"Violation" | © MOTELX

MOTELX ’21 | Violation, em análise

Um dos filmes mais violentos e impiedosos do MOTELX, “Violation” encara o tema da vingança depois da violação com estonteante visceralidade. Nem dá para acreditar que esta é a primeira longa-metragem de Dusty Mancinelli e Madeleine Sims-Fewer, tão destemida e segura é sua voz enquanto cineastas.

Dizer que “Violation” é um filme complicado é um eufemismo de inconcebível monumentalidade. Difícil seria mais apropriado, quiçá até cáustico, acídico, capaz de queimar a carne, a mente, abrasivo de tal modo que nãos nos admiraríamos se fizesse alguém sangrar. Esta fita quer apunhalar suas audiências, torcer a faca e depois libar limão sobre a ferida. Faz isso através de escolhas simples, encenações modestas que ganham poder pela forma como se recusam a desviar o olhar. Quem espera dialéticas didáticas, detestará esta narrativa onde não há heróis nem vilões, onde todos são vítimas num ciclo vicioso de violência imperdoável.

O filme incide numa série de eventos hediondos na vida de Miriam. No limiar do divórcio, ela e seu marido, Caleb, viajam até à casa da irmã dela, Greta, em busca de algum convívio e paz. Sentimos tensão no modo como as irmãs interagem, histórias por contar e muito ressentimento. Em contraste com o matrimónio moribundo de Mirriam, Greta parece viver num sétimo céu de felicidade pós-nupcial com seu esposo, Dylan. O que inicialmente se afigura como um estudo de relações fraturadas à la Ingmar Bergman, gradualmente revela seus segredos. Da paz inquieta cortamos para uma discussão e assim percebemos que estamos a testemunhar um passado doloroso e um presente cheio de ódio.

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© MOTELX

Numa dessas viagens dos dois casais, Mirriam e o cunhado embebedaram-se sozinhos, à luz do fogo mortiço, partilhando histórias e inseguranças. Depois de terem adormecido, entorpecidos pelo álcool, ela acordou para se descobrir debaixo de Dylan. Por muito que lhe pedisse para parar, ele continuou sua agressão até ao orgasmo, solidificando uma memória luxuriante para o homem, um pesadelo para a mulher. O pior é que Greta não acreditou, culpando a irmã, fraturando sua relação e desencadeando um surto de raiva em Mirriam. Filmada em fragmentos meio descontextualizados, a cena da agressão sexual não ousa fazer do horror entretenimento, preferindo entrar na consciência da mulher em pânico.

A imagem do seu olho esgalhado é difícil de esquecer. Como a câmara lá permanece, quase que sentimos o desabrochar de uma ideia naquela íris lacrimada, a génese da violência vindoura. Dizemos isto, pois só testemunhamos esta violação depois do plano de vingança entrar em ação no fio narrativo mais presente. Numa subversão obscena, é quase mais fácil ver o sofrimento de Mirriam. Pelo menos, estamos mais habituados a ver tais coisas, mesmo considerando quanto a filmagem fragmentada foge à norma. O que não estamos acostumados a testemunhar é o metódico homicídio de um homem posto numa posição de vulnerabilidade sexual.

Para entendermos quão enervante “Violation” realmente é, temos que o contextualizar dentro de uma tradição do terror. Acontece que dentro dessa definição ampla do cinema horrorífico, existe um subgénero dedicado a histórias de vingança no rescaldo da agressão sexual. Ora criticados por sua comodificação do sofrimento feminino ou celebrados pela ideia de ação justiceira e retributiva, os filmes “rape revenge” têm vindo a dividir audiências há décadas. Até no panorama do mainstream louvado pela indústria cinematográfica conseguimos encontrar os filhos disformes do subgénero, sua ímpia prole.

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“Uma Miúda com Potencial”, o mais recente vencedor do Óscar para Melhor Argumento Adaptado, representa uma evolução tardia desta tradição. Ao invés de tornar a vítima em agressora com gosto pela carnificina, essa fita viu o sacrifício total como caminho para justiça, um toque niilista que inadvertidamente perpétua a vitimização feminina que a anti-heroína se predispõe a contrariar. Muitos foram aqueles que amaram esse filme. Muitos foram aqueles que o odiaram. O final, em particular, polarizou cinéfilos mundo fora, em parte, pela sua relutância em explorar o sofrimento masculino em prol de mais visões de mortificação feminina.

