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MONSTRA 2024 | Curtíssimas, a Crítica: Competição mais criativa voltou ao Cinema São Jorge

A Competição de Curtíssimas é sempre um dos melhores momentos do Festival de Animação de Lisboa. Ora, 2024 não foi excepção e aqui ficam os nossos destaques da presente edição da MONSTRA que aconteceu entre 7 e 17 de março. 

Fechamos a nossa viagem pela programação do Festival de Animação de Lisboa com a Competição de Curtíssimas, um dos momentos de programação que mais nos estimula entre a seleção anual da MONSTRA. A fórmula resulta: uma sessão em que são exibidos perto de 30 filmes, todos eles com durações compreendidas entre 1 e 3 minutos. A imaginação tem de estar ao rubro, bem como a capacidade inventiva, a de contar uma história e provocar um impacto emotivo em muito pouco tempo.

curtíssimas MONSTRA
Com “My Dog J”, o literal desenho animado de uma criança abriu a sessão com uma inesperada surpresa |©MONSTRA

Numa sociedade da galopante desatenção e da preferência por formatos de vídeo curto, impulsionado pelos reels e TikToks, eis que as Curtíssimas funcionam quase como uma resposta de qualidade elevada para esta lei geral da dispersão. Histórias auto-contidas e que não têm como não ser rápidas. Nesta sessão da MONSTRA houve de tudo, entre filmes muito engraçados e outros mais introspectivos, passando por narrativas leves e outras mais densas. E para deleite de toda a sala (e surpresa), uma pequena criança de 5 anos estava presente entre os muitos realizadores das curtíssimas que se deslocaram ao Cinema São Jorge e riu audivelmente ao descobrir várias das obras. Porque é também de momentos espontâneos que se fazem os festivais de cinema!

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Raros foram os filmes selecionados nesta competição que nos pareceram inacabados ou que pedissem desenvolvimento posterior, o que se assume como testemunho da qualidade de programação e das obras submetidas. Entre a vasta seleção, escolhemos alguns das curtíssimas que mais nos agradaram para comentar neste nosso artigo.

ANOMAIO (ALEXANDRA KRIOUTCHENCKO, JAPÃO/ FRANÇA, 2023, 2′)

MONSTRA 2024
©MONSTRA

Esta é uma lenda chinesa sobre o nascimento da lua. Nela, dois répteis de um pântano não conseguiam concordar sobre uma pedra, o que desencadeou uma briga.

Lendas e contos do folklore próprio de cada país são material quase infindável para a criação artística. “Anomaio” viaja até às narrativas ancestrais chinesas e apresenta-nos uma encantadora tese para o nascimento da lua. Com storyboards encantadores partilhados com o mundo em 2020, Alexandra Krioutchenko, responsável por aspectos como o argumento, animação e distribuição, deixa a impressão clara de que este pequeno grande projeto foi criado com atenção notável ao detalhe.

A ação é coesa, simples, resoluta, tudo o que poderíamos e deveríamos esperar de uma curtíssima de dois minutos.

Classificação: 75/100




ESTE PAR DE MEIAS (ANANYA BASHYAM, ÍNDIA, 2023, 2′)

This Socks Short film
©Ananya Bashyam

“Este Par de Meias” é um curta-metragem de animação em stop motion que experimenta com diferentes técnicas para ilustrar uma irritação comum.

A criatividade floresce nesta pequena animação em stop motion que explora uma frustração banal do quotidiano de forma insana e deliciosa. O que acontece quando perdemos uma meia e temos de revirar toda a casa para a encontrar? O grande trunfo desta pequena narrativa exibida na Competição das Curtíssimas da MONSTRA, para além das cores vibrantes, é o seu comprometimento com um tom tosco e brincalhão que não impede o filme de se manter relacionável para quem vê.

