O Panorama – Entrevista a Catarina Alves Costa

O Panorama – 8ª Mostra do Documentário Português regressa este ano com uma homenagem à realizadora Catarina Alves Costa, uma das mais importantes figuras do documentário português, destacando-se uma secção dedicada a alguns filmes etnográficos alemães sobre Portugal.

Esta mostra anual dedicada ao cinema documental exibirá no Cinema São Jorge e Cinemateca Portuguesa, 62 filmes ao longo de sete dias, muitos deles curtas-metragens, realizados por portugueses ou feitos em Portugal, naquela que pretende ser a mais significativa mostra do género no nosso país.

Senhora Aparecida, filme realizado por Catarina Alves Costa há 20 anos (1994), irá merecer honras de abertura da mostra dia 9 de maio, às 21h, no Cinema S. Jorge.

Programa completo disponível em www.panorama.org.pt/2014

 

 

 

ENTREVISTA A CATARINA ALVES COSTA

Por TOMÁS COLLARES PEREIRA 

Nascida no Porto, rumou a Lisboa para estudar Antropologia. Sempre teve o bichinho do cinema, provavelmente influenciada por um avô cinéfilo e cineclubista. Juntou as duas paixões na disciplina de Antropologia Visual, na qual se doutorou e que leciona na Universidade Nova. É a realizadora em destaque na edição de 2014 do Panorama.

 

Como surgiu o convite para ser a figura central do Panorama?

Surgiu há alguns meses, sondaram-me se estaria interessada em fazer uma retrospetiva. Foi uma surpresa, sobretudo porque não tem havido retrospetivas de realizadores da minha geração, nas edi- ções anteriores.

 

A sua filmografia vai ser apresentada sob o título O despontar de uma geração. Em que sentido é que se pode falar numa geração de documentaristas em Portugal?

Mais do que um movimento propriamente dito, houve um conjunto de pessoas que começaram a fazer documentários no princípio dos anos 90, numa altura em que não havia apoios ou sequer uma cultura do documentário em Portugal. Eram encontros informais de amigos que se juntavam para discutir questões à volta do documentário e desses encontros acabou por nascer a Apordoc [Associação pelo Documentário]. Nessa época não havia uma escola de cinema observacional, apenas alguns casos esporádicos de realizadores que tinham trabalhado mais nesta área.

 

Foi em Inglaterra que conseguiu fazer o casamento entre a Antropologia e o Cinema. Como apareceu essa oportunidade?

Tinha o curso e um passado cinéfilo, mas nunca juntei as duas coisas. Aliás, tinha também trabalhado como atriz antes de tirar o curso. Quando o acabei, não fazia ideia do que era a antropologia visual, que não existia cá. Consegui uma bolsa das Belas-Artes da Gulbenkian que me permitiu candidatar-me ao Granada Centre for Visual Anthropology, uma instituição de referência que nasceu quando a Granada sentiu necessidade de ter documentários realizados por pessoas do terreno. Participar nes- ta escola foi uma sorte porque juntava dois universos que eu já tinha dentro de mim. Mais ainda porque era um curso muito pequeno, com poucas pessoas e muito baseado na ideia do exercício, do encontro, do seminário.

 

No estudo de campo em antropologia, em que se procura uma certa proximidade, a câmara não pode ser um ele- mento intrusivo, não cria um distanciamento?

É sempre um elemento intrusivo no sentido em que vai recriar situações: as pessoas vão atuar de acordo com o que elas imaginam que eu quero ver, embora dependa bastante das situações que estamos a filmar. Por outro lado, ela também permite situações de desaba- fo. Tem essa dupla função: por um lado liberta e catalisa situações, por outro contém. Até porque a câmara tem um enquadramento que limita a realidade. Nunca diria que os meus filmes são a realidade empírica, são sempre uma construção subjetiva e autoral. Acredito que só é possível usar a imagem, mesmo em antropologia e em documentário, tendo sempre um ponto de vista, que é particular, subjetivo e que é o nosso.

 

Num mundo em crescente globalização, acha que há alguma urgência de registo de vivências e tradições?
Eu não acredito numa antropologia de urgência, de resgate de tradições. Talvez seja mais útil imaginar que, como tudo está sempre a mudar, tudo volta sempre a lugares antigos. Durante muitos anos os antropólogos visuais tinham essa ideia do registo: do arquivo e de preser- var situações. Depois compreenderam que isso era uma coisa estéril. O registo nunca me atraiu muito.

Atrai-me muito mais a ideia de construção, de fabricação do real. Diria mesmo uma manipula- ção que é usada para che- gar a um lugar real, que não é necessariamente o que lá está, mas o do meu encontro com aquilo. Para mim, todos os filmes são o resultado de um encontro. 

 

Alguma da sua filmografia está muito ligada a espaços e arquitetura. Tem alguma predileção especial por esse tema?

Há o tema da arquitetura, como por exemplo no filme O Arquiteto e a Cidade Velha, que talvez tenha a ver com as ligações da minha família à essa disciplina. Mas mesmo esse filme não é sobre arquitetura mas antes sobre um encontro – ou mesmo um desencontro – entre uma equipa de arquitetos e uma população. Já quanto aos espaços, considero que o cinema é sempre uma construção, uma manipulação do espa- ço. Creio que o espetador sente um filme consoante apreende um determinado espaço. Por exemplo no Nacional 206 estamos sempre dentro de uma fábrica têxtil. No Swagatam estamos num bairro autocontido, uma espécie de India dentro de Lisboa. Nos filmes, tento criar a sensação de que estamos a mover-nos num mundo do próprio filme, que não tem nada a ver com o mundo real e que tem o seu espaço e o seu tempo.

 

Qual vai ser a sua participação no Pa- norama, para além dos seus filmes?

Vou fazer um workshop que será uma tentativa de passar alguma informação sobre a resolução de problemas que surgem na realização de um documentário. É mais fácil falar destes problemas a partir do meu trabalho, da minha experiência. Vou mostrar excertos de filmes, explicar os problemas que fui encontrando e como os resolvi. Há ainda uma conferência com temáticas ligadas à Antropologia Visual, com convidados estrangeiros, que vai decorrer no dia 14 e que promete ser muito interessante. Também vou estar nas sessões com as escolas.

 

Que conselho daria aos novos documentaristas?
Diria que o essencial é o tempo. Tempo para estar nas coisas. O resultado não é o mais importante mas deve ter a ver com uma vontade autêntica de mostrar um encontro. Ainda que tenha sido desconfortável ou difícil, não se deve ocultar o encontro.

Ver entrevista integral em www.agendalx.pt

 

Rui Ribeiro

Engenheiro, publisher, melómano e audiófilo, daqueles que ainda vão ao cinema, compram vinil, cd's, blu-rays, a Empire e a Stereophile em papel.

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