"Moulin Rouge!" | © 20th Century Fox

Moulin Rouge! | O Musical faz 20 anos!

Enquanto esperamos pelo Festival de Cannes de 2021, é boa altura para recordar alguns dos filmes que lá estrearam há 20 anos. Uma dessas obras foi “Moulin Rouge!” de Baz Luhrmann, um estrondoso musical que ajudou a revitalizar um género e continua a ser uma proposta arrojada de cinema pop híper-referencial. Nos Óscares, a obra ganhou dois troféus, Melhores Cenários e Figurinos, e foi nomeado em mais seis categorias, incluindo Melhor Filme e Melhor Atriz.

Na década de 60, as megas-produções musicais que Hollywood produziu em série, uma tentativa desesperada de replicar o sucesso de “West Side Story” e “Música no Coração”, acabaram por desferir um golpe mortal para o género. A criatura que é o musical do grande-ecrã foi-se esvaindo em sangue durante os anos 70 e 80, com alguns sucessos transgressivos a dar os últimos batimentos cardíacos. Chegada a última década do século XX, o filme musical já estava morto e enterrado, sua carcaça insuflada com gases decompostos e vermes necrófagos. Contudo, o seu fado viria a mudar com a alvorada do milénio.

Hoje em dia, é comum nomear o campeão do Óscar de Melhor Filme de 2002, “Chicago”, como a produção responsável pelo milagre da ressurreição. Contudo, as origens do fenómeno encontram-se em trabalhos mais esteticamente arrojados, obras que provaram aos cineastas do mundo que ainda havia muito a explorar nessa expressão cantada. “Dancer in the Dark” de Lars von Trier abriu as portas à inovação, ganhando a Palme d’Or em 2000. No ano seguinte, dois trabalhos mais próximos de Hollywood provaram ainda mais que o musical estava de regresso. Eles foram “Hedwig – A Origem do Amor” e o filme cujo aniversário estamos aqui a celebrar.

Referimo-nos, pois claro ao alucinante “Moulin Rouge!”, um milagre de melodrama frenético com uma das melhores bandas-sonoras de todos os tempos. Longe de seguir o caminho de narrativa visionária, os olhos do realizador australiano Baz Luhrmann miraram o passado para formular a história que serve de base a este festim para os sentidos. Em certa medida, trata-se do mito de Orfeu retorcido e transladado para a Paris do virar do século. Neste sonho de celuloide, a cidade funciona como um organismo da Belle Époque onde o clube que dá título ao filme é seu coração rubro, sempre a bombear vida e fulgor.

moulin rouge critica 20 anos
© 20th Century Fox

Também encontramos cheirinhos de “Svengali” e d’”Os Sapatos Vermelhos”, uma mixórdia de arquétipos justapostos até conceberem todo um edifício palimpséstico de referências populares. Existe pureza de sentimento nesta história cliché de um amor proibido entre o artista esfaimado e a bela cortesã. Há familiaridade também, algo que torna mais fácil a experimentação formal e tonal. Se há algo que “Moulin Rouge!” é, será uma maravilha formalística de euforia musical materializada numa coleção infinita de propostas cinematográficas.

O próprio realizador já veio dizer que, para ele, os primeiros quinze minutos do filme são uma espécie de teste ao espetador. A avalanche de referências é tão grande e o ritmo tão violentamente apressado que parece estarmos a ver uma mutação ímpia dos Looney Tunes sob o efeito de absinto. Assim se passa até que o romance central é estabelecido e amor começa a desabrochar. Esse acontecimento muda os paradigmas da peça, mas não cessa por completo a variação rítmica. Tudo isso é auxiliado pelas canções, uma panóplia de sucessos pop aqui refeitos para serem a poesia do protagonista.

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No universo cinemático de Baz Luhrmann e companhia, faz todo o sentido que o poeta da geração cante suas glórias através dos maiores hits da pop. Da sua boca derramam versões reconstruídas d’”A Música no Coração”, de Elton John e até dos Police. O que poderia ser kitsch pretensiosa nas mãos de outros cineastas, toma a forma de ambrósia cinematográfica no paradigma de Luhrmann. O melhor que tudo é que não se trata somente de um exercício em folia emprestada e diversão invariável. O género musical conta verdades com mentiras, usa o artifício declarado do seu modelo dramático para expressar a interioridade profunda das personagens num modo que o diálogo naturalista não consegue replicar.

Portanto, a falsidade faz parte do engenho e criticá-la é revelar incompreensão do género cinematográfico. Nos bons exemplos do musical, esta ópera pop não impede que a emoção genuína emerja do fausto cantado. Por outras palavras, tanto nos rimos como choramos perante “Moulin Rouge!”. O can-can da “Lady Marmalade” dá vontade de dançar a alegria libidinosa de uma noite de festa, mas o “Tango Roxanne” é expressão máxima da crueldade do amor corrompido, traído, do coração desfeito e fermentado em raiva. A montagem está sempre a negociar estas transformações de género dentro do género, permitindo que o mais irónico dos circos resvale na sinceridade suprema num abrir e fechar de olhos.

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© 20th Century Fox

Tão rápida é a transição, tão fulminante é o gesto, que esperamos ver o filme perder-se pelo caminho. Contudo, “Moulin Rouge!” jamais se perde, jamais descarrila. Trata-se do maximalismo no cinema, do mais é mais, do excesso como ordem do mundo, da hubris como valor a celebrar ao invés de um defeito repudiado. Toda a linguagem visual do filme segue estas máximas ideológicas e estilísticas. Já muito falámos da montagem de Jill Bilcock, da direção musical de Craig Armstrong e Andrew Ross, mas não há um único elemento em falha nesta espiral de caos ornamentado. Especialmente estrondoso é o design de Catherine Martin, esposa do realizador, sua figurinista e cenógrafa de eleição.

Ela mereceu os dois Óscares que ganhou com o filme, sua recriação ensandecida do cabaret parisiense um sonho de detalhes brilhantes, cor e loucura. Também as roupas são belas, deliberadamente anacrónicas e apelando tanto ao fim do século XIX como à tradição do musical de Hollywood. A fotografia híper-colorida de Donald McAlpine unifica estes fatores dispersos sem, contudo, negar sua caótica coexistência. Há muito a admirar na técnica com que o artista transforma os interiores do “Moulin Rouge!” e sua pista musical. Num instante, os rosas calorosos do can-can elétrico são subsumidos pela escuridão. Nas trevas, um projetor azul pinta a pele de Nicole Kidman em tons de porcelana fria.

Com cabelos escarlates e figurino reluzente, ela parece mais ninfa que pessoa, uma aparição mágica que apaixona tanto o espetador como o poeta sentimental a que Ewan McGregor dá vida. Os dois atores raramente foram melhores que neste filme. Sua evocação da paixão é tão arrebatadora para o espetador como para as personagens e nenhum dos seus colegas descura seus próprios papéis. Quer seja em performance coquete ou num grito de perda, o elenco de “Moulin Rouge!” é tão consistente na sua excelência como o resto dos colegas cineastas. Considerando todos os riscos tomados, toda a loucura no ecrã, a qualidade do filme é duplamente admirável. Não dá para acreditar que tudo isto funciona, mas é impossível negar o seu sublime triunfo. “Moulin Rouge!” é cinema do melhor, influente e inesquecível.

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© 20th Century Fox

“Moulin Rouge!” pode ser visto na Disney+ e na HBO Portugal. Também está disponível para alugar pela MEO, Rakuten TV, Apple iTunes, Google Play e Youtube.

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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