"Missão: Impossível - Ajuste de Contas - Parte Um" | © NOS Audiovisuais

Missão: Impossível – Ajuste de Contas – Parte Um, em análise

Como sétimo capítulo da saga, “Missão: Impossível – Ajuste de Contas – Parte Um” é mais um desenvolvimento estrondoso na história de Ethan Hunt e sua equipa. Tom Cruise volta como ator e produtor, liderando o projeto em jeito aventuroso, sempre pronto a desafiar a morte com peripécias alucinantes. A realização é de Christopher McQuarrie e o elenco conta ainda com Hayley Atwell, Rebecca Ferguson, Simon Pegg, Ving Rhames, Vanessa Kirby, Esai Morales euma feroz Pom Klementieff que, apesar de quase não falar em cena, sequestra o holofote e nunca o larga.

A inteligência artificial impõe-se sobre o mundo das artes como um apocalipse, criação sem criatividade, expressão humana desumanizada por algoritmos. Na presente conjetura cinematográfica, quando alguns dos maiores sindicatos de Hollywood negoceiam com os poderios da indústria, a questão da I.A. está em constante debate, e já há estúdios que usam a ferramenta para excisarem a necessidade de artistas. Quem realmente ama o cinema, manifesta-se contra estas evoluções inversas, travando guerra aberta com tecnologias motivadas por frieza mercenária, progresso em nome do capital e nada mais.

Nem é preciso perscrutar os afazeres do grande ecrã ou sequer a arte em geral para entender a ameaça destas inovações. Na cadeia de fábricas, perdem-se empregos para a máquina inteligente, enquanto nas redes sociais a verdade é deturpada em nome do dinheiro de mão dada à política. Em transporte a I.A. aplicada à condução automática levanta questões morais atrozes, para nada falar da responsabilidade no evento do caso legal. Com máquinas antropomorfizadas prestando testemunho nas Nações Unidas, a necessidade de regulamentação é evidente e o que antes era somente ficção-científica torna-se na realidade de cada dia.

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Diz-se tudo isso para contextualizar os intuitos de Tom Cruise e companhia na criação deste novo capítulo da série “Missão: Impossível.” É que, na sétima fita da saga, a ameaça violenta da espionagem internacional sofreu mutação até se converter numa crise existencial contra toda a Humanidade. Apesar de pessoas de carne e osso fazerem o que máquina ainda não pode, a ação vilã é sempre cometida em nome de um cibernético na senda do divino. Em “Missão: Impossível – Ajuste de Contas – Parte Um,” o antagonista contra quem Ethan Hunt combate é imaterial. Trata-se de um programa de inteligência artificial levado a escala titânica.

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Conhecemos a ameaça em jeito de prólogo, como é costume num franchise cujo estilo muito muda, mas cuja estrutura é ponto de referência estável. Só que, desta vez, os heróis estão fora de cena, situando-se a ação num submarino algures no oceano gélido. A embarcação é de origem russa, a tripulação à ordem sinistra de um computador central que só pode ser acedido através de uma chave cruciforme. Perante um aparente inimigo, eles disparam mísseis para a sombra subaquática, só que os dados foram ludibriados pelo navegante que, qual HAL 9000, decide aniquilar a tripulação para melhor realizar a missão em mente.




Passada a introdução, descobrimos Ethan Hunt num mundo virado do avesso em busca da cruz que concederá a alguém o poder de controlar ou destruir o monstro digital. Governos de todo o mundo anseiam, salivantes, pela posse do objeto, mas há ainda a questão do que é que a chave abre. Poucos sabem e a paranoia é tanta que o próprio conceito de verdade se desfaz, como fumo escapando pelos dedos de quem o tenta conter. Assim se torna impossível saber em quem confiar, com reviravoltas constantes a provar a malícia humana, cúmplice inadvertido da sua mesma destruição. Enfim, caberá a Ethan encontrar a chave, descobrir a fechadura, e salvar o mundo mais uma vez.

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De novo ele é cortado da agência IMF e seu sancionamento oficial, sendo obrigado a cumprir a aventura sem as ajudas do costume. Só a equipa de amigos se mantém fiel, mas cada pessoa no esquema é mais uma fraqueza, a entidade digital pronta para se aproveitar da emoção humana. Pelo caminho, travam-se novos conhecimentos e antigos inimigos regressam do passado, a memória de Ethan aprofundando uma personagem que em tempos era pouco mais que o arquétipo oco. Em cinema presente, o agente tornou-se manifestação do destino e caos em pessoa, a última chance do Homem e bastião ético num universo sem escrúpulos.

