MONSTRA 2026 | Competição Curtas 2, em análise
A 17 de março decorreu no Cinema São Jorge a Competição Curtas 2 da MONSTRA – Festival de Animação de Lisboa. Ao todo foram exibidas 8 curtas-metragens até 15 minutos, todas elas díspares em estilos de animação, narrativas e proveniências geográficas.
Deixamos algumas notas breves acerca das obras que vimos nesta que é uma das mais importantes secções competitivas do festival.
1 – Good Luck to You All de Cordell Barker (Canadá, 2025, 9′)

“Uma jovem brinca com os seus brinquedos, sem noção de que ela segura o comando da humanidade. Vozes de especialistas de tecnologia misturam inocência, esperança e algum pânico sobre IA. Este conto simultaneamente onírico e de alerta pergunta: quem controla a IA, quem lucra e quem ainda está à espera do manual?”
Cordell Barker apresenta-nos “Good Luck to You All“, uma curta-metragem que explora o potencial destrutivo do ser humano e de uma das suas criações mais recentes – a Inteligência Artificial.
Criada com recurso a 2D digital, técnica mista e desenho, esta curta que inaugurou mais uma sessão competitiva na MONSTRA 2026, apresenta algumas reflexões valorosas, embora não seja capaz de acrescentar algo de verdadeiramente novo à discussão em torno da IA.
Apesar de não ser a obra mais original que vimos no Festival de Animação de Lisboa em 2026, não deixamos de assinalar a forma como “Good Luck to You All” se apresenta quase como um ensaio animado, abordando a inteligência artificial com um toque de filosofia, humor, inquietação e reflexão.
Pontuação: 60/100
2 – Impromptu de Steven Subotnick ( Estados Unidos da América, 2025, 7′)

“Um filme feito inteiramente com cinco tábuas de madeira.”
Este pequeno filme exibido na MONSTRA 2026 não contém componente narrativa, mas não deixa por isso de ser uma obra hipnótica, bem ritmada e abençoada com uma banda-sonora cativante.
“Impromptu” trata-se de uma curta experimental, afim ao universo do cinema abstrato e que se encontra fortemente ligada à música contemporânea composta por Paul Moravec, “Indialantic”, funcionando quase como a tradução visual da música que move o filme.
Essa mesma música é aqui tocada por Borealis Wind Quintet, ajudando a criar uma expressividade abstrata, considerando que a animação funciona como o veículo perfeito para representar a energia frenética do som e a sua dimensão lírica.
Pontuação: 70/100
3 – Kafka. In Love de Zane Oborenko (Letónia, Chéquia, 2024, 11′)

“Franz e Milena – entre eles uma distância, o marido dela e muitas cartas – é o amor que preenche a vida de Kafka com luz e esperança e, ao mesmo tempo, ilumina os medos e a escuridão dentro dele. Inspirado nas cartas de Franz Kafka a Milena Jesenská, ‘Kafka. Apaixonado’ explora a experiência multidimensional de se apaixonar.”
“Kafka. In Love” integra tanto a Competição Curtas 2 da MONSTRA como a retrospectiva deste ano, dedicada ao cinema da Letónia. O filme apresenta uma belíssima animação feita à base de areia, veículo para recordar as apaixonadas cartas de amor que Franz Kafka escreveu à sua amada Milena.
A curta é extremamente lírica, poética e inteligente no seu uso de estilo de animação. Isto porque a animação em areia acaba por funcionar quase como uma metáfora, capaz de traduzir para o ecrã emoções instáveis e frágeis.
Além disso, esta é uma adaptação muito sensível de Kafka. Com o foco nestas cartas de amor, é-nos apresentado um Kafka mais íntimo e vulnerável, numa versão menos intelectualizada e mais afetiva.
Pontuação: 75/100
4 – Idyll de Rao Heidmets (Estónia, 2025, 10′)

“Luta contra a guerra muito antes desta chegar ao teu quintal. E, quando chegar, fechar as cortinas não servirá para nada.”
Da Estónia chega-nos a obra mais bizarra desta Competição de Curtas 2 da MONSTRA. Aqui, neste filme que se faz com recurso às artes de pixilação e stop-motion, em conjunto com imagens reais, especula-se sobre as consequências da guerra e sobre o que poderemos fazer quando esta nos bate à porta.
“Idyll” é uma curta profundamente surrealista, com um estilo de animação que por vezes roça o tosco mas que nunca deixa de encantar. Aliás, este aspecto rude e imperfeito acaba por contribuir para o encanto do filme.
Esta é uma obra com um forte cunho alegórico, marcada pelo recurso a humor negro, crítica social e uso expressivo de stop motion. A mescla de elementos dissonantes torna este caos visual irresistível, bem como a paródia à guerra e àqueles que a fazem.
Nesta fábula distorcida, um casal tenta dar o nó, mas a sua cerimónia é interrompida por uma guerra galopante. Entre humor e qualidades sombrias, cria-se o universo único e turbulento de “Idyll”.
Pontuação: 80/100
5 – Tawny Owl de Anastasiia Zhakulina (Rússia, 2025, 8′)