“This Socks”, de Ananya Bashyam, é muito fecundo do ponto de vista da imaginação, recorrendo a diversas técnicas de animação. Resultaria nesta marca dos dois minutos, e é de facto capaz de fechar o seu arco com mestria. Porém, seria também um forte candidato para uma história um pouco mais longa e que progressivamente se fosse tornando (ainda) mais insana.

Classificação: 85/100




O SHOW DO URSO BUDDY (THAVIN VONGPATANASIN, EUA, 2023, 2′)

MONSTRA 2024 curtíssimas
©Thavin Vongpatanasin/ Ringling College of Art and Design

Neste episódio do “Show do Urso Bubby”, Bubby apresenta o alfabeto até que uma figura sinistra aparece. Bubby precisa de escapar enquanto tenta manter a lição do alfabeto em andamento.

Curta universitária do tailandês Thavin Vongpatanasin, estudante na norte-americana Ringling College of Art and Design. “O Show do Urso Bubby” é uma curtíssima visualmente agressiva e repleta de humor negro, na onda dos “Happy Tree Friends” (quem se recorda desta webseries pejada de terror animado?). A sua animação digital não convida a grandes comentários, mas a progressão de espectáculo infantil inócuo para chacina foi capaz de divertir genuinamente quem assistia a esta sessão de Curtíssimas na MONSTRA – Festival de Animação de Lisboa.

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O realizador declarou, a propósito da participação no Chroma Art Film Festival, em 2023, que o objectivo do seu trabalho como animador e neste projeto seria fazer rir e contar histórias apatetadas e com humor. Missão cumprida!

Classificação: 70/100




AROMAS (TIAGO SILVA/ EYSHILA GONDOM, SOFIA CEIA/ PORTUGAL, 2023, 1′)

Aromas MONSTRA
©MONSTRA

Um sinesteta cego, capaz de associar odores a diferentes cores e texturas, procura algo para comer. O personagem avalia e distingue os alimentos disponíveis de acordo com os odores com os quais entra em contato, representados por cores. Rapidamente se sente super estimulado pelo ambiente devido a alimentos desagradáveis para ele, cheios de padrões intensamente matizados, até que finalmente encontra paz numa refeição simples que ele gosta.

Um caso notável nestas Curtíssimas da MONSTRA’24, “Aromas”, curtíssima portuguesa vinda do Instituto Politécnico de Portalegre e que contou com o apoio do Instituto do Cinema e Audiovisual, é uma obra capaz de se apresentar com forte densidade temática e estimulação visual apesar da sua reduzida extensão.

Não é por isso surpreendente que figure entre a lista de palmarés em 2024, distinguida como Melhor Curtíssima Portuguesa.Ao fim de contas, a sinestesia é um fenómeno raro e extremamente subjectivo. Empatizar ou simplesmente conhecer a realidade de quem o vive na pele é complicado, mas o trabalho visual de Tiago Silva, Eyshila Gondim e Sofia Ceia vai criar novas pontes. Destaque também para o trabalho de som de Alexandre Bragança, particularmente capaz de transportar quem vê para este universo culinário.

Classificação: 80/100




KAFKA & A BONECA PERDIDA (OLIOUS RAHMAN, REINO UNIDO, 2023, 3′)

Este é um filme sobre como Franz Kafka consolou uma menina (que perdeu a sua boneca) trazendo-lhe cartas, supostamente escritas pela boneca, contando as suas emocionantes aventuras pelo mundo. Eventualmente, conta a história, Kafka trouxe-lhe uma boneca diferente, fazendo-a passar pela original.

A curta-metragem da autoria de Oliur Rahman, criada na University for the Creative arts – UCA, não podia ser esquecida. Em primeiro lugar, devido à sua forte componente emotiva impulsionada pela apresentação da história verídica da amizade que Frank Kafka forjou com uma pequena criança. Isto já nos seus últimos anos de uma curta vida. Por outro lado, devido ao interessante exercício de comparação permitido.

