"Holy Spider" | © MOTELX

MOTELX’ 22 | Holy Spider, em análise

“Holy Spider” foi um dos filmes mais polémicos no Festival de Cannes deste ano. Apesar da polémica, esta coprodução sueco-dinamarquesa sobre um serial killer iraniano conquistou o Prémio de Melhor Atriz para Zar Amir Ebrahimi. Agora, o filme chega ao MOTELX na secção Serviço de Quarto. Em anos anteriores, o festival também exibiu a estreia de Ali Abbasi na realização de longas-metragens – Shelley.

No panorama mediático atual, existe uma tendência infeliz para se glorificarem assassinos em série, construindo uma falsa equivalência entre o monstro carniceiro e a ideia de um génio criminal. Verdade seja dita, este fenómeno não é novo e o cinema muito fez para criar a situação em que nos encontramos. Altas missões e propósitos superiores são projetados sobre a figura do homicida, ilusões de inteligência superior também, assim como magnetismos malignos que em nada correspondem à banalidade mesquinha do facto verídico. Pensemos na literatura de Thomas Harris, séries como “Mentes Criminosas” ou “Mindhunter,” os muitos documentários e podcasts que se enquadram no género ‘true crime’.

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Como que num gesto antagónico para com estas manias mediáticas, o realizador Ali Abbasi aborda a figura do serial killer numa atitude de desmistificação. Sua violência é apresentada com toda a visceralidade, mas tudo se faz para subverter a conceção do assassino enquanto algo maior que a realidade. O monstro no centro de “Holy Spider” não é nenhuma assombração ou anjo vingador, nenhuma força sobre-humana ou exemplo de singularidade espantosa. Pelo contrário, a câmara de Abbasi está sempre pronta a capturar o lado patético da besta, a humanidade distorcida da figura em plena crise de meia-idade, desde a fragilidade física até à pequenez de pensamento.

Não se trata de nenhum tratado em radicalismo cinematográfico, mas põe em evidência as narrativas usuais do género, questionando-as ao mesmo tempo. Abbasi faz tudo isso através de uma história factual, inspirada num caso insólito que assolou o Irão na alvorada do século XXI. Entre 2000 e 2001, o pedreiro Saeed Hanael, também escrito como Said Hanai, matou dezasseis mulheres na zona este de Mashhad, uma cidade considerada santa e habitualmente descrita como a capital espiritual da nação iraniana. As suas vítimas eram principalmente trabalhadoras sexuais com problemas de toxicodependência, vulneráveis à oferta de dinheiro por um estranho suspeito.

Ele levava as mulheres à casa que partilhava com mulher e filhos e lá estrangulava-as, antes de abandonar os corpos nos arredores. Os homicídios foram apelidados de “matanças da aranha” pela imprensa iraniana, daí o título deste filme. Com isso dito, a primeira parte da expressão “Holy Spider” reencaminha-nos para uma das vertentes mais insidiosas na história deste assassino que se cria santo (holy). Como justificação para os homicídios, Saeed afirmou querer limpar a cidade sagrada da corrupção moral personificada pelas prostitutas, suas vítimas de eleição. Em tribunal, o homem chegou a alegar uma questão de honra, dizendo que só começou a matar depois da esposa ter sido confundida com uma dessas senhoras da noite.

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Segundo periódicos publicados aquando dos assassinatos, investigação e subsequente julgamentos, registou-se um apoio popular para com as justificações apresentadas por Saeed. Jornais mais conservadores defenderam as ações assassinas em praça pública e entrevistas da época sublinham como tais conclusões não eram incomuns. O caso tornou-se num palco de contradições políticas, iluminando as fraturas de uma sociedade patriarcal dividida por linhas de fervor religioso. Apesar de tudo isso, Saeed foi considerado e condenado à morte, tendo sido enforcado na prisão de Mashhad a 8 de Abril de 2002, menos de um ano após a descoberta da sua mais recente vítima.

Como se pode deduzir, um caso deste género veio a interessar muita gente, acabando por chegar aos ecrãs como não podia deixar de ser. Ainda em 2002, o documentário “And Along Came a Spider” incluiu entrevistas diretas com o assassino, enquanto, em 2020, Ebrahim Irajzad estreou “Killer Spider,” uma dramatização feita com o apoio da censura estatal. Ali Abbasi, realizador que nem sequer vive no Irão, decidiu fazer a sua versão da mesma narrativa factual fora das fronteiras nacionais. De facto, “Holy Spider” tem sido alvo de duras críticas pela parte das autoridades religiosas e governamentais dessa nação e jamais lá deverá estrear. Até a decisão do júri em Cannes foi vista como uma provocação islamofóbica segundo alguns.

