Melanie Griffith, Harrison Ford e Sigourney Weaver em Uma Mulher de Sucesso (1988) © 20th Century Studios

Classic Fever | Uma Mulher de Sucesso (1988)

Revisitamos Uma Mulher de Sucesso, de Mike Nichols, um dos mais aclamados filmes de 1988 que continua bastante pertinente.

Agosto é o mês de verão, de idas à praia e é também o mês de preparação para o novo ano letivo. Enquanto isso esquecemos que muitos continuam a sua vida profissional, tentam enviar currículos atrás de currículos, e são menosprezados para cargos de potencial relevo não tanto pela sua experiência, mas pelo género, aparência, sexualidade e ambições salariais. Ontem e hoje habitámo-nos a estas realidades que passámos a ignorá-las.

Curiosamente, nesta semana, a MHD acabou por assistir a um filme sobre o esforço em conseguir o reconhecimento em termos profissionais. Ninguém quer ouvir falar do seu emprego estando em férias, mas este filme é uma boa oportunidade para repensar nos papéis de homens e mulheres no mundo laboral. A obra da qual vos propomos falar chama-se “Working Girl” (1988), por cá conhecida como “Uma Mulher de Sucesso” e tem Mike Nichols na cadeira de realizador. Esta obra leva-nos até Nova Iorque e, apesar de ser uma comédia romântica bastante ligeira, consegue abordar as falhas do sistema norte-americano em relação à maneira como as mulheres são tratadas. Lamentavelmente, estas situações  ainda estão longe de serem apagadas.

Uma Mulher de Sucesso: qual a história deste filme?

Uma Mulher de Sucesso” não é um filme sobre uma mulher de sucesso, mas antes sobre uma mulher que aspira ao sucesso. Neste filme seguimos Tess McGill (Melanie Griffith) que ainda não encontrou o seu caminho profissional. O seu look, o seu corte de cabelo, as suas roupas e as suas pulseiras sempre em choque – semelhantes ao estilo das artistas pimba deste Portugal -, não é o indicado para triunfar num mundo empresarial dominado por homens de fato e gravata. Se hoje continua a ser difícil, imaginemos nos finais dos anos 80, onde as empresas da Wall Street tinham, na sua grande maioria, rostos masculinos interessados em juntar milhões de dólares.

Inicialmente Tess acaba por perder o emprego, mas logo encontra outro em pouco ou nada melhor. Terá uma última chance como secretária da honesta Katherine (Sigourney Weaver). Embora mais jovem, Katherine promete ajudar Tess a ser mais confiante e a saber desvencilhar-se no universo de homens. As coisas, no entanto, sofrem uma reviravolta e Tess acaba por ter mais autoridade do que inicialmente pretendida. Sem revelarmos demasiado do argumento, “Uma Mulher de Sucesso” junta Tess a um homem de negócios, bonitão e sedutor, interpretado por Harrison Ford. O resultado é uma história com doses de humor e tentativas mal sucedidas de assinar um negócio que os irá deixar nas nuvens.

Porque razões não posso perder Uma Mulher de Sucesso?

Muitos continuam a discutir a pertinência de “Uma Mulher de Sucesso” em termos cinematográficos, mas também em termos sociológicos, tendo em conta as questões que levanta. Antes de tudo isso, vale a pena referir que “Uma Mulher de Sucesso” é uma comédia divertida, que permite acompanhar uma pessoa a amadurecer seja do ponto de vista profissional, como do ponto de vista pessoal. Tess é uma mulher que sabe o que quer, embora o caminho a percorrer esteja cheio de armadilhas.

É uma personagem que está no caminho para a mudança que não quer ficar agarrada a um emprego que simplesmente lhe paga as contas. Tess quer mais do que viver na paz de um pequeno bairro. Tess, com uma voz muito próxima a Jean Hagen em “Serenata à Chuva” (1952) está prestes a abrir os seus horizontes e não vai deixar que ninguém lhe pare.

