"Graças a Deus" | © LEFFEST

LEFFEST ’19 | Graças a Deus, em análise

Depois de ser premiado na Berlinale, o novo filme de François Ozon, “Graças a Deus”, chega a Portugal com antestreia no Lisbon & Sintra Film Festival.

Nos últimos anos, os escândalos de abusos sexuais e pedofilia na igreja católica têm dado azo a grande cinema. Já tivemos documentários provocadores, dramas abstratos da América Latina e até uma vitória da Academia de Hollywood. Em 2016, “O Caso Spotlight” conquistou o Óscar para Melhor Filme, abordando a questão pela via do jornalismo de investigação e focando-se somente no caso de Boston. Este ano, o cineasta francês François Ozon decidiu olhar para a pedofilia na igreja francesa e, pelo caminho, trocou os seus habituais excessos estilísticos por uma contenção formal formidável e um apropriado sentimento de respeitosa solenidade.

Não que o filme seja exangue ou desprovido de emoções em brasa. Ozon tem vindo a fazer carreira com sedutores puzzles de psicoses sexuais e melodramas desconstruídos. Tal experiência tê-lo-á preparado para extrair arrebatamentos sentimentais até do mais sério dos temas. Mesmo assim, conhecendo o historial do cineasta, era difícil prever o tipo de docudrama magistral que ele havia de formular aqui. O filme começou até por ser um documentário, mas, quando Ozon conduzia as entrevistas de investigação, decidiu dramatizar os relatos. O resultado merece aplausos.

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Ao invés de se focar em forças jornalísticas, como “O Caso Spotlight”, ou nos clérigos criminosos, como “O Clube” de Pablo Larraín, este “Graças a Deus” de Ozon é um retrato coletivo de sobreviventes traumatizados. As vítimas são postas no centro do engenho textual e é através de uma estrutura tripartida que Ozon engenha o filme. Primeiro, temos Alexandre Guérin, o homem cujas perguntas complicadas desencadeiam uma avalanche de polémica a cair sobre a instituição católica. Não que este homem se veja a si mesmo como um inimigo do Vaticano. Muito pelo contrário, não obstante o que sofreu na meninice, Alexandre é um homem devoto e pio.

Aliás, é na igreja que ele vai primeiro procurar respostas às suas perguntas e conclusões para a sua complicada história pessoal. As primeiras cenas deste épico do trauma e da dor retratam essa mesma busca, mostrando-nos como Alexandre recorre a terapeutas da igreja e segue os seus conselhos para ultrapassar aquilo que lhe pesa na alma. O problema vem quando as palavras meigas da igreja se revelam ocas e até venenosas. O perdão da vítima para com o agressor é priorizado e Alexandre observa, atónito e chocado, como lhe é pedido que aceite as desculpas do padre que o abusou e siga em frente. O padre, pelo seu lado, não sofre uma única consequência e até continua a trabalhar com crianças.

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A história de Alexandre é a história de um crente a confrontar a monstruosidade da igreja pela qual ele orienta a sua vida espiritual. Em contraste, a história de François Debord é o conto de um homem que corta relações com a igreja e faz do seu trauma nascer a militância. Ele organiza os sobreviventes dos abusos e faz-se guerreiro contra o encobrimento sistemático dos padres e seus superiores. Quando “Graças a Deus” coloca François no centro da narrativa, o filme como que se transfigura. De um drama espiritual onde a dúvida tudo domina, passamos a algo mais próximo de um lacerante objeto de ativismo cinematográfico com ares de Robin Campillo.

Ozon bem sabe que a chave para o triunfo deste tipo de filme é o equilíbrio entre forma e texto informativo, entre o horror expositivo da história e a capacidade do elenco para modular o material. Por isso mesmo, algumas cenas são como que entregues de bandeja aos atores e o realizador subsume o estilo e concentra os seus esforços em capturar as dinâmicas espaciais e pessoais de salas cheias de gente a discutir. Como é evidente, há primor e há mérito em tal contenção estilística e em nada isso indica uma displicência formal. Basta vermos como Ozon filma o seu terceiro protagonista para entender quanto a sua inventividade estética não foi erroneamente sufocada pelo peso das suas nobres intenções. Aí, as composições ganham nova complexidade, capturando mais atentamente o corpo e o movimento de um indivíduo cujo corpo ainda treme com as reverberações de dores antigas.

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Alexandre e François foram irreparavelmente marcados pelo trauma de infância, mas Emmanuel Thomasin foi completamente destroçado. Quando era menino, ele já era frágil e predisposto a ter violentos ataques epiléticos. O padre que também abusou os dois homens usou essa mesma fragilidade para melhor manipular o menino doente, isolando-o e até lhe deixando marcas que viriam a desenvolver-se em graves disfunções físicas e sexuais. A dúvida, a raiva e o desespero. Estas são três faces distintas, mas não incompatíveis, do trauma e Ozon deixa que os seus protagonistas as personifiquem e compliquem. Há permutações feias nos comportamentos destes homens, por muito que a sua psique fraturada seja fruto da obra de outrem.

O realizador jamais vira as costas a essas facetas mais abrasivas da proposta narrativa e usa um vasto elenco secundário para refletir a interioridade dos seus heróis e a desafiar também. “Graças a Deus”, apesar da sua duração e ambição, não é a obra de um artista arrogante o suficiente para se supor na autoridade de dar resposta às questões que o trauma e sua sistemática ignorância levantam. Ozon observa e deixa-nos observar, dramatiza e ilumina, mas não pinta sensacionalismos sobre a crua realidade. No fim, pode não parecer um filme de François Ozon, mas é uma obra de dolorosa majestade e complexidade. Este pode ser um filme atípico do realizador, mas torna-se instantaneamente numa das mais essenciais joias da sua filmografia.

Graças a Deus, em análise
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Movie title: Grâce à Dieu

Date published: 2019-11-25

Director(s): François Ozon

Actor(s): Melvil Poupaud, Denis Ménochet, Swann Arlaud, Éric Caravaca, François Marthouret, Bernard Verley, Josiane Balasko, Martine Erhel, Hélène Vincent, François Chattot, Frédéric Pierrot, Aurélia Petit, Julie Declos, Jeanne Rosa, Amélie Daure

Genre: Crime , Drama, 2019, 137 min

  • Cláudio Alves - 85
  • José Vieira Mendes - 70
78

CONCLUSÃO:

“Graças a Deus” dói e galvaniza. Este drama sobre os abusos sexuais na igreja católica é o tipo de filme que todos deviam ver, mas o tipo de filme que não recomendamos a ninguém que não se queira perder em espirais de angústia e raiva impotente.

O MELHOR: O trabalho de todo o elenco.

O PIOR:
A segunda secção deste drama tripartido é vagamente traída pela inexperiência de Ozon com este tipo de estudo de personagem coletiva. É fácil imaginar outros realizadores a filmarem o mesmo material com mais segurança e capacidade inovadora.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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