"Monos" | © Cinema BOLD

Monos, em análise

O filme escolhido para representar a Colômbia na corrida ao Óscar para Melhor Filme Internacional do ano passado é uma das novidades da Cinema Bold. “Monos” é um pesadelo cinematográfico que todos deviam ver.

Alguns filmes primam pelas suas narrativas, outros são grandes estudos de personagem cheios de observações ricas sobre a vida e psicologia. No entanto, nem todo o cinema tem de se prender a tais elementos. Há aquelas produções que colocam a câmara acima do humano, que desvendam maravilhas através da forma cinematográfica ao invés da personagem. “Monos”, a primeira ficção do realizador Alejandro Landes, é um filme formalista acima de tudo, imergindo o espectador numa orgia sensorial que tanto surpreende como sufoca, que hipnotiza e inebria, que choca e horroriza também.

Dito isso, antes de descrevermos as minúcias formais de “Monos”, talvez seja necessário descrever o esqueleto narrativo que serve de pretexto para a magia técnica. O filme não tem tanto uma história, como tem uma situação, um cenário. Algures nas paisagens montanhosas de um país sem nome da América Latina, um grupo de adolescentes atua como milícia armada para uma misteriosa Organização. Um representante das forças superiores aparece de vez em quando para dar ordens aos soldados juvenis, mas a maior parte do tempo eles vivem por conta própria. No seio dos miúdos feitos assassinos, encontramos ainda uma prisioneira americana, cujo sequestro e eventual salvamento dão alguma estrutura à amorfia de “Monos”.

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Esta descrição pode sugerir um trabalho com fortes conotações políticas, mas este não é um filme interessado nas especificidades socioculturais que o seu cenário pode levantar. Pelo contrário, a esquálida examinação temática que a obra faz incide principalmente nas dinâmicas de poder que nascem entre estes soldados hormonais. Nesse sentido, “Monos” é uma espécie de “Senhor das Moscas” para o século XXI. Também aqui a paisagem natural serve de catalisador para a maldade inerente à juventude sem rumo, também o poder sobe à cabeça dos meninos cruéis e a carnificina manifesta-se em toda a sua ímpia glória. De jogos inocentes a massacres vingativos, a distância é mínima.

A volatilidade emocional dessa condição é materializada pelo modo como Landes filmou a sua obra. Em primeiro lugar, há a qualidade ritualista das cenas de treino paramilitar, onde composições repetidas e o uso sagaz de steadicam salientam o regimento destes jovens. Estes adolescentes estão a ser manipulados de modo a perderem autonomia e identidade, reduzidos a seres puramente reativos cujo instinto os leva a reagirem com violência a tudo. As ideias e imagens dos treinos vão-se infiltrando nas noites vividas sem supervisores a manterem a ordem, e vemos como monstros são criados. A câmara diz-nos tudo isso sobre a criação de cultos e doutrinação, tudo isso com movimento repetidos e coreografia cuidada. É caos com ordem, é cinema.

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A fotografia de “Monos” não brilha só no gesto, como também é exemplar em termos de luz e cor. O cenário principal do primeiro ato é impossivelmente verde, um palácio de musgo e pedra molhada que escorre com humidade tão visceralmente filmada que quase a conseguimos sentir. As noites são cerradas, com o preto da sombra a consumir tudo menos a ocasional luz que traça uma pincelada de carne ou sangue. O som, por seu lado, segue uma linha de expressão extremamente subjetiva, escolhendo reproduzir o horror da experiência em cena ao invés da sua realidade sónica. Quando os meninos armados e sua prisoneira se escapam para a selva, por exemplo, o filme explode numa cacofonia de ruído que tanto tem que ver com os sons do arvoredo como com o pânico destas pessoas.

Todo este virtuosismo técnico, este movimento cuidado, imagem febril e som alucinatório, contribuem para uma experiência cinematográfica que se vai tornando cada vez mais ilegível à medida que “Monos” se desenrola. A ordem regimental do início perde-se quando os miúdos se rebelam e os tiros que os abatem começam a vir de todas as direções. O realizador parece ir saltando de figura em figura, de perspetiva em perspetiva, vislumbrando o mundo pelos olhos dos miúdos e sua presa.

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O que é fácil de perceber ao início, vai ficando mais confuso e mais difícil de assimilar. À medida que as emoções chegam ao rubro, também a linguagem do cinema se exalta e a ordem que antes vivia agora morre numa supernova de onde emerge uma galáxia de caos. Não se trata de um filme fácil ou benigno, mas sim de um cancro de expressão audiovisual que cresce até chegar ao apogeu da monstruosidade maligna. Pelo seu fim, “Monos” é o cinema da desordem e do terror, um êxtase de loucura que merece a nossa admiração e respeito.

Monos, em análise
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Movie title: Monos

Date published: 22 de June de 2020

Director(s): Alejandro Landes

Actor(s): Moises Arias, Sofia Buenaventura, Julián Giraldo, Karen Quintero, Laura Castrillón, Deiby Rueda, Paul Cubides, Sneider Castro, Wilson Salazar, Julianne Nicholson

Genre: Aventura, Drama, Thriller, 2019, 102 min

  • Cláudio Alves - 90
90

CONCLUSÃO:

“Monos” é um conto de culto e violência que é contado com luz e ruído ao invés de personagens e palavras. Trata-se de um potente documento do poder do cinema para capturar as facetas mais negras da humanidade. Recomenda-se, mas tenham cuidado com o filme que olha para a audiência como um animal enraivecido, sedento de sangue e pronto a atacar.

O MELHOR: A técnica do filme é toda exemplar, mas temos de dar particular destaque ao trabalho de som, especialmente o modo como a banda-sonora de Mica Levi se mistura com os efeitos da selva.

O PIOR: A desordem do filme é um espetáculo de desconforto intencional, mas não deixa de ser algo abrasivo demais.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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