Uma Mulher de Sucesso
Melanie Griffith e Harrison Ford em Uma Mulher de Sucesso (1988) © 20th Century Studios

Isto permitiu a “Working Girl” fazer algo único. Embora a América já estive habituada a ver filmes sobre mulheres trabalhadoras, “Uma Mulher de Sucesso” parece estar ligeiramente à frente do seu tempo. Vê-lo nos dias de hoje continua a ser marcante. Nike Nichols faz um retrato puro das mulheres que quebram regras na sociedade opressiva e conservadora dos EUA, e o cineasta consegue quase tirar as personagens femininas do cinema mais independente. As mulheres já não precisam de estar à beira de um ataque de nervos para se fazerem ouvir.

Mesmo a dualidade entre Tess e Katherine revela, com ironia, como as mulheres são muito mais do que objetos de prazer. Curiosamente, as três mulheres deste filme – Melanie Griffith, Sigourney Weaver e Joan Cusack – foram nomeadas às estatuetas douradas no ano seguinte.

Uma Mulher de Sucesso
Melanie Griffith em Uma Mulher de Sucesso (1988) © 20th Century Studios

Entre elas, Melanie Griffith é a mais relevante. A atriz, filha de Tippi Hedren, encontrava na personagem de Tess uma redenção para o seu estatuto cinematográfico, muito além dos seus atributos físicos, como até então persistia em Hollywood – basta revê-la no filme “Testemunha de Um Crime” (Brian De Palma, 1984). Mas “Working Girl” nunca chega a ser só sobre Tess, é sobre essas jovens entre tantos cidadãos que querem as suas ideias refletidas na prática. Tess revela que há algo além da aparência e até da classe. Tess é uma pessoa que sabe trabalhar com as ferramentas que tem à sua disposição. Se nos empenhássemos o suficiente também lá chegaríamos.

Música de Carly Simon para ouvir para eternidade

Uma Mulher de Sucesso” começa e termina com uma das melhores músicas da história do cinema. “Let the River Run”, com música e letra de Carly Simon e também interpretada pela artista norte-americana venceu o Óscar de Melhor Canção Original, o Globo de Ouro na mesma categoria e ainda o Grammy para Melhor Canção escrita para um produto de entretenimento.

Carly Simon tornar-se-ia na primeira pessoa da história a vencer estes três prémios por uma canção inteiramente composta, escrita e interpretada individualmente. Nos Óscares, esteve em confronto com “Calling You”, de Bob Telson e “Two Hearts”, de Lamont Dozier e Phil Collins.  Um exemplo raro de como a música pode refletir a vitalidade do filme. Com ela percebemos que a melhor forma de aceitar cada momento é deixar o rio seguir o seu percurso.

Uma Mulher de Sucesso: frase mais icónica

Mulher de Sucesso
Joan Cusack em Uma Mulher de Sucesso (1988) © 20th Century Studios

Joan Cusack é uma verdadeira estrela neste filme, no papel que lhe valeu a sua primeira nomeação ao Óscar de Melhor Atriz Secundária. É ela a responsável por uma das frases mais icónicas de “Working Girl” e que podemos ignorar.

“Às vezes eu canto e danço em volta da minha casa de roupa interior. Não me faz disso uma Madonna. Nunca fará.”

Uma Mulher de Sucesso está disponível online

Para quem tenha interesse de ver ou rever este filme pode fazê-lo através da Disney+. A plataforma de streaming da Walt Disney tem outras comédias dos anos 80 que merecem a pena. Subscreve já a plataforma por apenas 8,99€ por mês.

De referir também que última semana foi revelado pelo site Deadline, que a 20th Century Studios está a desenvolver um reboot desta obra com Selena Gomez como produtora e argumento de Ilana Pena. Poderá ser a versão contemporânea que precisamos! A ver vamos.

Virgílio Jesus

Era uma vez em...Portugal um amante de filmes de Hollywood (e sobre Hollywood). Jornalista e editor de conteúdos digitais em diferentes meios nacionais e internacionais, é um dos especialistas na temporada de prémios da MHD, adepto de todas as formas e loucuras fílmicas, e que está sempre pronto para dois (ou muitos mais!) dedos de conversa com várias personalidades do mundo do entretenimento.

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