O Cavaleiro das Trevas Renasce, em análise

Realizador: Christopher Nolan

Atores: Christian Bale, Tom Hardy, Anne Hathaway

CTW | 2012 | 164 min

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É difícil imaginar qual o verdadeiro objetivo de escrever uma crítica para um filme tão grande como O Cavaleiro das Trevas Renasce, de Christopher Nolan. Tais “monstros da bilheteira” são verdadeiramente à prova de críticas, e nenhuma, por mais negativa (ou positiva?) que seja, fará grande diferença no quadro final. Felizmente, a Magazine-HD é um ninho de cinéfilos apaixonados, e não poderíamos nunca deixar de partilhar convosco o(s) nosso(s) parecer(es).

Christopher Nolan revolucionou o género dos “filmes baseados em B.D.”, introduzindo narrativas que se preocupam com algo mais do que rebentar com cidades imaginárias e exibir truques ostentosos.

A luxuria e seriedade de Batman: O Início deu lugar ao caos prodigioso de O Cavaleiro das Trevas, e mesmo apenas com dois títulos, Nolan criou a saga mais apaixonada (e apaixonante) pelo cruzado das vestes negras e, aliás, do universo dos super-heróis.

Perante tal estabelecimento de background, pairava uma expectativa dúbia relativamente ao terceiro e último capítulo da saga: a perspetiva esperançosa de algo ainda maior e consequentemente “histórico” equilibrava-se na balança com uma espécie de premonição da impossibilidade de melhorar o antecessor que, ainda que ativamente recalcada, persistia na mente de todos.

De todo o modo, não havia muito que O Cavaleiro das Trevas Renasce pudesse fazer para não ser, de alguma forma, uma desilusão. Dar seguimento àquele que é considerado o melhor “filme de super-heróis” de sempre era não só dolorosamente difícil, como incrivelmente injusto.

Não vamos aqui discutir se é melhor, ou pior; é diferente, e nessa diferença é fantástico.

Muito à semelhança de Prometheus, que estreou entre nós em Junho passado, O Cavaleiro das Trevas Renasce debate-se com temas fortes, contemporâneos e fieis ao zeitgeist sociopolítico do séc. XXI. – a crise financeira de 2008, o Occupy Wall Street, os conflitos pós-11 de setembro, a guerra ao terror(ismo) – infusões estas que não deixam de ser raras mas incrivelmente bem vindas (e enquadradas) no género.

A ação propriamente dita é de uma intensidade e qualidade capazes de fazer os queixos roçar o chão, sendo o mais livres de CGI possível. Mas a outra boa notícia? Nolan continua a querer fazer do género algo mais do que um dispositivo para ganhar bons trocos.

Como esperado, Nolan infundiou O Cavaleiro das Trevas Renasce com um ambiente maior do que a vida, que é perpetuado pelos visuais impactantes de Wally Pfister e pela banda sonora pungente de Hans Zimmer. A atmosfera espetacular do título é contrabalançada com interlúdios dedicados a diferentes personagens, o que permite ao realizador aproveitar grande parte do elenco de luxo de que dispõe.

Dos membros antigos, e por razões de economia de espaço, vou apenas destacar dois: Christian Bale, que nos oferece a sua melhor performance na saga – física e emocionalmente e o incontornável Michael Caine, o maior valor emocional centrífugo do título.

Tom Hardy é um duplo injustiçado pelas comparações infundadas com o antecessor (Heath Ledger) e pela paupérrima mistura de som do título, que afeta especialmente a voz do vilão. Mas Bane, mais na senda de Ra’s Al Ghul do que propriamente Joker, é genuinamente assustador no seu poderio físico e mental, e a dedicação demente de Hardy ao papel é bem palpável em cada cena que protagoniza.

Uma das mais surpreendentes adições à saga é a de Anne Hathaway como Selina Kyle que, astuciosamente, nunca é referida como Catwoman. A grande motivação é a sobrevivência, e apesar de uma abordagem quase radicalmente diferente de Michelle Pfeiffer em Batman (1989), Hathaway traz uma graça e distinção ao papel que complementa na perfeição as forças brutas de Batman e Bane. Como habilmente já me descreveram, Kyle é para Batman o correspondente de Han Solo para Luke Skywalker. Ainda do lado das meninas, Marion Cotillard é, talvez, o talento menos aproveitado. A sua relação com Bruce Wayne parece apressada e fria, e fica o desejo de que as mulheres tivessem tido melhores oportunidades no universo do Cavaleiro Negro.

Por fim, Joseph Gordon-Levitt surge como o aliado que Batman precisava para se reerguer – mais alguém disposto a pôr as mãos na massa para salvar aquilo em que acredita. E como já não é surpresa nenhuma, o ator fá-lo de forma magnética.

A estrutura da mitologia de Batman é extremamente complexa de sua moralidade difusa – estamos perante um herói emocional e psicologicamente mais afetado que muitos dos vilões; vilões estes que em muitos momentos carregam motivos mais nobres do que os do herói. Este simbiose de conceitos entre o bem e o mal é um elemento vital na tradição de Batman, e é algo que Christopher Nolan conhece exemplarmente bem. Pelo menos até certo momento, existe algum sentido de justiça e equidade no plano de Bane que o torna um arqui-inimigo intrigante: aquele pelo qual quase ousamos torcer.

Apesar das abundantes qualidades, O Cavaleiro das Trevas Renasce é um título imperfeito. Uma das suas maiores faltas está relacionada com um caso bastante extenso de “excesso de exposição”, onde diálogos longos e imoderadamente explicativos podem significar um desfasamento desnecessário entre o enredo e o espectador.

A outra questão prende-se com os motivos contraditórios de muitos personagens, mas essencialmente, dos vilões. Enquanto é sobejamente inovador colocar nos vilões um justificativo de ação dúbio – que pode significar até por vezes que estes têm os motivos mais nobres – Nolan parece tê-lo feito com mais acerto em Batman: O Início do que neste último capítulo.

Tipicamente, é difícil encontrar um “terceiro fascículo” que não se sinta pouco inspirado ou cansado pela árdua tarefa de unir as pontas soltas deixadas pelos antecessores. O Cavaleiro das Trevas Renasce será relembrado por ser um dos mais valiosos elementos desta categoria, enquanto o realizador Christopher Nolan ainda tem tanto a dizer sobre as personagens que a longo de sete anos tem vindo a construir, e sobre a sociedade em geral.

Christopher Nolan trouxe ao franchise, e à própria persona de Batman, a solenidade e um sentido de real muito capaz de coexistir no universo fantasioso, o portento, o sentido de contemporaneidade, mas sobretudo, a crença. Porque Batman não precisou de ser picado por uma aranha, ou afetado por radioatividade, ou vir de outro planeta para fazer a diferença. Batman só precisou que Bruce Wayne quisesse uma cidade justa para os seus habitantes, uma cidade alicerçada no Bem, que às vezes é tão capaz de ser ambíguo. O resultado foi um salvador atormentado, disposto a dar-nos tudo, mas sobretudo, um salvador que poderia ser qualquer um de nós.

E é isto que a audiência deseja tão ardentemente num mundo cada vez mais despido de fé na calma depois da tempestade. É também talvez por isto que a trilogia de Nolan se tornou no fenómeno que hoje é; porque fica a certeza de que não nos trouxeram apenas a lenda que necessitávamos, mas também aquela que merecíamos.

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