"Cryptozoo" | © MOTELX

MOTELX ’21 | Cryptozoo, em análise

Cryptozoo” de Dash Shaw é uma fantasia psicadélica e um dos poucos filmes animados na programação do MOTELX 2021. Antes de chegar a Portugal, a obra já passou por muitos outros eventos, incluindo o prestigiado Festival de Sundance.

Algures no fim dos anos 60, quando os movimentos progressistas radicais começavam a perder o fôlego, vive-se uma realidade onde os animais fantásticos dos contos-de-fada existem. Ao invés de mitos abstratos, eles são zoologia rara e conhecida por poucos. Dependendo da espécie, esses monstros podem também ser perigosos, letais até. É isso mesmo que um par de hippies descobre quando se aventura por um bosque americano. Depois do sexo, eufóricos com o orgasmo requentado e sonhos de revoluções armadas, um casal descobre um monumento estranho no meio do mato. Trata-se de uma enorme vedação, altíssima, mas facilmente escalada.

Despidos e indefesos, os jovens dedicam-se à exploração insensata. Do outro lado da cerca, dão de caras com um unicórnio e ficam encantados. O animal, contudo, não partilha o êxtase humano e depressa vira agressivo, hostil. Com uma investida cruel, o homem nu é esventrado pelo corno místico, enquanto a sua amante tudo testemunha com terror nos olhos. A fúria vingativa leva-a a matar o animal quando este cai magoado, quebrando-lhe o chifre e vestindo-o, qual troféu da caça. Ela não sabe, mas está encurralada num jardim zoológico de crípticos, reserva natural para esses animais que se julgam irreais.

CRYPTOZOO CRITICA MOTELX
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Atenção que, apesar do prólogo sensual e sangrento, cheio de choque e muitos palavrões, esta flower child assustada não é a protagonista de “Cryptozoo”. De facto, esta não é a história dela. Longe disso, Lauren Gray é a heroína conflituosa desta narrativa, uma ativista pelos direitos dos animais crípticos, que viaja à volta do mundo em seu salvamento. Cada vez que encontra nova espécie indefesa, ela oferece-lhes guarida, uma nova casa nas instalações do Cryptozoo titular, projeto sonhador de uma anciã misteriosa chamada Jane. Este filme retrata o fim apocalíptico do seu sonho, a falha no idealismo e sua derrota. Trata-se de um pesadelo psicadélico, extravasado de criatividade, mas pobre em virtuosismo técnico e muito puerilmente animado.

Dash Shaw não começou a carreira como realizador. De facto, mesmo no seu trabalho cinematográfico, a direção dos elementos animados tende a ser responsabilidade de outrem. Isto não tem necessariamente de ser um problema. Só que a difícil relação entre este autor e a ideia de movimento tem vindo a marcar todos os seus trabalhos cinematográficos. Por outras palavras, Shaw é um romancista gráfico, criador de banda-desenhada, e isso nota-se nos filmes que faz. Mais do que serem exemplos de animação, obras como “Cryptozoo” tombam mais para o cinema ilustrado.

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Atenção que, tal como a origem profissional de Shaw, essa vertente do cinema ilustrado não é indicadora de mediocridade. Muitos artistas têm encontrado forma de casar a ilustração com expressão audiovisual, com a poesia do tempo-movimento tão própria da sétima arte. O francês René Laloux e o japonês Ujicha encontraram pontos médios, hibridizações equilibradas onde o desenho estático em comunhão com a câmara ganha potência cinética. Até Chris Marker e suas montagens fotográficas vibram com a sugestão de movimento, tornando o estático em gesto. Seu engenho é eletrizado por aquela propulsão que faz mexer a imagem cinematográfica e lhe dá sua glória, mesmo quando só vemos momentos congelados.

Infelizmente, Shaw não é nenhum Laloux ou Ujicha, muito menos um Chris Marker. Sem querer levar esta depreciação comparativa mais longe, tentemos descrever como é que “Cryptozoo” se anima. Em semelhança ao último filme do realizador, “My Entire High School Sinking Into the Sea”, os desenhos recordam os rabiscos detalhados que um estudante aborrecido terá feito durante uma aula esquecida. Há rigidez no registo, corpos sólidos e falta de perspetiva, de variação na conceção de personagens. Também há muito charme no estilo, um suave toque de nostalgia adolescente. Se “Cryptozoo” fosse um romance gráfico só teríamos elogios a fazer ao visual.

CRYPTOZOO MOTELX CRITICA
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Só que, o filme é um filme, e por isso existe a pressuposição de movimento. Longe de contrariar tal ideia, a obra tenta moldar o estilo rudimentar a uma gestualidade ferrugenta. A fluidez não existe neste patamar e também não há grande brincadeira com a perspetiva ou com o enquadramento. Em certa medida, “Cryptozoo” é quase que composto como um filme live-action, tudo planos médios televisuais e disposições de cena que recordam um arco proscénio. Quase sentimos os limites do cenário, o fim do plateau, num meio de expressão onde tais limitações físicas não existem.

O bestiário de criaturas fantásticas é bem mais interessante que qualquer humano, mas o realizador faz questão de encher o ecrã com os humanoides pensativos, suas caras inexpressivas vomitando palavras de submissão ao caos. No centro de tudo, existem ideias que tanto podem tombar para a inspiração como para a pernície. Ou “Cryptozoo” delineia os limites da assimilação e de como esse não é o caminho para a real liberdade, ou afigura-se como ataque ao próprio conceito do conservacionismo, quiçá até do multiculturalismo. Talvez seja tudo isso em simultâneo. Uma coisa é certa, parece-nos uma obra cheia de potencial, mas demasiado dispersa e esteticamente rígida.

Cryptozoo, em análise

Movie title: Cryptozoo

Date published: 9 de September de 2021

Director(s): Dash Shaw

Actor(s): Lake Bell, Michael Cera, Emily Davis, Alex Karpovsky, Zoe Kazan, Louise Krause, Grace Zabriskie

Genre: Animação, 2021, 95 min

  • Cláudio Alves - 55
55

CONCLUSÃO:

A melhor maneira de ver “Cryptozoo” é provavelmente sob o efeito de alguma substância, para entrar mesmo no tenor psicadélico da obra. Sem estupefacientes à mistura, as fragilidades da obram ofuscam suas mercês e qualidades criativas. Apreciamos o fulgor artístico de Dash Shaw, mas perguntamo-nos se ele não se sairia melhor como realizador live-action. Por muito que os seus desenhos estáticos deleitem, o seu estilo não se mistura bem com as demandas da animação.

O MELHOR: O sentido de imaginação liberta, de criatividade juvenil explodida até se tornar numa tentativa de épico psicadélico. Ou seja, gostamos da ideia de “Cryptozoo”, mesmo que tenhamos problemas com sua execução final.

O PIOR: A rigidez da animação, a ênfase destrutiva nas personagens humanoides, os leves teores de retórica reacionária nas conclusões do texto.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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