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É que em 2022, precisamente a propósito da MONSTRA, havíamos já contactado com esta história através do veículo da animação. Foi Bruno Simões que assinou uma curta-metragem bastante semelhante, não fosse ela baseada na mesma história real – “A Boneca de Kafka” (disponível na FilmIn). Este “Kafka & the lost doll” é ligeiramente diferente, apresentando um estilo tradicional de animação mais poético e um foco evidente na narrativa real. Por outro lado, a obra de Bruno Simões enfatizara a vida imaginada da boneca presente na correspondência do autor de “A Metamorfose”.

Num ou noutro caso, louvamos a exploração desta temática tão interessante e que nos apresenta o lado bem humano de um dos grandes vultos da literatura mundial.

Classificação: 80/100




LAMAS NA LAVANDARIA (MARTHA GRANT, CANADÁ, 2022, 2′)

Supershorts MONSTRA Llamas at the laundromat
©MONSTRA

Tens roupa suja? Junta-te a dois lamas elegantes enquanto dançam e cantam pelas etapas de lavar roupa na lavandaria!

Fã do multiverso de “Everything Everywhere All At Once”, ancorado numa narrativa familiar situada numa lavandaria em falência? Bom, então “Lamas na Lavandaria” tem muito pouco a ver mas é igualmente divertido, insano e também situado no mesmo espaço físico, claro está. Curtíssimas (ou curtas de animação, em geral) são um terreno fértil para a introdução de componentes musicais e o ritmo aqui não falha!

Para quem tenha apreciado particularmente a narrativa breve da autoria de Martha Grant, aqui fica a autora a apresentar as criaturas criadas para a curta. A intenção dramática? Tão simples quanto encontrar motivação para tarefas aborrecidas como lavar a roupa. Colocamos também em destaque a canção divertida que pode ser ouvida no filme e ainda a criação das marionetas que são utilizadas em “Llamas At The Laundromat” (pela Pony Dot Productions, produtora canadiana focada em stop motion). O making of curioso pode ser visto aqui.

Destacamos ainda um trabalho de animação criado por uma vasta equipa e com particular detalhe: a realizadora Martha Grant, Philip Eddolls, Anna Harestad, Sarah Ball, Meaghan Hettler e ainda Scott Atkinson. Por fim, reforçamos o guarda-roupa notável de pequenos conjuntos em miniatura que vestiram as marionetas.

Classificação: 85/100




CORTA! (PHILIPPE KASTNER, CHÉQUIA, 2023,1′)

Short film CUT
©MONSTRA

Imagina isto: estás prestes a cozinhar uma refeição deliciosa para ti, quando de repente, um amigo liga e quer falar contigo! O que farias?

Com uma questão inicial que não parece senão mundana, “Cut!” sabe criar tensão e providenciar sólido humor negro no mero espaço de pouco mais de um minuto. Este é, como já deixámos bem claro, o verdadeiro potencial de uma programação como a Competição de Curtíssimas na MONSTRA – Festival de Animação de Lisboa. Provocar uma reação (forte) em muito pouco tempo.

Philippe Kastner merece também mérito devido ao estilo de animação escolhido – evocativo da belíssima animação a carvão. Esta curta já havia passado por Portugal em 2023, no IndieLisboa (onde teve estreia mundial no IndieJúnior) e no MOTELX (Lobo Mau), provando a sua qualidade através da sucessiva selecção em terras lusas.

Classificação: 85/100




ISTO MASTIGA-SE! (ARMEL SAINT LOUP, BÉLGICA, 2022, 3′)

MONSTRA curtíssimas
©Camera-etc

Gum é um doce pegajoso e um excecional jazzman. Cheio de emoções, o seu coração derrete-se muito rapidamente. Um Hino ao Amor e… a mastigar.

