No Coração do Mar, em análise

 

O novo filme de Ron Howard viaja pelos profundos mares do CGI, mas cria uma certa misericórdia entre humanos e animais que já fazia falta.

 

No Coração do Mar Título Original: In the Heart of the Sea
Realizador: Ron Howard
Elenco: Chris Hemsworth, Benjamin Walker, Tom Holland, Cillian Murphy e Brendan Gleeson
Género: Biografia, Drama, Ação, Aventura
NOS | 2015 | 121 min[starreviewmulti id=18 tpl=20 style=’oxygen_gif’ average_stars=’oxygen_gif’]

 

Baseado no livro do mesmo nome de Nathaniel Philbrick, No Coração do Mar centraliza-se nos acontecimentos que decorreram antes e depois do naufrágio do baleeiro Essex (que partiu de Nantucket, nos Estados Unidos da América durante o verão de 1819) em busca de cachalotes para obter óleo, imprescindível à iluminação de vários lares. Logo de início conhecemos Herman Melville (Ben Whishaw) que nutre um certo fascínio pela caça às baleias, razão pela qual segue ao encontro de um dos oito tripulantes que sobreviveram ao naufrágio, o agora velho e alcoolizado Thomas Nickerson (Brendan Gleeson). Após teimar com a sua mulher (Michelle Fairley de Game of Thrones) pelo facto de não quer relatar os eventos traumáticos, ela relembra-o das avultadas contas que têm ainda que pagar.

Neste sentido, todo o filme se desenrola entre o passado e o presente da narração e adopta uma estrutura narrativa bastante clássica, dominada por flashback’s. No seu desenvolvimento acabamos por conhecer Owen Chase (Chris Hemsworth), um humilde mas ambicioso marinheiro desesperado por ser nomeado capitão e que está prestes a tornar-se pai. Ao seu lado está o descendente de uma das famílias mais importantes da indústria do óleo de cachalote, George Pollard (Benjamin Walker, mais conhecido por interpretar Abraham Lincoln em Diário Secreto de um Caçador de Vampiros). A rivalidade entre ambos é imediatamente percebida por Thomas (interpretado por Tom Holland, quando jovem), não apenas do ponto de vista da classe social que integram, mas também pelo confronto dos ideais mais liberais com outros porventura mais conservadores. Deste modo, digamos que se assemelha ao conflito de Niki Lauda e James Hunt (também interpretado por Chris Hemsworth), que Ron Howard mostrou em Rush: Duelo de Rivais.

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Umas vezes capaz, outras vezes nem tanto, também influenciado pela banda-sonora um pouco forçada de Roque Baños (mesmo pouco transcendente e mais heróica), No Coração do Mar não oferece a mesma intensidade dramática que o anterior exemplo fílmico Howard, pois não destaca em profundidade quaisquer personalidades conflituosas. Aqui a personagem desempenhada por Hemsworth é muito mais focada, já que desempenha uma espécie de herói mítico que resolve todos os problemas. É, aliás, o único com quem criamos empatia pelo contexto familiar e moral exemplificado logo no início do filme. Owen é ainda é eficaz na coordenação imediata de tarefas por todos os tripulantes. Todavia, numa região um quanto remota do Oceano Pacífico e em pleno desespero de encontrar uma baleia observam um cachalote demoníaco de gigantes proporções. Cedo percebemos que estaremos diante uma narrativa aquática com a premissa de resgate idêntica à de Titanic (James Cameron, 1997), ou mais recentemente à de A Vida de Pi (Ang Lee, 2012).

No Coração do Mar

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A luta pela sobrevivência não foi fácil e mesmo que saibamos que alguns dos membros serão salvos, nem todos atores têm tempo para brilhar, à excepção talvez de Cillian Murphy como Matthew Joy, um amigo de infância de Chase. Nos atores secundários, falta empregar uma personalidade mais vincada, pois esses tripulantes são em terra criminosos, vagabundos, homens de família e  órfãos, como Owen descreve, mas não dá para perceber a ligação dos mesmos ao mar, nem os seus temores e conflitos têm tempo para emergir.

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Em contrapartida e de forma crua, pelo rico diálogo do velho Thomas com Melville, percebemos no olhar de Gleeson (que está a ter um ano em cheio, após a interpretação em As Sufragistas) a prática selvagem que os sobreviventes tiveram de recorrer. De algum modo,  perdoamo-los, porque não saberíamos o que fazer na mesma situação. Destaque ainda para um dos momentos de confronto com a baleia, no qual o nervoso Owen Chase – Hemsworth num dos melhores desempenhos da sua carreira  – enfrenta a besta subaquática e parece existir uma certa misericórdia – o campo/contracampo da personagem humana e da baleia é criado pelo olhar de cada um, e parece que todos nós, espetadores somos o seu cérebro, responsável por depreender os motivos que os levam a ser tão horrendos um com o outro. Uma chamada da atenção para o interesse insaciável do Homem na busca da matéria-prima.

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Além disso, os portugueses encontram no enredo um espelho das práticas que exerceram, com o mesmo propósito – nomeadamente nos mares do Arquipélago da Madeira e do Arquipélago dos Açores, em que a caça à baleia fora recorrente desde o século XVI até meados do século XX. No Coração do Mar é uma aventura bigger-than-life, recomendável a visualização num ecrã IMAX cujo som e força dos mares o fará se sentir dentro e fora água… pena que alguns momentos precisem de mais oxigénio.

VJ

 

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