"A Banquet" | © MOTELX

MOTELX ’22 | A Banquet, em análise

Na sua primeira longa-metragem, a realizadora Ruth Paxton considera a intersecção entre o terror folclórico e as realidades de distúrbios alimentares. “A Banquet” estreou no Festival de Toronto do ano passado e agora integra a competição Méliès d’Argent para Melhor Longa-Metragem Europeia no 16º MOTELX. O filme conta com Sienna Guillory, Jessica Alexander e Lindsay Duncan nos papéis principais.

A câmara considera a comida de um ponto de vista divino, olhando o prato de uma perspetiva superior. Belissimamente iluminada, a refeição deveria parecer-nos apetitosa, cheia de vegetais reluzentes e peixe grelhado a atiçar a língua. Contudo, algo na imagem nos faz pensar duas vezas, a atração comedida pelo sentimento irracional de que algo está errado nesta pintura. Ruth Paxton filma comida num paradoxo entre aliciamento visual e códigos de terror, fazendo um pesadelo do que poderia, noutras mãos, ter sido uma comum cena de jantar em família. No mundo do terror, o mundano torna-se maligno.

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© MOTELX

O contexto importa, pois claro, e é daí que vem muita dessa inefável aflição. Encontramo-nos numa casa de mulheres, onde Holly é a matriarca enviuvada que cuida de duas filhas adolescentes, Betsey e Isabelle. Quando nos deparamos com esse jantar do inferno, algo estranho aconteceu a uma das raparigas. Depois de um desmaio no arvoredo com uma lua vermelha no céu, Betsey deixou de comer. A mãe pressiona a jovem, tenta com ela negociar o repasto, limpando o prato até que só sobram cinco ervilhas, uma ervilha. A tensão é de cortar à faca e é difícil saber em quem confiar, se na adolescente sem fome ou na mãe preocupada.

Tal como nos inspira o paradoxo quando filma o prato, também Ruth Paxton considera as suas personagens de modo a iluminar contradições, as muitas interpretações possíveis do seu comportamento. Sienna Guillory interpreta Holly com um desespero febril evidente desde o prólogo onde a morte bate à porta em jeito grotesco. Sua histeria nunca trespassa para a loucura, mas o argumento de Justin Bull força-nos a considerar a sanidade, fazendo referência a problemas mentais no passado. Através de truques na montagem e sonoplastia, também Paxton apela à confusão sobre Holly, colidindo duas realidades na mesma cena em simultâneo.

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Mas algo está mal, não há dúvida. Afinal, como é possível que, não comendo, Betsey nunca perca peso? Semanas a fio, sua massa mantém-se constante, mesmo quando a vida se vai insulando até que pouco mais existe além de um quarto escuro, solidão e psicose. A chegada inesperada da avó perturba a ordem do filme e dá-nos novas explicações para a trama desenrolada. A mãe de Holly fala de estudos sobre mitologia estrangeira em que a recusa de alimento se revelava como influência demoníaca. Um conto japonês sobre mulheres com bocas monstruosas na nuca perturba o sistema, mas ainda mais preocupante é a asserção de que Betsey é um parasita.

 Dito isso, a avó traz outro tema ao barulho quando referencia os problemas mentais no passado de Holly. De repente, um estudo do sobrenatural torna-se em metáfora para o tratamento da maladia psicológica ao longo de gerações, cada mãe encarando a filha de modo distinto. Se Holly foi enclausurada num hospital psiquiátrico onde seu trauma só cresceu, Betsey é aconchegada pela mãe até ao ponto da loucura. As fraturas geracionais são evidentes, mas não há resposta certa para os dilemas. Chegado ao ponto em que o sonho invade a vida e se desvendam os mistérios da morte, “A Banquet” é um estudo em ansiedade feita terror.

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De forma geral, o filme perde alguma da potência à medida que avança, a acumulação de ideias resultando na sua mútua canibalização. Por outras palavras, há grande riqueza na imaginação de Paxton, Bull e companhia, mas o caos que daí surge nem sempre funciona em benesse da fita ou do seu espetador. Os maiores triunfos registam-se na esfera cenográfica, o jeito como a casa familiar se converte em mausoléu de assombrações, a vitalidade drenada do espaço como se a fome inexistente de Betsey devorasse tudo em seu redor, uma sanguessuga espiritual. As conclusões a que “A Banquet” chega nunca são tão interessantes como aquele momento inicial de dúvida, como esses quartos sem vida e esse jantar tortuoso.

A Banquet, em análise

Movie title: A Banquet

Date published: 7 de September de 2022

Director(s): Ruth Paxton

Actor(s): Sienna Guillory, Jessica Alexander, Ruby Stokes, Lindsay Duncan, Kaine Zajaz, Richard Keep, Rina Mahoney, Walter van Dyk, Jonathan Nyati

Genre: Terror, 2021, 97 min

  • Cláudio Alves - 60
60

CONCLUSÃO:

O filme de terror que delicia o espetador em atos primeiros, mas depois desaponta no dénouement é fenómeno comum. “A Banquet” segue o desgraçado modelo, explorando uma vicissitude de fascinantes possibilidades até afunilar o seu jogo de loucura numa ambiguidade final que desaponta mais do que assusta. Brilhantes prestações do elenco liderado por Sienna Guillory e uma equipa técnica pronta a apostar na ansiedade materializada elevam o projeto acima de outros seus semelhantes. Na mesma medida em que o argumento dececiona, a realização é uma surpresa positiva – queremos muito ver o que Ruth Paxton faz no futuro.

O MELHOR: Os cenários de Sofia Stocco e a fotografia de David Liddell, perfeitamente coordenados para dar a impressão de que algo maligno se regista mesmo quando a situação inicial prima pela mundanidade. Também amamos a criatividade do som e montagem, o modo como justapõe interações díspares, realidade e seu oposto.

O PIOR: A aglutinação de ambiguidades e folclore simplista cancelam o interesse de cada um, drenando o filme de vida tal como Betsey drena a vitalidade em seu redor. Também questionamos a sensatez de fazer um filme em que distúrbios alimentares são tão abertamente problematizados enquanto faceta monstruosa, não obstante a eficácia desse mecanismo enquanto fábrica do medo, do desconforto e inquietação.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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