Quão frequente é vermos obras de animação narradas do ponto de vista de uma pastilha elástica? Nada, diga-se de passagem. Mas porque não? Os mais cépticos e pessimistas gostam de dar a arte do cinema por soterrada por uma infindável quantidade de conteúdo que é produzida, hoje em dia, e estreada em plataformas de streaming. Mas os festivais de cinema, como a MONSTRA e tantos outros, sabem perfeitamente escolher para as suas sessões filmes onde a originalidade figura.

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“Isto mastiga-se” é um destes casos preciosos, onde acompanhamos a jornada musical de uma pastilha elástica – da loja até ao caixote do lixo. Nunca é tarde para sentir empatia por tal objecto. Não esquecemos a música de Jean Saint Loubert Bié, a qual contribui para o charme imediato da pequena obra fundada no Jazz.

Da afamado casa belga Camera-etc, “That’s Chewing” é também uma das animações com mais qualidade técnica que pudemos ver nesta sessão.

Classificação: 85/100




O RAPAZ AZUL (RICKIE CAI, SUÉCIA, 2023, 3′)

O Rapaz Azul Curtíssimas
©MONSTRA

Durante uma festa, o segredo do rapaz azul foi revelado.

Se a comédia e inventividade são os valores fundamentais desta sessão de curtíssimas na MONSTRA de 2024, “O Rapaz Azul” troca-nos as voltas e conduz-nos para uma premissa mais convencional mas também emocionalmente devastadora. Rickie Cai constrói aqui uma sumária obra coesa: de arrependimentos a cenários hipotéticos, “The Blue Boy” narra o seu cenário trágico do dia-a-dia recorrendo a um estilo de animação escuro, simples, minimalista. Todos os elementos contribuem para a impressão geral: mágoa e empatia. Na competição de curtíssimas, levou a Menção Honrosa.

Classificação: 80/100




PASSADEIRA (DARIA VOLCHOK, RÚSSIA, 2023, 2′)

Passadeira MONSTRA
©TICFF, the Taiwan International Children’s Film Festival

A história da diferença na perceção do tempo. O personagem principal corre para a frente, enquanto a multidão está congelada à espera do sinal verde do semáforo.

De regresso ao humor e às premissas onde a imaginação não tem freios. Com pouco mais de dois minutos de duração, “Crosswalk” consegue deixar uma grande surpresa reservada para o final. A curiosa personificação de um objecto inanimado. Tal é a capacidade inventiva aqui demonstrada que ouvimos audíveis interjeições na Sala 3 do Cinema São Jorge, à medida que a multidão muito internacional (repleta de realizadores das curtíssimas) reagia a esta maravilhosa e colorida pequena história apresentada por Daria Volchok.

Classificação: 80/100




INTERNET GAGA (REINHOLD BIDNER, ÁUSTRIA, 2023, 2′)

Era uma vez (não faz muito tempo), nós os humanos acreditávamos que criaríamos um lugar de conhecimento livre e democrático através da internet. Apenas alguns downloads, deslizes e desgostos depois, agora sabemos que falhámos massivamente. 4Real!

“Internet Gaga” mergulha no mundo improvável da internet e entrega-se a memes, a montagens sem fim e à falta de coesão que se concentra na cacofonia do online. Para além de escrever, realizar, produzir e animar, Reinhold Bidner cria a divertida banda-sonora desta curta. Como é fácil imaginar, baseada na música “Radio Gaga” dos Queen.

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Mais um exercício estilístico que uma história, “Internet Gaga” confronta a ilógica natureza da nossa obsessão com a internet de uma forma arrojada e despretensiosa. Para criar esta sua lição em entropia, Reinhold Bidner recorre a desenhos em papel, animação 2D/3D, a fotos e ao uso de inteligência artificial. O resultado é uma manta de retalhos da qual não conseguimos desviar o olhar.

Classificação: 70/100

Em 2024, a MONSTRA passou por Lisboa entre os dias 7 e 17 de março e cá estivemos para acompanhar e relatar o seu percurso e os seus filmes galardoados. Para o ano há mais!



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