NOS Primavera Sound | A esquizofrenia dos Foxygen na noite de Damien Rice

O NOS Primavera Sound encerrou ontem e já deixa saudades. Apesar da temperatura ter subido consideravelmente, o derradeiro dia acabou por ser mais morno que os dois anteriores. Foxygen e Damien Rice foram protagonistas.

Manel Cruz, ex-Ornatos Violeta, terminava a sua apresentação no Palo Super Bock (lotado de fãs devotos), quando nos sentávamos na relva, sob um sol intenso, para ouvir Baxter Dury, filho de Ian Dury. Àquela hora, poder-se-ia dizer Baxter já não estava completamente consciente dos seus atos, mas isso era uma questão que não voltaríamos a ver com tanta estranheza depois do espetáculo alucinogéno dos Foxygen, logo de seguida.

Com reminiscências de Joy Division (aquele “Picnic on the Edge” traz memórias de “She Lost Control”), e com um “I love you” a cada cinco minutos, Baxter foi o anfitrião ideal para o início do ritual do bater do pé.

Foxygen
Foxygen © Hugo Lima

 

Ao lado, no Palco Super Bock, já estava tudo pronto para receber a esquizofrenia dos Foxygen. Quando Sam France entra em palco, com o seu fato largo à moda dos anos 70, camisa desapertada (que seria trocada sempre que necessário) e movimentos tresloucados a lembrar um Mick Jagger em desfalecimento, percebemos logo que ali estava um dos grandes concertos desta edição do NOS Primavera Sound.  A dança sensual das cantoras/bailarinas de apoio, a mão de Sam nos genitais, a garrafa certamente carregada de álcool, as brigas com os guitarristas e baterista, lutas de espadas, a tentativa falhada de crowd surfing e o teatro mal ensaiado que envolve – imagine-se – o jogo do Solitário em pleno palco. Era a loucura. E a música nonstop, também ela regada em álcool, era a banda sonora perfeita para aquele filme de ficção científica. Na recolha ao backstage para trocarem de roupa, deixaram os fãs ao som de “San Francisco”, o seu tema mais popular que acabaria por ter ficado – de forma inteligente – de fora do alinhamento (a inocência da letra e da melodia poderia ser um contraste profundo com a aura pesada que se abatia sobre nós). Foi pela diferença que os Foxygen nos surpreenderam. E que grande surpresa.

Damien Rice © Hugo Lima

 

Uma das coisas incríveis no NOS Primavera Sound é a capacidade de num momento estarmos saltar feitos loucos ao som do rock’n’roll mais puro, para no momento seguinte nos deslumbrarmos com a simplicidade das músicas bonitinhas e calmas de alguém como Damien Rice. As baladas intimistas de Rice tocam nos corações mais duros e emocionam os mais apaixonados.  O cantor regressou em 2014 com o álbum “My Favourite Faded Fantasy”,  oito (!) anos depois do seu segundo álbum “9”. Era ele, a sua guitarra e pedais de efeitos. Eram declarações de amor, pedidos de desculpa, obsessões românticas, falhanços rotundos, mutações pessoais. A voz saia-lhe do coração e projetava-se sobre uma plateia com almas incendiadas (algo que, infelizmente não acontecera com Antony no dia anterior). “Foi lindo”, como dizia alguém ao nosso lado. E foi mesmo.

De corações partidos, lá fomos nós espreitar Death Cab for Cutie, que finalmente puderam dar um concerto no festival, depois de há três anos o seu espetáculo ter sido cancelado por questões técnicas relacionadas com a chuva intensa (algo que nos faz olhar para o céu naquele exato momento e agradecer a S. Pedro por não voltar a repetir a história). Não vimos tudo, até porque a hora do jantar aproximava-se e havia Ride à espera, logo de seguida. Os pioneiros do “shoegaze”, juntamente com os Slowdive e My Bloody Valentine, pisaram o Palco NOS, mas demoraram  conquistar a nossa atenção. Intensos jogos de luzes, um final psicadélico e estonteante e um “Vapour Trail” cantado em uníssono sobrepuseram-se às evidentes dificuldades de Mark Gardener e Andy Bell em colocarem a voz ao nível do som. É da idade.

Ride © Hugo Lima

 

O dia foi um autêntico melting pot musical e uma jornada de descobertas, como indie rock dos The New Pornographers (esperamos que Dan Deacon nos desculpe não termos comparecido no Palco Super Bock).

Lá demos uma última volta pelas colinas verdes, comemos um pastel de nata e prometemos voltar. Voltar para contrariar o ditado do “nunca voltes a um lugar onde já foste feliz.”

 

Fotos: © Hugo Lima

Daniel E.S.Rodrigues

Sonho como se estivesse num filme de Wes Anderson, mas na verdade vivo no universo neurótico de Woody Allen. Sou obcecado pela temporada de prémios, e gostaria de ter seguido a carreira de cartomante para poder acertar em todas as previsões dos Óscares, Globos de Ouro (da SIC), Razzies, Troféus TV7 Dias e Corpo do Ano Men's Health. Mas, nesse universo neurótico e imperfeito em que me insiro, acabei por me tornar engenheiro. Sigam-me no Instagram para mais bitaites sobre Cinema, Música, Fotografia e outras coisas desinteressantes.

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