"Passámos por Cá" | © NOS Audiovisuais

LEFFEST ’19 | Passámos por Cá, em análise

Depois de ganhar a sua segunda Palme d’Or em 2016, Ken Loach voltou a Cannes, este ano, com “Passámos por Cá”. O filme chega agora a Portugal, com antestreia no Lisbon & Sintra Film Festival.

Se alguma vez encomendaste alguma coisa online, provavelmente já experienciaste uns instantes de frustração direcionada aos homens das entregas. Esses indivíduos de camioneta branca que trabalham para empresas privadas e nos levam a casa as encomendas da Amazon e outros que tais. Aqueles que parecem nunca chegar às horas previstas e que nos deixam papéis a dizer “passámos por cá” quando tu juras que ninguém tocou à campainha. Tantas vezes te zangas e irritas, telefonas para te queixar do mau serviço ou, quando te deparas com eles nas ruas, lhes rogas pragas por estacionarem as viaturas em sítios que não deviam.

O que provavelmente nunca fizeste é indagar-te sobre a vida de quem se dedica a tal ofício. Quando a tua encomenda não chega, a última coisa que farás é desfazer-te em simpatias preocupadas para com o condutor. Se calhar o filho dele foi preso, se calhar a filha suicidou-se, se calhar a mãe morreu e ele tirou folga para ir ao funeral, deixando o seu percurso sem ninguém para fazer as entregas. Quando o produto que compraste há semanas chega duas horas depois da hora prevista, não pensas em como esse atraso é mais que um inconveniente para ti. Não pensas nas horas atrás do volante, a urinar para uma garrafa pois não há tempo para parar, ou nos muitos teatros de humilhação em que ele participou ao longo do dia com clientes enfurecidos.

passamos por ca leffest critica
© NOS Audiovisuais

Empatia e compreensão são difíceis e doem. Se passarmos a vida a indagarmo-nos sobre a miséria alheia, ou caímos em epítetos de depressão ou paralisamos, incapazes de fazer o que quer que seja. Afinal, nas cadeias de consequência do mundo moderno, haverá sempre alguém a pagar com sofrimento o preço da nossa conveniência e alívio. Paz de espírito sai cara, mesmo que não seja àquele que a desfruta, ou então nasce da bênção da ignorância. Ken Loach não oferece respostas a estes problemas, mas aponta-os com brutalidade no seu cinema. Nos filmes deste autor, a ignorância abençoada é deixada à porta.

“Passámos por Cá” olha para o caso de um desses muitos homens de entregas, examinando a sua família e tecendo uma tapeçaria de precariedade económica a resvalar em sofrimento destilado. De certa forma, esta é a grande investida do veterano cineasta contra a economia globalizada dos nossos tempos. Ele retrata um mundo onde a internet tudo domina e ideias empreendedoras partem do princípio de que a liberalização total do mercado de trabalho é o caminho para o sucesso. No universo do filme, na nossa crua realidade, há quem se orgulha da insensibilidade para com os seus trabalhadores, vendo a dureza desumana como a razão do sucesso. Até se fala que a empresa-mãe devia construir uma estátua em honra de tal eficiência.

Lê Também:
A Volta ao Mundo em 80 Filmes

Como seria de esperar num filme deste realizador, os protagonistas não são esses tiranos burocratas, mas as vítimas do seu regime. Ricky Turner é o homem de entregas já referido, um natural de Manchester que há muito deixou a terra natal e agora vive em precariedade económica com a sua família. Na desesperada esperança de dar a volta à situação, ele vende o carro e compra uma carrinha de modo a trabalhar para um serviço de estafetas. As horas são duras, as exigências exorbitantes e o pagamento mísero. O pior de tudo é que ele não é o único membro do agregado familiar a passar por tais humilhações laborais.

A sua esposa, Abbie, dedica a vida a ajudar os mais necessitados, sendo uma enfermeira que faz visitas ao domicílio para várias pessoas que não se conseguem alimentar ou ir à casa-de-banho sem auxílio. Os dias são duros e o lavoro é ocasionalmente indigno, mas, de vez em quando, um dos idosos que ela ajuda lá a abençoa com um gesto de bondade. Tais instantes de calor humano são preciosos numa conjetura económica onde a desumanidade é rainha. Há que também considerar as crispações domésticas de Abbie e Ricky com seus filhos, Lisa Jane e Seb, um adolescente embriagado pela fúria da rebeldia juvenil.

passamos por ca critica leffest
© NOS Audiovisuais

Com estas personagens, esta sociedade e esta situação, estão reunidos todos os ingredientes para um lacerante melodrama à boa moda de Ken Loach. Há sempre o risco de todo o edifício fílmico desabar num transtorno de miséria pornográfica, mas o cineasta tem vindo a apurar os seus equilíbrios tonais ao longo dos anos. “Passámos por Cá” é tortuoso, mas nunca é excessivo ou abusivo face às suas personagens. Parte do sucesso devém dos rasgos de felicidade que se vão manifestando por entre a negrura. Estas pessoas podem passar os dias em suplício e a falar do seu suplício, mas há sempre uma ideia concreta de como as personagens são fora da crise. Em suma, elas existem além da moldura narrativa do filme e isso nem sempre é fácil de fazer, nem mesmo para o brilhante Loach.

Apesar de todos estes elogios, convém entender que “Passámos por Cá” sofre de muitos dos problemas que afetam o resto da filmografia do seu autor, especialmente no que se refere às suas obras mais tardias. Há uma certa displicência formal em evidência, que privilegia a crueza do realismo social europeu acima de outras possibilidades estéticas. Só a montagem astuta de Jonathan Morris se eleva acima da mera eficiência, fazendo especial bom uso de fades to black em várias passagens. Os atores, por seu lado, redimem as partes mais sensacionalistas do guião, e permitem que o encadeamento de desgraças seja credível até ao nível da emoção humana. Se, como Roger Ebert disse, o cinema é uma máquina de empatia, Ken Loach poderá bem ser um dos melhores cineastas a trabalhar hoje em dia.

Passámos por Cá, em análise
Passámos por Cá

Movie title: Sorry we Missed You

Date published: 2019-11-16

Director(s): Ken Loach

Actor(s): Miguel Lobo Antunes, Luísa Cruz, Américo Silva, Duarte Guimarães, Matias Neves, Tiago Garrinhas, Sandra Faleiro, Ana Tang, Jorge Andrade, José Raposo, Mick Greer, Bruno Lourenço, Manuel Mozos, João Monteiro

Genre: Drama, 2019, 101 min

  • Cláudio Alves - 80
  • José Vieira Mendes - 85
83

CONCLUSÃO:

“Passámos por Cá” é um manifesto de calcinante empatia numa economia contemporânea, onde a integridade do trabalhador é sempre posta atrás do lucro fácil. Nos papéis principais, Kris Hitchen e Debbie Honeywood são estupendos e conseguem cinzelar as arestas mais grosseiras do guião sem alterarem a tese deste realizador de cinema militante.

O MELHOR: Um interlúdio alegre entre pai e filha, o escovar de cabelos loiros e a partilha de fotografias, a preocupação de um filho rebelde e as lágrimas do patriarca atrás do volante.

O PIOR: Quando um ataque repentino ocorre, é difícil não achar que Loach está a ir um pouco longe demais. A precariedade desta família já é suficiente matéria-prima para o drama sem acrescentar a violência de um assalto.

CA

Sending
User Review
4 (1 vote)
Comments Rating 5 (1 review)

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Sending