma Mulher de Armas é exatamente aquele tipo de imitação pueril do estilo de Aaron Sorkin que resulta numa miríade de fabulosos monólogos e diálogos apimentados com expressões chamativas. Sam Waterston, por exemplo, passa o filme todo a cuspir frases feitas para ressoarem na banda-sonora de trailers, o que relembra uma paródia dos Homens do Presidente ao mesmo tempo que constitui um espetáculo de entretenimento sincero para uma audiência adulta sedenta de alguma verbosidade inteligente. Apontar a sua natureza meio imitadora e reacionária não invalida quão delicioso o texto de Miss Sloane consegue ser, a nível verbal, como já apontámos, e narrativo. Afinal, as reviravoltas inesperadas no terceiro ato são um cliché do cinema narrativo, mas isso não invalida a sua potência dramática.

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A ajudar ao sucesso deste argumento problemático, mas eficaz, está o elenco liderado pela já muito elogiada Chastain que, devido à estrutura de interrogação e flashbacks, domina em absoluto uma parte do filme em que os restantes atores são relegados a silenciosas reações. Todos fazem um bom trabalho nesse registo híper-secundário mas é na palavra que todos eles encontram as suas maiores glórias. Apenas três nomes saltam à vista como exceções a esta regra. Primeiro, por razões muito negativas, temos a hiperbólica prestação de Michael Stuhlbarg que se assemelha a um cartoon. No lado oposto do espectro de qualidade, temos as bússolas morais do filme encarnadas por Jake Lacy, como um charmoso prostituto contratado por Sloane, e Gugu Mbatha-Raw, no papel de uma jovem lobista que em tempos esteve envolvida num tiroteio escolar. Ambos os atores trazem um peso emocional às suas reações, à sua postura em relação à protagonista e é no seu trabalho que o filme ganha um coração para fazer companhia à natureza cerebral de Jessica Chastain.

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Se há grandes erros a apontar aos cineastas, tais críticas focam-se na sua incapacidade para estender o mesmo tipo de nuance e complexidade concetual da protagonista ao resto do filme que a envolve. Note-se, por exemplo, como o elenco secundário se parece dividir entre homens brancos velhos e jovens idealistas como indicador dos antagonistas e dos heróis, ou como o epílogo rouba muito impacto ao inquérito e sua conclusão. Tirando isso, apenas a cansativa banda-sonora de Max Richter exige ser especialmente censurada, sendo que, no geral, Miss Sloane – Uma Mulher de Armas é um filme competente, sólido e uma deliciosa fantasia que nos faz esquecer as infelicidades da realidade política internacional.

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O MELHOR: Jessica Chastain!

O PIOR: A irritante música de Max Richter e a sonoplastia que tanto a salienta.



Título Original:
 Miss Sloane
Realizador: John Madden
Elenco:
 Jessica Chastain, Mark Strong, Gugu Mbatha-Raw, John Lithgow

NOS | Drama, Thriller | 2016 | 132 min

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CA

 

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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