Abbasi e seu coargumentista Afshin Kamran Bahrami certamente manipularam os factos em prol da narrativa, incluindo a figura de Rahimi, uma jornalista empenhada em resolver o caso, que na realidade nunca existiu. Contudo, reconfigurar esta narrativa cheia de violência contra mulheres para centrar a experiência feminina no Irão não nos parece um esforço vácuo. Além do mais, todo o exercício do cineasta incide num ponto fulcral, uma crítica e dissecação da mesma sociedade que se debateu sobre a moralidade de um assassino em série. Ao apresentar o monstro como um homem e filtrar o drama através da perspetiva marginalizada de Rahimi, o argumento reaprecia este episódio histórico como um retrato social ao invés de um perfil do indivíduo malévolo.

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Podemos discutir a nobreza destas escolhas ou a ética da ficção feita com base no tormento de outros até ao fim do tempo, mas é difícil ir contra a eficácia visceral de “Holy Spider.” A brutalidade do engenho e suas especificidades políticas elevam-no acima de exemplos semelhantes, mas é o virtuosismo técnico e interpretativo que fazem vingar o filme. Logo na sequência de abertura – a mais explícita secção da fita – Abbasi revela um novo lado do seu cinema, deixando o terror de “Shelley” para trás, assim como a fantasia de “Border.” Em vez desses estilos, estamos perante um neo-noir sem misericórdia, filmado com altos níveis de contraste até que a noite parece um abismo sem fim e o chador faz das mulheres buracos negros andantes.

Se a fotografia de Nadim Carlsen apela ao realismo distorcido de uma memória que virou pesadelo, a música de Martin Dirkov faz-se de abstrações eletrónicas, ominosos ribombares que parecem dar som aos fantasmas errantes de Mashhad. A montagem é fraturante, quase apressada apesar de o filme se aproximar das duas horas de duração. Acima de tudo, “Holy Spider” vive e morre nas interpretações dos protagonistas – Zar Amir-Ebrahimi como Rahimi e Mehdi Bajestani como Saeed. Outros atores se mostram exemplares, como é o caso de Alice Rahimi na abertura sinistra, mas nada supera a fúria palpitante com que a jornalista encara todos os segundos em cena.

Momentos de medo, quando o temor domina o corpo apesar de os olhos ainda brilharem com ódio, são estonteantes feitos que culminam num perigoso jogo de gato e rato. Mehdi Bajestani, por seu lado, brilha pela banalidade feia, pela natureza inglória que traz à figura do assassino, ativamente subvertendo o seu mito sem puxar pela simpatia do espetador. Testemunhar o trabalho destes dois atores é razão suficiente para ver “Holy Spider,” mas todas as interseções de política e polémica por detrás das cenas tornam a fita num evento a não perder.

Holy Spider, em análise
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Movie title: Holy Spider

Date published: 9 de September de 2022

Director(s): Ali Abbasi

Actor(s): Zar Amir-Ebrahimi, Mehdi Bajestani, Arash Ashtiani, Forouzan Jamshidnejad, Sina Parvaneh, Nima Akbarpour, Mesbah Taleb, Firouz Agheli, Sara Fazilat, Alice Rahimi, Ariane Naziri

Genre: Drama, Crime, Thriller, 2022, 116 min

  • Cláudio Alves - 85
85

CONCLUSÃO:

Mesmo quem conclua que o filme fracassa, tem que reconhecer quanto Ali Abbasi puxa pela discussão sobre o islamofascismo iraniano e seu efeito nas mulheres que vivem sob a ordem de tal regime. Este neo noir é um exemplo de true crime autocrítico, pondo em evidência os limites deste tipo de media e o modo como nos fazem pensar sobre aqueles que matam, ora por ordem estatal ou gozo próprio.

O MELHOR: O trabalho dos atores, a banda-sonora opressiva, a fotografia ensombrada que consegue justificar o abuso de grandes planos garças à variedade pictórica evidenciada na sua composição.

O PIOR: A estrutura típica, já vista em tantos outros projetos sobre crimes reais. Isso e a insistência na representação do ato homicida. Quiçá se justificaria numa primeira instância, mas as repetições tornam-se redundantes passado algum tempo.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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