Naomi Kawase afirma que a Netflix irá salvar o cinema japonês

A problemática da liberdade artística no Japão já não é nova mas para Naomi Kawase a solução pode estar perto. A cineasta acredita que a Netflix é a resposta.

“Não tenho filmado um único filme com 100% de financiamento japonês nos últimos dez anos”. Esta é a frase que mais ecoou numa entrevista recente onde Naomi Kawase criticou mais uma vez a indústria de cinema japonesa, alertando para a necessidade de uma mudança.

Apesar de não tão bem aceite por muitos cineastas, como se pôde ver no Festival de Cannes deste ano relativamente a Okja de Bong Joon-Ho, parece que a Netflix pode vir a oferecer uma ajuda preciosa aos realizadores japoneses, cuja criatividade tem vindo a ser travada nas últimas décadas.

“A indústria cinematográfica do Japão está a tornar-se num cenário cada vez mais difícil para os realizadores. Os patrocinadores regem-se pelo elenco. Eles querem que usemos atores que lhes garantam um público numeroso, de modo a recuperarem o dinheiro investido.”

E se repararmos, a maioria do financiamento dado a Kawase para o seu mais recente projeto, Hikari, provem de patrocinadores franceses, dispostos a incentivar o talento e criatividade da autora, em detrimento do lucro.

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A realizadora continua:

“[A Netflix] seria um lugar onde me poderia expressar livremente. Não rejeitaria a ideia de forma alguma. A Netflix deu-lhe [Bong Joon-Ho] o dinheiro que ele precisou sem intervir. Ele disse que é um ambiente fantástico para os cineastas, e tem razão. (…) É muito difícil vender um guião original porque eles preferem adaptações. (…) Os cineastas não são livres de criar o que querem. A realidade é que temos de trabalhar com patrocinadores estrangeiros com um guião que não requer apenas atores japoneses. Mas assim acabamos por perder o sucesso comercial no Japão. Não é mesmo fácil”.

No fim, as declarações mantêm ao de cima a discórdia. Muitos distribuidores franceses, assim como Pedro Almodovar (presidente do júri de Cannes), estão contra a interverção da Netflix acusando-a de ignorar o grande ecrã e ameaçando proibir a sua participação no festival. Porém, se isto acontecer, o “grande ecrã” depressa verá grandes autores desaparecer.

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Ao lado de Kawase estão inúmeros cineastas, entre eles Hirokazu Kore-eda, um dos grandes nomes do novo cinema japonês e cujo trabalho já foi comparado ao de Yasujiro Ozu. Kore-eda afirma:

“Vão haver cada vez mais realizadores que querem trabalhar com a Netflix ou a Amazon, pessoas fora da indústria cinematográfica do Japão. O setor inteiro irá apenas afundar-se se isto continuar assim.”

HIKARI É O MAIS RECENTE PROJETO DE NAOMI KAWASE

Se olharmos para as estreias japoneses podemos reparar que a esmagadora maioria são de facto adaptações. Desta vez, os patrocinadores garantem parte do público. Qual a tua opinião? Está a indústria japonesa a matar a criatividade? Ou está ela certa por pensar no lucro primeiro e na originalidade depois?

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Ângela Costa

Mestre em Cinema pela Universidade da Beira-Interior, sou apaixonada pelo cinema japonês e toda a cultura que o envolve. Adoro igualmente fotografia e se tiveres curiosidade passa no meu Instagram ;) Música e videojogos são dois outros grandes interesses.

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