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Há algo de santificante no texto, elevando a figura a um patamar de retitude melancólica mais facilmente encontrado em tragédia grega que no comum filme de ação. Essa seriedade é ponto fraco do exercício, mas não sucumbe toda a história de “Ajuste de Contas” a uma monotonia pesada. Com mais de duas horas e meia para esboçar o que, essencialmente, é só a primeira metade da aventura, os cineastas encontram várias oportunidades para modular tom, descobrindo possibilidades cómicas até na mais intensa e convoluta perseguição. Diga-se de passagem, que todas as cenas de ação são milagres cinematográficos do mais alto calibre.

Os carros em Roma são ponto forte pela sua plasticidade tonal, mas há muito valor na relativa simplicidade de um jogo de gato-e-rato num aeroporto em cenário deserto. Todo o capítulo veneziano se destaca pela brutalidade, tanto física como emocional, chegando a um clímax prematuro quando a escolha da inação parece ser o prego final no caixão do cosmos. Mas é claro que o maior triunfo é a última hora, um frenético encadeamento de ação em torno de locomotiva que parece, em primeira análise, uma tentativa de redimir o final do primeiro filme, realizado por Brian De Palma em 1996. Nessa hora, efeitos medíocres e arritmias estruturais traíram o espetáculo. Nesta nova maravilha, tais erros não se repetem.

Pela primeira vez, uma “Missão: Impossível” foi filmado em suporte digital, mas essa qualidade de imagem polida não subverte o impacto das peripécias que Cruise e McQuarrie insistem em orquestrar sem o auxílio absoluto do CGI. A fisicalidade mantém-se, todo o corpo lançado movimenta-se com a inefável realidade de uma verdadeira pessoa e não um qualquer avatar virtual. Esse valor mantém-se para sempre, um renegar total dessa inteligência artificial que mascara a perdição com o figurino do futuro, que desnuda a arte de humanidade. Assim se ilustram as tensões centrais da fita além da narrativa, do trabalho de ator e tudo o mais. Assim triunfa um blockbuster de ação que deveria servir de exemplo a toda a produção semelhante em anos vindouros.




Sobre o Autor

Missão: Impossível - Ajuste de Contas - Parte Um, em análise
Missão Impossível - Ajuste de Contas Parte Um poster final

Movie title: Mission: Impossible - Dead Reckoning Part One

Date published: 11 de July de 2023

Director(s): Christopher McQuarrie

Actor(s): Tom Cruise, Hayley Atwell, Rebecca Ferguson, Simon Pegg, Ving Rhames, Vanessa Kirby, Esai Morales, Pom Klementieff, Shea Whigham, Henry Czerny, Greg Tarzan Davis, Frederick Schmidt

Genre: Ação, Aventura, Thriller, 2023, 163 min.

  • Cláudio Alves - 80
  • José Vieira Mendes - 75
78

CONCLUSÃO:

Mais um capítulo numa das melhores sagas blockbuster da Hollywood moderna, o novo filme de Christopher McQuarrie peca pela seriedade, mas as suas dimensões apocalípticas são expressas com suficiente ímpeto para vingar. No confronto entre a arte cinematográfica e a inteligência artificial, os algoritmos e a arte sem arte, o sonho do grande ecrã perdura e Tom Cruise avança destemido como S. Jorge contra um dragão digital. Apesar da duração agigantada, “Missão: Impossível – Ajuste de Contas – Parte Um” é filme que passa a correr, tão fantástica é a sua estrutura, tão primorosa a construção da sua ação desenfreada.

O MELHOR: A brutalidade burlesca que Pom Klementieff traz à sua personagem assassina, a materialidade de toda a acrobacia e o esplendor formalista das sequências de ação, maravilhosamente distintas e ritmadas.

O PIOR: Algumas escolhas de montagem em momentos de diálogo deixam algo a desejar, estilhaçando falas em grandes planos sem aparente propósito. Além disso, o apóstolo humano da I.A. não convence, nem mesmo quando se manifesta enquanto fantasma vindo diretamente do passado do nosso herói.

CA

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