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MOTELX’22 | Os Demónios do Meu Avô, em análise

Apresentado no Serviço de Quarto da 16ª edição do MOTELX, “Os Demónios do Meu Avô” é uma animação em stop motion, capaz de deixar o espectador a pensar no próprio passado. Repleto de metáforas e alegorias, esta é uma longa-metragem bastante surpreendente. 

Sócio-gerente da ‘Sardinha em Lata‘, uma produtora portuguesa de filmes de animação, Nuno Beato é o génio por trás da criação de “Os Demónios do Meu Avô”. Para além de realizador, o cineasta é também o responsável pela criação gráfica de toda a longa-metragem. Este é o primeiro filme português em stop motion, tendo estreado no nosso país na 16ª edição do Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa.

Primeiro que tudo, importa salientar o quão profundamente enraizada se encontra a cultura portuguesa em “Os Demónios do Meu Avô”. Para começar, as figuras de barro que surgem ao longo do filme como personagens demoníacas, são inspiradas no trabalho de Rosa Ramalho, a mais célebre ceramista e figura emblemática da olaria do nosso país. Mas as ligações às nossas origens não se ficam por aqui, uma vez que também a banda sonora da longa-metragem mostra uma clara evidência de inspiração em cantos tradicionais transmontanos, o que ajuda a construir um ambiente confortável e místico para o espectador.

Os Demónios do Meu Avô
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A primeira parte de “Os Demónios do Meu Avô” é uma óbvia ode ao mundo tecnológico que contamina todo o século XXI. Desde logo, o espectador é apresentado a Rosa, uma profissional bastante bem sucedida que se dedica totalmente ao seu trabalho, sendo absorvida por este por completo. Num ambiente totalmente dominado pela tecnologia, esta introdução apresenta-nos um cenário com figuras em 2D, o que evidencia a evolução dos filmes de animação. Mas este momento serve também para enaltecer a maior consequência da absorção na carreira profissional, que é o afastamento da família e das nossas próprias origens. É isso que acontece com Rosa e com todos os espectadores que assistem a esta longa-metragem. Para trás ficam as aldeias perdidas na serra, bem como a população mais envelhecida que é posta de parte pelos mais novos que dizem não ter tempo para se conectarem às suas raízes. É esta a triste realidade com a qual nos confronta “Os Demónios do Meu Avô”.

E tudo parece piorar quando Rosa é abruptamente confrontada com a notícia do falecimento do seu avô, não permitindo uma despedida entre ela e o homem que a criou. Mas tudo isso é apenas o ponto de partida para a história central de “Os Demónios do Meu Avô”. Após a morte de Marcelino, Rosa decide voltar à aldeia que a viu nascer e é aqui que toda a cultura portuguesa se torna na essência do filme. Pertencendo a protagonista a Trás-os-Montes, assim que esta chega à povoação, a longa-metragem adota a técnica de stop motion, conferindo ao filme um misticismo folclórico característico desta zona.

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Ao chegar à povoação transmontana, Rosa apercebe-se da existência de um clima hostil da população para com ela, estando este ambiente relacionado com o seu avô, considerado pela maioria um bruxo. Segundo os mais velhos, Marcelino havia amaldiçoado a aldeia após a sua amada ter fugido, desesperada por estar apaixonada por outro homem. Como tal, uma vez que a mulher supostamente teria caído ao rio, o seu marido havia então lançado um feitiço fazendo com que a população ficasse sem água, o que suscitou uma grande animosidade entre o povo.

O maior destaque do filme vai, sem dúvida para a grande metáfora sobre a qual assenta toda a longa-metragem. Como tal, quando falamos dos demónios do avô Marcelino não nos referimos aos bruxedos alegadamente feitos por esta personagem, mas sim do passado que insistiu em infernizar a vida do velho homem até ao fim dos seus dias. Para melhor caracterizar isso, as figuras demoníacas surgem com máscaras que se assemelham aos Caretos, uma personagem tradicional de Trás-os-Montes que, segundo a lenda seriam os detentores do poder dos antepassados. Assim, estando este filme apresentado num festival de terror, rapidamente nos damos conta que o verdadeiro horror reside no inferno da vida real e não no panorma do imaginário e do fictício.

Os Demónios do Meu Avô
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No fim, é importante também observar a evolução da personagem principal. Enquanto Rosa se apresenta no início como uma figura cinzenta cujo único foco é o trabalho e o sucesso profissional, o que é suportado pela personagem de Johnny, um jovem extremamente viciado em tecnologias, o que o transforma numa figura que cai no ridículo que, inclusive deixa de viver o momento ao mergulhar em aplicações, como a app para ver as entrelas quando o céu está mesmo por cima dele. Porém, Rosa acaba mesmo por se tornar um membro aceite na comunidade, o que mostra a superação de todos os demónios.

Esta é, sem dúvida, uma longa-metragem interessante, capaz de despertar a consciência do espectador que facilmente se identifica com a pecularidade das personagens. O filme mostra-nos em pouco mais de uma hora o quão fácil é trocarmos as nossas raízes pelo mundo da tecnologia, deixando ao abandono aqueles que tanto se sacrificaram por nós no passado, mesmo quando os ‘demónios’ insistem em perturbar a sua existência.

Os Demónios do Meu Avô, em análise
Os Demónios do Meu Avô

Movie title: Os Demónios do Meu Avô

Movie description: Rosa é uma mulher que se dedica inteiramente à sua profissão, deixando para trás as suas origens e a aldeia que a viu nascer. Após a morte do avô, Rosa decide abandonar a cidade e reviver as memórias da sua infância. Porém, ao chegar à terra transmontana, apercebe-se da animosidade que a população tem para com ela, fruto das más escolhas do avô Marcelino no passado. Ao mesmo tempo, um conjunto de demónios de barro modelados pelo seu avô parecemganhar vida, aconselhando-a e orientando-a, como ele próprio teria feito.

Date published: 28 de September de 2022

Country: Portugal

Duration: 90'

Director(s): Nuno Beato

Actor(s): Vitória Guerra, António Durães, Martim Carvalho Balsa, Ana Sofia Martins, Nuno Lopes

Genre: Animação

  • Jéssica Rodrigues - 86
86

RESUMO:

No fundo, “O Demónio do Meu Avô” é uma metáfora para o terror das ações cometidas no passado que teimam, muitas vezes, em assombrar o presente, influenciando de forma negativa o nosso futuro. Acima de tudo, é uma lição…

Pros

  • Banda Sonora com ritmos típicamente transmontanos;
  • Uso dos demónios como metáfora para um passado sombrio;
  • Enaltecimento da cultura portuguesa, com recurso a tradições de Trás-os-Montes;
  • Contraste entre a personagem sombria da cidade e a figura mais alegre da aldeia.

Cons

  • Por vezes torna-se difícil percecionar o objetivo dos demónios que ganham vida à noite em casa do avô Marcelino.
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