O Fantástico Homem Aranha, em análise

 

Título Original: The Amazing Spider ManRealizador: Marc Webb

Elenco: Andrew Garfield, Emma Stone, Rhys Ifans

Género: Aventura, Ação

CTW | 2012 | 136 min

Classificação:

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É oficial: a moda pegou. Remke, reboot, sequela, prequela, saga e trilogia são termos cada vez mais em voga no dicionário cinéfilo. Desta vez, e porque remake está demasiado gasto, Hollywood decidiu inovar criando um reboot de uma saga que terminou há apenas 5 anos.Se não estão familiarizados com estas terminologias, um reboot consiste em reinventar um filme que outrora existiu, conferindo-lhe características diferentes como novas personagens, novas motivações e uma forma distinta de contar a referida história. Resumindo: fabricar mas dólares.
Contudo, é justo afirmar que “O Fantástico Homem-Aranha” é um dos raros casos onde a tentativa de cópia sai a ganhar. As personagens têm uma dimensão dramática mais profunda e envolvente, os efeitos especiais estão mais maduros e eficazes, a banda sonora de James Horner encaixa-se na narrativa de uma forma muito natural, acompanhando muito bem o ritmo da ação, e o argumento é francamente mais rico e inteligente.

A sólida realização de Marc Webb (“(500) Days of Summer”) nunca se perde em demasiados clichés subjacentes à criação da raiz de um super-herói e sabe sempre que caminho segue, nunca arruinando o argumento, nunca abusando do heroísmo e construindo um blockbuster com coração, onde as conexões emocionais e as motivações dos personagens ganham uma dimensão superlativa.

Se havia dúvidas sobre a real importância deste filme, essas dúvidas saem completamente dissipadas. É possível afirmar que esta reinvenção do aracnídeo mais famoso de sempre está o nível (e por vezes é superior) da trilogia criada por Sam Raimi e iniciada há dez anos atrás.

Os estonteantes efeitos visuais são indubitavelmente seu ponto mais forte. O 3D é, na maioria das vezes, desnecessário, mas nos planos de voo são algo deveras empolgante. E tudo está milimetricamente conseguido num trabalho que roça a perfeição. Sente-se, por outro lado, que o design do vilão (The Lizard) não se coaduna com o restante filme. O resultado final é algo muito simplista, e parece que The Lizard não encaixa nas cenas em que é solicitado. Mas é verdadeiramente impressionante o apoio que o CGI confere ao argumento. Argumento esse que explora as origens de Peter Parker, preocupando-se muito mais em investigar o homem que vive por detrás da máscara. E esse homem é um ser revoltado, que é consumido pelos mistérios do seu pai e abalado pela morte do tio Ben.

As comparações com a trilogia original de Sam Raimi são inevitáveis. O que se torna um pouco inadequado dado que “O Fantástico Homem-Aranha” é um excelente exercício que é independente de qualquer outro filme. Mas se tivermos de estabelecer qualquer tipo de confrontação, ela passaria pelos personagens e, instintivamente, pelos atores que as compõem.

Andrew Garfield é um Peter Parker mais sentimental do que Tobey Maguire. A sua notável interpretação é completamente dissemelhante daquela que Tobey assumiu. Depois de ser injustamente esquecido pelo seu papel em “A Rede Social” e quase ter passado ao lado de toda a gente o seu magnífico trabalho em “Never Let Me Go”, Andrew Garfield lança-se a um filme comercial de uma forma absolutamente imaculada. Os seus gestos geek, as suas expressões faciais que combinam o melodrama com bravura e o tom de voz suave e contido tornam a sua reprodução do Homem-Aranha numa das mais fantásticas interpretações de um super-herói que alguma vez pudemos ver.

Mas se Andrew Garfield ganha a Tobey Maguire, o mesmo se pode dizer de Emma Stone. Gwen Stacy é uma personagem bastante mais forte do que Mary Jane. E Kirsten Dunst fica a perder para uma atriz que cada vez mais se vem a impor em Hollywood (“Easy A”, “ As Serviçais”, “Crazy Stupid Love”). Uma Gwen que é um amparo perfeito para um inseguro Peter Paker, algo que é evidenciado pela química perfeita entre Emma e Andrew. Uma personagem inteligente, segura, cómica, adorável e que nunca se limita a ser a donzela em apuros gritando continuamente “Peter! Vem salvar-me!”.

O restante elenco está também num bom plano destacando-se Rhys Ifans como vilão The Lizard, que não faz de todo esquecer Willem Dafoe como Green Goblin. É talvez o ponto mais fraco deste filme, o vilão. Não tanto a interpretação de Rhys Ifans (que é muito boa), mas o facto de o vilão não ser tão temível como queríamos.

É certo que estamos perante alguns momentos de puro déjà-vu, mas “O Fantástico Homem Aranha” é, mesmo assim, um filme que pensa e age de forma diferente da trilogia de Sam Raimi. Um resultado muito mais do que satisfatório que abre uma trilogia com potencial  comercial e ‘crítico’ bastante assinalável.