Nunca Estiveste Aqui, em análise

Desde “Temos de Falar Sobre Kevin”, Lynne Ramsay realizou apenas uma curta-metragem. O hiato de seis anos foi finalmente quebrado com “Nunca Estiveste Aqui”, aclamado na edição de 2017 de Cannes, onde ganhou o prémio de melhor argumento e Joaquin Phoenix o de melhor actor.

Há quem diga que é um osso duro de roer, mas talvez seja simplesmente um ser humano com princípios e objetivos muito bem definidos. Depois de “Temos de Falar sobre Kevin”, Lynne passou por uma altura complicada na carreira e vida pessoal. O casamento estava a colapsar, perdeu um filme para Peter Jackson e não apareceu no primeiro dia de filmagens de “As Armas de Jane – decisão que não tomou de animo leve mas que achou a mais sensata, uma vez que os produtores não tinham a mesma ideia para o filme e sentiu que a sua visão poderia ser comprometida.

Demorou um tempo a recuperar de todo o caos da altura, mas após uma longa pausa de descanso na Grécia escreveu o argumento de “Nunca Estiveste Aqui” (adaptado do romance homónimo de Jonathan Ames). Fechou os pormenores do filme enquanto estava no hospital, a dar à luz.

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O olhar de Ramsay é original e irreverente. Estabeleceu um requinte muito próprio através das suas curtas e longas-metragens, destacando-se por estar sempre envolvida ao máximo em todos os processos: escreve os guiões, faz a reperáge, o casting, escolhe o guarda-roupa. Tudo precisa de estar em harmonia e de fazer sentido nos seus mundos de ficção.

Nunca Estiveste Aqui é mais uma prova de todo o esforço, convicção e emoção que rege a arte de Lynne. Foi filmado em 29 dias, em Brooklyn, Nova Iorque, enquanto o script ia sendo reescrito com o protagonista Joaquin Phoenix. A realizadora e o seu actor principal apenas se conheceram no primeiro dia de filmagens com actores, mas a conexão foi instantânea. O espaço criativo era imenso e o improviso tomou conta de quase todas as cenas, de onde Lynn confessa que poderia tirar mais três filmes extra.

O filme segue Joe, um antigo agente do FBI que agora é recrutado para resgatar crianças traficadas. Assombrado por uma espécie de stress pós traumático relacionado à sua infância, Joe encontra-se numa encruzilhada no seu ultimo trabalho, viagem essa que acompanhamos durante os 90 minutos. E que intensos são.

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Pontuado por uma música de batidas pesadas, uma mistura de som quase ensurdecedora e uma montagem inesperada que nos revela a narrativa do presente intercalada com flashbacks (som e/ou imagem) de Joe, “Nunca Estiveste Aqui transpira uma vibe de “Drive – Risco Duplo” meets “Animais Noturnos”, mas estabelece-se num estilo de realização muito mais intenso e alucinante, onde a prestação de Phoenix enche o ecrã tanto como a sua fotografia. É uma homenagem à redenção e descobertas pessoais, às feridas que não querem cessar e à vida que acaba por valer a pena mesmo no cenário mais ríspido de todos.

“Nunca Estiveste Aqui não é o típico filme de perseguições empolgante e misterioso; o que partilha com o género é simplesmente parte da temática da narrativa. A nova longa-metragem de Lynn é, na verdade, um retrato de um homem que vive consumido pelo seu passado e a forma como lida – ou tenta lidar – com a sua chaga.

Nunca Estiveste Aqui, em análise
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Movie title: Nunca Estiveste Aqui

Date published: 2018-05-31

Director(s): Lynne Ramsay

Actor(s): Joaquin Phoenix, Judith Roberts, Ekaterina Samsonov

Genre: Drama, Mistério, Thriller

  • Catarina de Oliveira - 75
  • Maria João Bilro - 70
  • Cláudio Alves - 99
  • Daniel Rodrigues - 80
81

CONSLUSÃO

Nunca Estiveste Aqui é, principalmente, inesperado - de uma forma positiva. Apesar de sabermos que da mente de Lynne só poderia resultar uma peça do género, não deixa de nos surpreender a forma como expõe a narrativa e como cria juntamente com Phoenix uma personagem tão agressiva e sensível ao mesmo tempo. Tão complexa. E com tão poucas palavras. Queremos mais cinema assim.

O MELHOR: A personagem e representação de Joaquin Phoenix.

O PIOR: O desenho de som ligeiramente exagerado nalgumas cenas e transições.

MJB

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Maria João Bilro

Sou doida por cinema - tenho um grave problema em aceitar que a minha vida não é um indie, mas tento fechar os olhos a esse pormenor e continuo a usar óculos escuros à noite e a dançar músicas dos anos 60 de forma (muito) estranha no meio da rua. Licenciada em Ciências da Comunicação, com formação em Realização e Fotografia.

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