O Testamento de Ann Lee, a Crítica
Com estreia nacional a 12 de março, “O Testamento de Ann Lee” é uma obra de época com raízes históricas. Uma biografia que escapa inteiramente ao molde do género, aliando música e dança à narração da vida de uma figura real.
Amanda Seyfried e o veículo da biografia musical
No papel central da titular Ann Lee encontramos uma extraordinária Amanda Seyfried como a líder fundadora do movimento religioso Shaker, isto durante o século XVIII. A personagem titular foi proclamada, pelos seus seguidores, como Cristo no feminino e passou grande parte da sua vida a pregar a palavra de Deus e a evangelizar – de Manchester ao Novo Mundo.
O filme conta com realização por Mona Fastvold (“The World to Come”) e foi escrito por esta em colaboração com o cineasta Brady Corbet (“O Brutalista”).

Divisiva e inesperada, “The Testament of Ann Lee” é uma obra tensa e atmosférica, onde ficamos a conhecer uma religião que nos dias de hoje não tem já quaisquer seguidores. Todavia, esta merece ser recordada devido aos seus contornos pouco usuais – do seu desejo de construção de utopia à sua incorporação da dança e música como parte dos seus rituais de prece.
A representação fidedigna de um movimento religioso
Para os Shakers, a religião afastava-se da misoginia praticada pela igreja dominante. O grupo acreditava que “Deus é tanto homem como mulher” e também que a verdadeira religião só poderia provir de uma experiência interior.
“O Testamento de Ann Lee” procura representar a sua vivência com realismo, recorrendo extensivamente a arquivos da época, transcrições de tribunais, artigos de jornal e testemunhos escritos dos seguidores de Ann Lee. E embora o filme pratique também alguma “ficção especulativa”, nunca deixa de se fazer sentir robusto do ponto de vista biográfico e histórico.
Um dos seus maiores trunfos é a própria representação da fisicalidade envolvida neste movimento religioso, com múltiplas danças de grupo coreografias notáveis e um design de produção capaz de fazer jus à sua história.
Uma protagonista inesquecível na obra de Mona Fastvold
Por outro lado, valoriza-se a criação da personagem de Ann Lee. Da sua infância ao seu casamento, passando pela perda trágica de quatro bebés antes de chegarem a perfazer um ano de vida, até ao momento em que se torna uma líder perante a sua comunidade e enfrenta a Igreja de Inglaterra, tudo isto permite-nos obter um retrato fidedigno desta figura histórica.

Elogiamos também o momento musical que surge no barco a caminho das Américas, com vozes que entoam em conjunto a caminho de Nova Iorque à medida que a história de “O Testamento de Ann Lee” se torna mais grandiosa.
Aliás, tendo em consideração que as personagem encontram espiritualidade e se libertam através da dança e música, faz todo o sentido que este “The Testament of Ann Lee” seja um musical.
De “Les Misérables” a “Mamma Mia“, já sabíamos que o formato musical assenta a Amanda Seyfried que nem uma luva. Aqui, como grande protagonista da obra, reforça-se esta crença e não podemos deixar de lamentar o facto da atriz estar a ser maioritariamente ignorada no decurso da presente temporada de prémios.
O Testamento de Ann Lee: uma obra imperfeita
Infelizmente, falta às restantes personagens o nível de desenvolvimento que reconhecemos em Ann Lee. Estas limitam-se a gravitar em seu torno, subjugadas à sua narrativa.
Ademais, “O Testamento de Ann Lee” é intenso, escuro, difícil de ver. As letras das músicas são algo repetitivas e não há nenhum tema que nos fique verdadeiramente no ouvido. A banda sonora consegue por vezes ser poderosa, mas o potencial musical não é atingido.
“The Testament of Ann Lee” tem uma natureza verdadeiramente opressiva, intensa e com tendência para a polarização. Há também alguma falta de tensão dramática , num filme que se faz sentir longo e simultaneamente precipitado .
Consideramos, especificando, que o terceiro e último capítulo é muito apressado em comparação com os anteriores , e momentos como a morte de Ann Lee mereciam mais tempo de ecrã. Mas a performance de Amanda Seyfried, essa não esqueceremos tão rapidamente.
O Testamento de Ann Lee, a Crítica
Conclusão
O Testamento de Ann Lee, de Mona Fastvold, é um biografia musical que escapa às convenções e entrega uma excelente prestação central por parte de Amanda Seyfried.

