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‘O Meu Tio Frank’, em análise

Alan Ball, o aclamado criador, realizador e argumentista de ‘Beleza Americana’ e de ‘Sete Palmos de Terra’, regressou com o filme ‘O Meu Tio Frank’, um divertido, mas ao mesmo tempo contundente drama familiar, sobre a tolerância e a aceitação dos outros como eles são. Para ver na Amazon Prime Video.

‘O Meu Tio Frank’, escrito e realizado por Alan Ball, pode ser acusado de tornar-se um filme um tanto ‘redondinho’, passivo e até ligeiro, sobre um tema forte, que ainda hoje mexe com as nossas sociedades: ‘sair do armário’ e os traumas em torno da homossexualidade. Porém pela sua simplicidade é um filme necessário e que demonstra novamente a sensibilidade, sentido de humor e talento do criador de obras-primas, como o ‘oscarizado’ Beleza Americana (1999), realizado por Sam Mendes ou a fabulosa Sete Palmos de Terra (2001-2005), para tratar determinados assuntos sem mácula e desta vez sem o seu habitual cinismo.

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A propósito recordo, que foi através da HBO e de Sete Palmos de Terra’, que como espectadores mudámos a nossa forma de olhar as séries de televisão. Colocando-as a partir daí, ao nível de uma obra cinematográfica. Não foi a única, mas esta foi sem dúvida, um série de televisão marcante, pela sua inteligente abordagem, de como a sociedade dos nossos dias, lida com os rituais existentes à volta da morte, através de uma família de Los Angeles, aparentemente normal, cujo negócio é uma agência funerária que funciona em casa. 

O Meu tio Frank
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Com este seu novo filme de Alan Ball, regressa ao universo das famílias — e também da morte e da vida e das suas disfuncionalidades — aparentemente normais, para contar uma história, situada em 1973,  sobre Frank Bledsoe (Paul Bettany), o tio de Beth (Sophia Lillis), que ela uma jovem adolescente da Carolina do Sul — onde toda a família vive —, tanto admira; e com quem tem uma extraordinária conversa premonitória, antes da sua ida para faculdade, em Nova Iorque. Aliás onde o seu tio vive — no bairro de Greenwich — e onde se tornou entretanto um carismático professor universitário de literatura.

O Meu Tio Frank
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Inesperadamente os dois, tio e sobrinha, acompanhados por Walid (Peter Macdissi), seu amante secreto, são obrigados a regressar às origens para o funeral do patriarca da família, um homem imperativo e intolerante segundo os padrões da época. Para completar a ligação entre realidade e a ficção, Walid, o personagem que completa o trio principal, é interpretado por Peter Macdissi, o compnaheiro na vida real do realizador. Ele interpreta um engenheiro aeronáutico, imigrante da Arábia Saudita, que também não assume a sua homossexualidade para seus parentes, aliás num país onde é reprimida com a pena de morte.

O Meu Tio Frank
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Frank, interpretado por um maravilhoso Paul Bettany (Vingadores: Guerra do Infinito) é uma personagem calorosa, mas atormentada que arrasta consigo um drama da sua adolescência: uma relação homossexual, com um jovem amante, descoberta pelo pai, que nunca aceitou a situação, mesmo passados bastantes anos. Alan Ball constrói um conjunto de personagens apesar de tudo luminosas, mas que se percebe de imediato que pertencem seu mundo dramático: estranhos, cheios de contradições, reais e bastante convincentes. O choque de culturas — entre o interior dos EUA e o alternativo Greenwich de Nova Iorque — é outra das chaves deste filme — e do cinema — de Alan Ball, que com ‘O Meu Tio Frank’, realiza agora um clássico road movie, ágil,  despretensioso, sempre apontando para questões fundamentais, como a identidade e a liberdade individual,  numa história que tem muito de pessoal.

O Meu Tio Frank, em análise
O Meu Tio Frank

Movie title: My Uncle Frank

Movie description: Alan Ball, o criador de 'Sete Palmos de Terra' deixa seu lado cínico de lado no novo filme 'O Meu Tio Frank, na Amazon Prime Video, uma história de traumas em torno da homossexualidade e da tolerância.

Date published: 16 de February de 2021

Director(s): Alan Ball

Actor(s): Paul Bettany, Sophia Lillis, Peter Macdissi

Genre: Drama, Comédia, 2020, 95 min

  • José Vieira Mendes - 75
75

CONCLUSÃO:

Para moldar esta história que tem muito de pessoal, segundo o próprio Alan Ball, ele em ‘O Meu Tio Frank’, usa o clássico género road trip, uma evolução da eterna odisseia homérica do protagonista (Paul Bettany) à qual dá um novo toque familiar. Neste caso, a viagem de retorno do heroi(s) é dupla: o conto iniciático de Beth (Sophia Lillis), a jovem narradora, é ao mesmo tempo o regresso às origens do seu admirado tio, com um passado alcoólico, para vencer e enfrentar os traumas do passado — que envolveu um suicídio — e de nunca ter revelado à família a sua homossexualidade. 

O MELHOR: As interpretações do três actores, sobretudo o lado cómico e descomprometido que Peter Macdissi, introduz no drama

O PIOR: O filme pode ser acusado de ser ‘redonhinho’ e demasiado ligeiro em relação ao tratamento do tema. Mas desta vez pelo menos é tratado sem o cinismo habitual do realizador.

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José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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