"O Farol" | © LEFFEST

LEFFEST ’19 | O Farol, em análise

Robert Pattinson e Willem Dafoe perdem o juízo em “O Farol”. O filme de Robert Eggers marcou o encerramento do Lisbon & Sintra Film Festival, pondo fim às festividades com um conto que cheira a dejetos e sabe a vomitado, que molha como a chuva mais gélida e envigora como o cocktail de profiláticos mais potentes do mercado.

Há séculos, há milénios, que a Humanidade conta e reconta as mesmas histórias. Vira o disco e toca o mesmo, uma e outra vez, até à eternidade. Cosmeticamente, o conto vai-se transformando. Adapta-se como um animal que quer sobreviver num mundo que o quer morto. Assim evoluiu o conto, mas o seu âmago mantém-se uma constante, uma certeza cósmica num universo de ciclos e transformações invariáveis. Quando os antigos gregos contaram esta história, falaram de Prometeus e sua folia, do roubo do fogo divino e seu castigo, sua perpétua agonia. Estamos no século XXI e o nosso poeta é Robert Eggers e o nosso Prometeus é Robert Pattinson a masturbar-se num barracão sujo.

Como o título indica, “O Farol” passa-se num farol. Esse falo de tijolo e cal branca que todas as noites ejacula um feixe luminoso contra a penumbra do céu, esse é o lar dos nossos fatídicos heróis. Eles são Ephraim Winslow e Thomas Wake, ou serão Tommy e Tom. Como o gémeo deformado de “Persona”, este é um miasma de identidade deturpada para o qual a nomenclatura tradicional vai deixando de fazer sentido. Eles são um homem novo e um homem velho. O jovem é taciturno e inexperiente, seu apreço ao manual de conduta marca-o como um novato neste mundo em que o idoso é veterano.  Os dois estão sozinhos num rochedo no meio do oceano.

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Ao início a fricção de personalidades é agreste, mas não sugere algo fora dos parâmetros de normalidade. O velho é autoritário e tirânico, tão recheado de gases como de regras arbitrárias e ditados de marinheiro. Ele bebe todo o dia e quando vai para cama é uma metralhadora flatulenta. Ele é irritante e testa a paciência do miúdo que só quer fazer o seu trabalho, passar umas semanas infernais no farol e depois receber o ordenado. Ele quer dinheiro e quer fugir de crimes passados, de identidades passadas, de desejos inglórios que já derramaram sangue e querem derramar mais. Ele quer um companheiro de quarto com menos gases.

O tempo passa e a rotina é constante e o trabalho aborrece. O tédio é a flor de onde vem o fruto da loucura e, qual Jack Torrance dos mares oitocentistas, estes homens aborrecidos estão condenados ao fado da loucura. A frustração é uma mera faísca solta, mas é uma noite de bebedeira que realmente acende o pavio desta bomba ominosa. Quando o barco para os levar a terra não vem, o desespero domina o rochedo e coroa-se rei destes porcos famintos e excitados, cheios de sede e de esperma, cheios de diarreia escura e vómito malcheiroso. Do quotidiano repetitivo passamos para uma abstração cronológica. Mesmo antes de alguém esmurrar o relógio, já o espectador perdeu noção do que é o passado e o presente, o futuro e o pesadelo sem tempo.

A insanidade usurpa o desespero e sobe assim ao trono do rochedo, seus súbditos cada vez mais intoxicados pelo licor improvisado e o néctar do Diabo que é a fome e a vontade de viver. Ou será de morrer? Isso é indiferente, é como os nomes trocados e as histórias que saem da boca de um e depois saem da de outro sem rima e sem razão. Uma sereia canta a sua sedução em fantasias e cadáveres vêm à costa. Será isto a tempestade ou o álcool? Será a vingança de uma gaivota ou os esquemas de Neptuno? Também é indiferente. Deus não quer saber e talvez este seja o seu castigo. A punição é a indiferença que deixa o caos infetar a realidade como um cancro a metastizar-se à velocidade com que um relâmpago rasga o céu.