Se a linha evolutiva do “rape revenge movie” caminha na direção da sensibilidade mainstream, da sanitização pop e abstração do ato violento, “Violation” afigura-se como um movimento contrário. O único componente do filme que sofre sob os efeitos de uma vontade pela ambiguidade abstrata é o horror sofrido pela sua protagonista. Todo o aparato da sua vingança é detalhado ao mais ínfimo pormenor e a câmara nunca nos deixa escapar ao lavoro da retribuição. Somos obrigados a ver a consequência das escolhas, a carnificina da vingança. A um certo ponto, somos quase convidados a desfrutar da fetichização da carnificina sobre corpos masculinos.

Trata-se de uma estonteante mudança de paradigmas, isso é certo. Contudo, Mancinelli e Sims-Fewer não estão em busca do choque gratuito, da surpresa vazia. O “Violation” que criaram não é um espetáculo de sofrimento que pretende estudar a dor ou sequer formaliza-la. O duo não está a tentar ser nem Haneke nem von Trier. Pelo contrário, há um mergulho nas profundezas da mente traumatizada, uma busca pelo entendimento sem a edição das partes feias ou o limar das arestas aguçadas. Até mesmo fora das cenas de pesadelo talhante, há um questionamento do modo como quem sobrevive à violência pode fermentar o trauma até se tornar agressor. Nem as tradicionais barreiras de género se aplicam.

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Numa cena de inesperada subtileza, vemos como Mirriam pressiona Caleb a fazer sexo. Uma ereção não equivale a consentimento e é rara a narrativa que leva tão a sério a capacidade feminina para ser agressor sexual. Contudo, tudo neste filme parte do horror que Dylan impingiu a Mirriam, uma espécie de catástrofe primordial que abre uma caixa de Pandora que nunca será fechada. Quando o crime é feito, não há como voltar atrás, não como esquecer. Há quem perdoe, mas a nossa protagonista não consegue. Ao invés, ela engendra jogo sexual com o cunhado, usa o desejo como centro da sua armadilha. Depois prende-o, agride-o, mata-o, esvai seu sangue como um animal caçado e desfaz-se do corpo morto. Como que regressando a um instinto animal, sua ferocidade é predatória.

Não é spoiler dizer isto pois a maior parte do filme é dedicado a esse serão de lavoro duro, o trabalho físico que vem com o homicídio perfeito. Somos obrigados a ver tudo, a contemplar quanto a nossa empatia por Mirriam colide com seus atos atrozes, como a catarse dela transgride o perdão, o silêncio, que a sociedade tantas vezes impinge aos sobreviventes de tais crimes. “Violation” não é fácil de ver ou engolir, suas contradições enervam e deixam-nos os valores morais postos do avesso. Contudo, um filme sobre este tema não deveria ser de fácil visionamento. A brutalidade deste pesadelo é essencial ao seu discurso concetual, sua confrontação, sua interrogação do espetador e o mundo que possibilitou cenários semelhantes.

Violation, em análise
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Movie title: Violation

Date published: 9 de September de 2021

Director(s): Dusty Mancinelli, Madeleine Sims-Fewer

Actor(s): Madeleine Sims-Fewer, Anna Maguire, Jesse LaVercombe, Obi Abili, Jasmin Geljo, Cynthia Ashperger

Genre: Drama, Terror, 2020, 107 min

  • Cláudio Alves - 80
80

CONCLUSÃO:

Contrariando o cinema enquanto entretenimento, o terror enquanto espetáculo de prazer lascivo, “Violation” é uma estreia assombrosa para sua equipa de realizadoras canadianas. Violência sexual é raramente explorada com tanta franqueza, tamanha visceralidade formalista. Além disso, há também, neste filme, uma rara aceitação que o trauma não faz santos nem mártires. Aplausos para este cinema do desconforto e da inquietação.

O MELHOR: A brutalidade do exercício, a sonoplastia de carne dilacerada e osso serrado. Os pesadelos que o filme nos vai suscitar.

O PIOR: Há um gosto pela estética difusa, quase bucólica, que contrasta com o conteúdo sanguinário das imagens. O contraste é astuto, mas tende a parecer meio cliché no contexto do cinema independente norte-americano.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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