“A vida na floresta esconde muitos perigos. Não são apenas pequenos pássaros que lá moram, como também grandes caçadores.”
“Tawny Owl” é uma obra russa que se faz entre desenhos e recortes, e que representa as ameaças do meio natural e os hábitos particulares da Coruja-do-mato. Visualmente, esta curta é para lá de interessante. Já do ponto de vista narrativo, “Tawny Owl” escapa à interpretação fácil.
Aqui, apresenta-se uma história sobre sobrevivência na natureza, numa narrativa sensorial, com um tom naturalista e contemplativo. O storytelling clássico fica de parte, à medida que é estabelecida uma ligação direta entre emoção e natureza.
Pontuação: 58/100
6 – Feed, Wash & Love de Veronika Pasterná Szemlová (Chéquia, 2025, 12′)

“Uma artista criativa sente-se presa à sua rotina após o nascimento dos seus filhos. Frustrada devido à falta de tempo, apoio do seu marido e de umas boas horas de sono, esta sente-se roubada de estabilidade mental, emocional e perspetiva. Será que consegue encontrar o caminho de volta para si mesma e redescobrir a sua paz interior?”
O filme checo “Feed, Wash & Love” teve direito a estreia mundial na MONSTRA, no âmbito desta Competição Curtas 2. Já a cineasta Veronika Pasterná Szemlová esteve presente no Cinema São Jorge para uma sessão de perguntas e respostas após a exibição da curta.
É com prazer que realçamos que esta foi uma excelente, valorosa estreia. “Feed, Wash & Love” baseia-se na própria experiência da cineasta com a maternidade e mostra-nos todo o caos emocional e sobrecarga laboral que uma nova mãe enfrenta. Questões relacionadas com sexualidade, auto-estima e cansaço são levantadas, num pequeno pedaço de cinema que é tão encantador do ponto de vista visual como narrativo.
Esta obra de Veronika Pasterná Szemlová fornece um encontro perfeito entre 2D digital a evocar animação tradicional, juntamente com técnica mista e recortes. Além disso, o próprio estilo de animação vai evoluindo ao longo da curta. Os tons pasteis são particularmente interessantes e existe uma harmonia visual inegável.
No decurso de apenas 12 minutos de filmes, tempo ainda para uma clara progressão narrativa, à medida que a nossa protagonista enfrenta desafios múltiplos e acaba por se tornar mais forte e resiliente com o passar dos anos. Assim, por todo o desespero que “Feed, Wash & Love” demonstra ao longo do seu decurso, temos direito a um meritório “final feliz”.
Pontuação: 85/100
7 – Amarelo Banana de Alexandre Sousa (Portugal, Hungria, 2025, 13′)

“Depois de mais uma noite de insónias, um homem depara-se com uma estranha comunidade a viver no seu prédio e descobre a ilusão elaborada que criaram.”
“Amarelo Banana” é a única curta nacional presente nesta Competição Curtas 2, e um excelente exemplo da animação que se vai fazendo em território nacional. Um homem depara-se com um cenário bizarro no seu prédio: uma comunidade que se isolou do mundo, que o recusa imperativamente e que vive em contacto com a sua animalidade, tal e qual como macacos.
O filme é incrivelmente tenso, desconfortável, pautado por uma banda-sonora cativante e em perfeita sintonia com a história que nos é narrada. “Amarelo Banana” vence pela sua estranheza intoxicante e por ser uma obra que fomenta particularmente a reflexão. Colocam-se questões sobre o que é ser humano, viver em comunidade, e sobre quando devemos ou não ceder à nossa animalidade e desejos mais primitivos.
Será que estamos coletivamente em burnout face à sociedade cada vez mais ruidosa e caótica que nos rodeia? Devemos desistir de tal vida e entregar-nos à simulação de momentos mais simples? A curta deixa o espectador com mais perguntas do que respostas, mas sem dúvida que acciona um aguçado sentido crítico. Não é para isso mesmo que serve a arte?
Pontuação: 70/100
8 – Off-Time de Nata Metlukh (Estados Unidos, Ucrânia, Japão, 2025, 11′)

“Um engenheiro de dados vive a vida a toda a velocidade, acreditando que o multitasking poupa tempo – quando apenas cria caos. Apesar do controlo rigoroso que tem sobre o seu próprio tempo, nada consegue ficar feito: a sua casa está em desordem, o trabalho acumula e o pequeno-almoço sai sempre queimado. Este engenheiro descobre a alegria de viver quando o tempo é reduzido a pó.”
“Off-Time”, última curta exibida nesta sessão competitiva da MONSTRA, é uma ilustração perfeita da lufa-lufa quotidiana que afeta qualquer ser humano na sociedade atual. Por isso, trata-se de um filme munido de um elevado sentimento de identificação.
O filme aborda temáticas essenciais, que expressam a forma como vivemos. Tais como a ansiedade urbana, a fragmentação galopante da atenção ou a obsessão com produtividade que acaba por gerar nada senão caos.
A percepção do tempo, da sua elasticidade e das suas possibilidades é também um tema importante deste “Off-Time”, um filme que se destaca através da sua montagem rápida, humor visual dinâmico e intencional sensação de sobrecarga.
Esta é uma obra inteligente, eficaz, universal e, ao contrário de muitas outras, profundamente inter-conectada com a realidade comunal do aqui e agora.
Pontuação: 80/100
Até dia 22 de março continuamos pela MONSTRA, a acompanhar a programação variada do 25.º Festival de Animação de Lisboa.