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Mas também há a possibilidade de o miúdo ser a Humanidade e o velho seu Deus castigador. Não se trata da indiferença da aranha de Bergman, mas a raiva vingadora do Velho Testamento. Prometeus e Zeus, filho e pai, submisso e dominador. Tudo são faces da mesma moeda e ela é como uma pintura cubista onde a dimensionalidade não tem fim, onde as leis do espaço não existem e os limites são uma mentira mal contada. “O Farol” é sobre tudo e é sobre nada. Como a história que é contada ao longo dos milénios, sua especificidade vai-se mutando e a narrativa esvazia-se. O buraco negro, o vácuo de significado, é também ele uma ilusão. No vazio, tudo pode existir.

“O Farol” é sobre a luta eterna por poder. É sobre homens estúpidos a deixarem-se levar pelos epítetos de testosterona enquanto vivem num falo gigante. É sobre a modernidade que mata o tradicional e sobre o filho que canibaliza o pai no caminho para o futuro. É sobre um purgatório materializado na terra e sobre o pecador que tenta chegar ao céu pela via da força e acaba condenado ao inferno. É “Persona” e é “À Espera de Godot” com mais humor fecal e os sons de um vento que ressoa como os gritos de uma leviatã do tamanho do mundo. Tanto lirismo para descrever uma obra que tanto pode ser lido como um poema ou como o mais franco dos filmes de terror. É tudo e é nada. “O Farol” é o que tu quiseres e está pronto a satisfazer e repelir, qualquer que seja o caminho que escolheste neste labirinto da interpretação fílmica.

Para a conclusão, mais vale jogar os floreados borda-fora do mesmo modo que Pattinson atira as fezes de Dafoe para o fundo do mar. Não obstante a sua louca multiplicidade de significado, este é um conto simples e primordial, filmado em cristalino preto-e-branco e num formato que remonta ao cinema sonoro mais arcaico da História da sétima arte. Robert Eggers invocou a linguagem do filme antigo e aplicou-lhe o maximalismo de grotesco que é agora permissível, mesmo quando o orçamento é grande o suficiente para construir cenários monumentais e contratar estrelas para fornicar com sereias em frente à câmara. Os atores são tão exímios e tão ousados como o homem que os dirige.

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Dafoe é uma caricatura do marujo tornado num arquétipo de paternalismo descontrolado. Ele é imponente na mesma medida que Pattinson é pequeno e ridículo, treme como um verme convulsivo. Eles ancoram o exercício de horror psicológico e dão-lhe forma, dão-lhe peso e o filme retribui o presente com dois papéis sem igual. A grandiosidade deste trambolho de riscos é garantida, mas a perfeição é menos certa. Há passos em falso e momentos em que o equilibrista tropeça no seu passeio pela corda bamba. No final, contudo, ficamos com o peito insuflado de admiração e queremos bater palmas. Este circo de loucura homoerótica e imunda pode saber a urina coalhada, mas embebeda o espectador e leva ao êxtase daquele modo que só o puro cinema consegue.

O Farol, em análise
O Farol

Movie title: The Lighthouse

Date published: 2019-11-25

Director(s): Robert Eggers

Actor(s): Robert Pattinson, Willem Dafoe

Genre: Drama, Fantasia, Terror, 2019, 109 min

  • Cláudio Alves - 90
  • Daniel Rodrigues - 83
  • Maggie Silva - 90
  • Virgílio Jesus - 80
86

CONCLUSÃO:

Uma gaivota destroçada, um peido malcheiroso, um golpe de doidice destilada, uma sessão de masturbação interrompida e o purgatório no meio do mar. Assim é “O Farol”. É maravilhoso.

O MELHOR: O modo como os atores mergulham de cabeça neste poço de insanidade.

O PIOR: O gesto repetido que quebra o ritmo do final. Há uma machadada a mais.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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