© Opéra National de Paris

Ópera e Cinema | ‘Madame Butterfly’, de Bob Wilson

Um olhar pela relação entre o cinema e a ópera, a propósito de uma récita de ‘Madame Butterfly’, de Giacomo Puccini, com encenação de Robert (Bob) Wilson na Ópera da Bastilha, em Paris.

Para compor ‘Madame Butterfly’, Giacomo Puccini inspirou-se nas melodias, sons e vozes da arte popular japonesa e em ‘Madame Chrysanthème’, do escritor francês Pierre Loti, romanceando a suas memórias de uma viagem ao Japão, iniciada em 1885. No entanto, tanto na literatura como na música, a heroína permaneceu a mesma: Kiku-san ou Cio-Cio-san, uma jovem gueixa traída por seu marido ocidental, um oficial americano num drama que simbolizava o encontro entre duas culturas e visões do mundo completamente diferentes. E efectivamente a ópera é aquela das artes que para mim, não sendo um especialista, mais se assemelha com a dimensão cinematográfica ou não fosse também ela várias vezes transposta para os ecrãs.

Madame Butterfly
(foto de José Vieira Mendes)

Como é o caso de ‘Madame Butterfly’, em pelo menos duas das versões conhecidas: a de 1932, dirigida por Marion Gering, baseado na peça de David Belasco e na história de John Luther Long, protagonizado Cary Grant e Sylvia Sidney, música de W. Franke Harling, mas na verdade também uma adaptação do libreto de Puccini; ou a mais recente de 1993 (‘M. Butterfly’), uma variação, dirigida por David Cronenberg baseada na peça teatral homónima, do escritor David Henry Hwang, que, por sua vez, baseou sua obra na história real do diplomata francês Bernard Boursicot e de Shi Pei Pu, cantor da ópera de Pequim, ambos a pretexto acusados e condenados por espionagem pelo governo francês, mas na prática para incriminar um caso de homossexualidade. Um filme que foi protagonizado por Jeremy Irons, um travestido John Lone (no teatro japonês são os homens que interpretam os papéis da mulheres) e por Barbara Sukowa.

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Voltando à ópera, esta encenação de ‘Madame Butterfly’, em cena no Teatro da Bastilha em Paris é da autoria do grande criador norte-americano Robert (Bob) Wilson, mais reconhecido na Europa que nas Américas, que dirigiu ‘O Corvo Branco’, (não confundir com o último filme de Ralph Fiennes, o biopic sobre Rudolf Nureyev, estreado este ano), uma obra em 5 actos, escrita por Luisa Costa Gomes, com música de Phillip Glass, e estreada por ocasião da Expo’98, em Lisboa. Além disso Bob Wilson dirigiu várias vezes Isabelle Huppert em várias peças de teatro, a última ‘Mary Said What She Said’, foi apresentada no CCB, no âmbito do 36.º Festival de Almada em Julho passado.

Madame Butterfly
© Opéra National de Paris

O regresso desta gloriosa encenação ‘Madame Butterfly’ à Ópéra Bastille, de Paris, vinte seis anos depois da sua criação foi além da satisfação de um desejo pessoal, a oportunidade de ver ao vivo uma pequena pérola que parece combinar a ópera com o cinema. Produzida pela primeira vez em 1993, é marcada por uma exímia elegância minimalista, típica de Bob Wilson, que casa na perfeição a intensidade dramática da história,  com uma violência trágica imbuída da filosofia, tradição, cultura e sobretudo do papel das mulheres na milenária cultura japonesa. E claro dando uma enorme modernidade à obra de Puccini. O drama passional passa-se sobre uma tela monocromática simples como pano de fundo, que define a pureza feminina da protagonista, e as influências da pantomima e do estatismo do teatro Nô. No papel Cio-Cio-San, a soprano Ana María Martínez coloca uma surpreendente suavidade vocal, que contrasta com o profunda dimensão trágica da história e do personagem. Contudo as grandes figuras dessa récita no auditório da Ópera Bastille — em que se sente alguma dificuldade em ouvir os cantores quando estão lá no fundo do palco e a arquitectura do edifício é de facto bastante desenquadrada para a histórica praça — foram, Marie-Nicole Lemieux (Suzuki) e Laurent Naouri (Sharpless).

Madame Butterfly
© Opéra National de Paris

Foram aliás os cantores mais aplaudidos da noite: a primeira com uma poderosa voz consegue mostrar ao mesmo tempo, uma comovente ternura que combina na perfeição com sua personagem de aia de Madame Butterfly; o segundo, no cônsul dos EUA, em Nagasaki lança a sua extraordinária projecção de voz, acabando por dominar uma orquestra vocal onde Giorgio Berrugi (Pinkerton) nem sempre consegue  da melhor maneira quebrar as barreiras da sonoridade e da afirmação do seu personagem no contexto drama. Quase impecável é a interpretação musical do jovem maestro Giacomo Sagripanti, que dirige a orquestra residente do Teatro da Ópera de Paris, nesta versão de ‘Madame Butterfly’, que seria excelente que passasse um dia destes por um grande palco em Portugal.

JVM em Paris

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colabora no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’, ( 2014). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’,(2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’, (2012) Mostras de Cinema da América Latina 2010 e 2011, 'Vamos fazer Rir a Europa', 2014 e Mostra de Cinema Dominicano, 2014 e Cine Atlântico, Terceira, Açores. É o Director de Programação do Cine’Eco- Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela desde 2012. É membro da FIPRESCI.

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