LORDE @ NOS PRIMAVERA SOUND 2018 _ 7-9 Junho _ 1º dia _ © Hugo Lima | hugolima.com | fb.me/hugolimaphotography | instagram.com/hugolimaphoto

Praise the Lorde e Papa John Misty: o diário de uma noite de NOS Primavera Sound para recordar

O maior medo do primeiro dia de NOS Primavera Sound 2018 não se confirmou. A chuva deu tréguas e dois deuses desceram à terra: a jovem Lorde e Mr. Tillman. No final, ninguém os queria deixar regressar ao lugar cativo que já conquistaram no céu. 

Descrever o primeiro dia de NOS Primavera Sound 2018 sem começar pela epifania da deusa Lorde é quase sacrilégio. O dia já ia longo (Sr. Tillman já tinha dado a sua missa, momentos antes), e a chuva desta Primavera inversona dava tréguas. Sentia-se o palpitar dos corações daqueles que se juntavam perto do palco à espera da miúda de 21 anos que tinha estado pela última vez em Portugal em 2014, e que atuara antes de um monumental concerto dos Arcade Fire no Rock in Rio. Enquanto Lorde não arrancava a sua eficaz sessão de psicologia, a organização dava-nos música quase adivinhando o que aí viria: um espectáculo ao estilo da Kate Bush que tocava no background.

O arranque fez-se com “Sober“, mas a partir desse momento, a sobriedade nunca mais reinou. Equipada com bailarinos, luzes, projeções, um vestuário fancy e emoções à flor da pele, Lorde trouxe-nos um pop irrepreensível, alicerçado em sentimentos profundos, ali exteriorizados numa festa de danças frenéticas e vozes uníssonas. “Homemde Dynamite” e “Tennis Court” seguiram-se e já era perceptível que estávamos perante algo verdadeiramente memorável. Note-se que ainda nem a meio íamos de um set bem repartido entre canções “antigas” de Pure Heroine (2013) e dessa colectânea de alegrias colossais e espaços depressivos intitulado de Melodrama (2017).

LORDE @ NOS PRIMAVERA SOUND 2018 _ 7-9 Junho _ 1º dia
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Seja através do seu pop com veia eletrónica (“Green Light” e “Supercut” foram pontos altos), ou por via dos seus temas mais intimistas (“Liability“, sobre a solidão que já não sente), Lorde encontra sempre uma forma mística de celebrar o seu repertório com a massa de fãs efusivos que ali se concentravam em frente ao Palco NOS.  Não há dúvida: a miúda sabe o que faz. Fala com a audiência, emociona-se e emociona-a, sorri e fá-la sorrir, dança e contagia-a dançar também. Segredos para o sucesso? Poucos, muito poucos.

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Há, em última instância, um certo nível de empatia generalizada que pode funcionar como chave para desvendar esse segredo aparentemente oculto. Em Melodrama, Lorde escreve e canta sobre um emotivo processo de maturação de uma jovem com dores de crescimento, discorre sobre a solidão em festas com confettis, sobre sermos “demasiado” para alguém, amores e desamores, luxúria e desejo e sobre a busca por lugares perfeitos. A relação empática que Lorde estabelece com o seu público (que advém muito de um sentimento de “identificação” colossal com os temas das suas letras), estará na base de todas as memórias que iremos recordar desta primeira noite de NOS Primavera Sound. “Há muito que não tinha uma recepção assim”, disse ela. O público só poderá dizer o mesmo.

Rebobinemos então o filme deste primeiro dia de NOS Primavera Sound para a atrasada aparição de Father John Misty no Palco SEAT. Foram 17 minutos de agonia que quase nos levou cometer o pecado de trocar a missa do Papa Misty pelo R&B sedutor dos Rhye que se ouvia ao longe, muito longe (esta nova organização do recinto, com a introdução do Palco SEAT, obriga a um exercitar de pernas suplementar pelo pantanoso terreno do Parque da Cidade do Porto). Não pecámos e não nos arrependemos de não ter pecado.

FATHER JOHN MISTY @ NOS PRIMAVERA SOUND 2018 _ 7-9 Junho _ 1º dia
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Ao contrário do que fizera no memorável concerto no Coliseu dos Recreios no passado mês de novembro, Josh Tillman deixou praticamente de lado o seminal “Pure Comedy” (representado apenas pela faixa homónima e por “Total Entertainment Forever“), e fez uma viagem pela sua discografia, com óbvio destaque para o álbum recém editado “God’s Favourite Costumer”, que preencheu exatamente um terço da setlist (“Disappointing Diamonds Are the Rarest of Them All”, “Mr. Tillman”, “Hangout at the Gallows” e aquela que ainda agora, no momento da escrita deste artigo, nos faz estremecer o coração: “Please Don’t Die“).

A certa altura, esta entrada de Misty no NOS Primavera Sound soou a desconexo na forma como as canções encaixavam entre si, mas o elo de ligação estava sempre lá: a visão clínica e implacável que Josh Tillman tem de si mesmo e da sociedade que o rodeia. A profundidade do seu lirismo cínico e genial sente-se quando ele nos prega, com voz imaculada, sobre política, sexismo, religião, humanidade, existencialismo, amor. Mas o show do Sr. Tillman é muito mais que a sua voz: são os seus poemas, o seu humor, a teatralidade, as projeções, a emoção. Ao longo de 12 canções (onde se incluíram os êxitos “Holy Shit”, “I Love You, Honeybear” e “Nancy From Now On“), Father John Misty mostrou que a sua honestidade, paixão e réstia de esperança na espécie humana o tornam no “The Ideal Husband”. 

TYLER, THE CREATOR @ NOS PRIMAVERA SOUND 2018 _ 7-9 Junho _ 1º dia
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Antes dele, o pós-punk dos The Twilight Sad fazia o warm-up para a noite que aí vinha, acabando o vocalista James Graham a abandonar o Palco SEAT em lágrimas, visivelmente emocionado pela calorosa recepção das gentes do Porto. Depois de Misty e Lorde, foi o momento do rapper americano Tyler, the Creator, em estreia em Portugal, depois de ter cancelado o concerto no Super Bock Super Rock, no ano passado.

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A potência sonora desse novo palco do NOS Primavera Sound parece desenhada à medida de Tyler que, com roupa fluorescente e atitude irreverente e provocadora, movimenta a multidão a seu bel-prazer. A noite havia de encerrar com um Jamie xx em modo DJ, sem direito a grandes cheirinhos do projecto a solo. O coração estava tão cheio e já não cabiam muito mais emoções. Abandonamos o recinto, com promessas de regressar horas depois.

O NOS Primavera Sound continua hoje com A$ap Rocky,  Breeders, Unknown Mortal Orchestra, Thundercat, entre outros. 

Daniel E.S.Rodrigues

Sonho como se estivesse num filme de Wes Anderson, mas na verdade vivo no universo neurótico de Woody Allen. Sou obcecado pela temporada de prémios, e gostaria de ter seguido a carreira de cartomante para poder acertar em todas as previsões dos Óscares, Globos de Ouro (da SIC), Razzies, Troféus TV7 Dias e Corpo do Ano Men's Health. Mas, nesse universo neurótico e imperfeito em que me insiro, acabei por me tornar engenheiro. Sigam-me no Instagram para mais bitaites sobre Cinema, Música, Fotografia e outras coisas desinteressantes.

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