O Botão de Nácar, em análise

 

Com um magistral equilíbrio entre tranquilidade, apaixonada adoração, e trágica melancolia, Patricio Guzmán examina, em O Botão de Nácar, a relação do Chile para com a complexa história do seu passado enquanto nação, sociedade e cultura.

 

O Botão de Nácar Título Original: El botón de nácar
Realizador: Patricio Guzmán
Elenco: Patricio Guzmán, Raúl Zurita
Género: Documentário
Midas Filmes | 2015 | 82 min[starreviewmulti id=18 tpl=20 style=’oxygen_gif’ average_stars=’oxygen_gif’]

 

Depois de, em 2010, o cineasta septuagenário Patricio Guzmán ter alcançado o sucesso crítico e artístico com a exploração da conturbada história política do Chile observada através do prisma da astronomia em Nostalgia da Luz, este mestre do cinema documentário voltou a criar um impressionante retrato da complexa identidade cultural e histórica da sua nação, sendo que, em O Botão de Nácar, os astros celestiais são substituídos por algo mais elementar e estranhamento íntimo, a água. O resultado é familiar para quem conheça o trabalho prévio do realizador, até possivelmente repetitivo, mas não por isso menos revelador.

Nas mãos de Guzmán, a água torna-se em algo tão físico como filosófico e espiritual. Por exemplo, ao dedicar grande parte deste filme à documentação dos povos indígenas, os Yaghan, do arquipélago Tierra del Fuego, incluindo os últimos exemplos vivos desta cultura à beira do esquecimento, o autor demonstra de modo irrevogável como a identidade cultural de uma inteira população foi, em tempos, puramente definida pela sua relação com o mar. A própria linguagem, que depressa deixará de existir, e que era falada por estes povos antes da colonização espanhola, se torna num símbolo pulsante das raízes culturais da nação de Guzmán, por muito que essas raízes apenas se manifestem na contemporaneidade como memórias espectrais de existências contidas somente na efemeridade da memória de alguns anciãos.

O Botão de Nácar

A cultura destes povos pré-coloniais e sua relação com o mundo natural é posto em violento contraste com o domínio dos espanhóis, revelando uma fúria anticolonialista da parte do autor, que demonstra como o suposto processo de civilizar uma nação selvagem resultou num obsceno processo de carnificina histórica, cultural e humana. O sangue que mancha as águas chilenas nos primeiros momentos da colonização é como que a semente da qual a violenta História política do Chile germina. De repente, na própria examinação feita por O Botão de Nácar, a água passa de uma espécie de organismo espiritual em perfeita simbiose com a presença humana a um recipiente utilizado por um estado ditatorial para esconder e armazenar os cadáveres dos seus inimigos ideológicos. O mar passa de fonte de vida a um túmulo sangrento. Guzmán, no entanto, evita cair em simples reduções intelectuais e narrativas, não fosse o mar ao mesmo tempo uma fonte de subsistência dos povos nativos como também o veículo pelo qual os seus conquistadores chegaram, assim como uma constante fonte de beleza e ideias para o autor cuja voz domina o filme.

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Um magnífico exemplo da complexa teia de ideias construída por Guzmán a partir da história chilena é a dupla referência que dá ao filme o seu título. Por um lado, O Botão de Nácar refere-se à história de Jimmy Button, um Yaghan que foi levado a Inglaterra por exploradores e que, ao retornar à sua terra natal, encontrou-se como um homem perdido num limbo de indefinição cultural e sem identidade, não pertencendo nem aos Yaghan que o viram crescer ou aos ingleses que o “civilizaram”. Button terá cedido a esta viagem em troca de um mero botão de nácar, semelhante àquele que foi encontrado nos carris perdidos nas profundezas do mar, mais de um século depois. Esses carris eram atados aos corpos das vítimas do regime de Augusto Pinochet que encontraram no mar o seu final destino. Os corpos dissolveram-se nas águas, tornando-se unos com o grande organismo marítimo que contorna a costa do Chile, mas alguma da sua existência ficou gravada nos instrumentos do seu afundamento, nomeadamente o botão de nácar de uma peça de roupa que ficou incrustado no metal, uma última testemunha de alguns dos mais odiosos crimes contra a humanidade na História do país.

O Botão de Nácar

O filme não é apenas uma exposição e discussão dos seus temas, sendo que a meditação e serena reflexão, tanto do autor como da audiência são uma parte imprescindível da experiência total de O Botão de Nácar. O uso de repetidas imagens aquáticas como um leitmotiv imagético é de particular destaque, como que oferecendo momentos de paz que permitem à audiência uma assimilação das ideias expostas pelo filme, como que abrindo um ativo diálogo mental entre o próprio objeto cinematográfico e as perspetivas individuais de cada membro do público.

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A um nível puramente formalístico, é fascinante observar o modo como Patrício Guzmán e o seu diretor de fotografia, Katell Djian, adaptam a abordagem que utilizaram em Nostalgia da Luz e a aplicaram a ambientes gélidos e dominados pela primordial água em contraste com os ambientes desérticos e os céus estrelados do filme anterior. O resultado disto é um filme recheado de imagens de sublime serenidade e momentos focados no simples movimento da luz sobre a vítrea superfície de um corpo de água. Alguns dos instantes mais abstratos desta experimentação visual são das mais belas visões do recente cinema documental, sendo que o filme se inicia com a simples, mas sublime, imagem de uma gotícula ancestral preservada numa bolha de ar dentro de um quartzo. Uma imagem, quase incompreensível da primeira vez que a vemos, torna-se numa espécie de pedra roseta para o discurso de Guzmán no restante filme, um artefacto do passado em persistente e frágil e existência na atualidade.

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O Botão de Nácar

No final, ao retratar a relação dos chilenos com a água enquanto conceito, enquanto elemento natural, meio de subsistência e enquanto espiritualidade metafísica, Guzmán acabou por criar um formidável retrato da ligação de um povo com a sua herança cultural, do modo como a história pesa sobre a existência contemporânea mesmo quando é ignorada ou esquecida. O Botão de Nácar é assim uma longa meditação, quase poética, sobre o movimento imparável da História, admitindo o modo como essa incontornável força leva ao esquecimento e à destruição, ao mesmo tempo lamentando e advertindo para esse mesmo oblívio.

Na calma e melancolia vocal presente na narrativa do próprio Patricio Guzmán, esta contradição ideológica acaba por emergir com uma extraordinária delicadeza e surpreendente equilíbrio. Inadvertidamente, Guzmán não criou somente um retrato da sua nação, mas também uma examinação sobre si mesmo enquanto autor, enquanto uma voz no final da sua vida que observa o estado atual do mundo, assim como os crimes do passado, e tenta desesperadamente racionalizar a loucura da existência humana e sua capacidade para destruição, irredimível crueldade e trágico esquecimento.

CA

 

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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