"Bohemian Rhapsody" | © Big Picture Films

Os 10 piores vencedores do Óscar para Melhor Ator

De Emil Jannings a Rami Malek, de 1928 a 2019, explorámos todos os vencedores do Óscar para Melhor Ator em busca daqueles que menos mereceram esse glorioso troféu.

Tal como já tínhamos com a lista das 10 piores vencedoras do Óscar para Melhor Atriz, baseámos as nossas escolhas em dois grandes critérios. Primeiro, temos a qualidade da prestação dos atores. Não o papel, mas sim o modo como cada intérprete concretizou esse papel em cena. Em segundo, temos de considerar a competição. Uma performance vencedora pode ser meramente medíocre, mas, se os outros nomeados forem exemplares, um vencedor menos bom torna-se facilmente num vencedor desastroso.

Mesmo com isso em consideração, é difícil escolher. Afinal, ao todo 93 filmes ganharam este galardão. Por isso mesmo, gostaríamos de fazer três menções desonrosas a atores que não mereciam ganhar, mas cujas fragilidades são mais culpa do texto e da direção do que das suas proezas enquanto atores. Um deles é Dustin Hoffman que, em “Rain Man” deu vida a alguns dos mais perniciosos clichés e estereótipos sobre pessoas autistas. Trata-se de uma prestação com mais-valias técnicas, mas é unidimensional e não representa o comportamento da personagem com qualquer tipo de variação. Isto devém muito do argumento, pelo que não marca presença efetiva na lista.

De modo semelhante, Tom Hanks passa quase toda a duração de “Forrest Gump” a fazer um excelente trabalho de mimese do miúdo que interpreta a versão infantil da personagem titular. É um estonteante feito técnico de reprodução de cadências vocais e postura, mas é pouco mais que isso. O argumento certamente recusa-se a ir além do superficial em termos de caracterização e o realizador não ajuda. Rami Malek também é prejudicado por má direção, um argumento sem arco narrativo, uso excessivo de lip sync e uma péssima dentadura. Nada disso, contudo, é culpa dele, que, na verdade, traz algum necessário carisma e dramatismo camp às cenas iniciais como Freddie Mercury. Está longe de ser um bom vencedor, mas nem ele nem “Bohemian Rhapsody” têm lugar entre os piores dos piores.

Como podem ver, pelas nossas referências a Dustin Hoffman, Tom Hanks e Rami Malek, esta não é uma lista de maus atores. Até os mais brilhantes artistas vacilam de vez em quando. É triste é quando esses trabalhos menores são indevidamente celebrados e imortalizados por uma estatueta doirada. Enfim, sem mais demoras, aqui fica a nossa lista dos 10 piores vencedores do Óscar para Melhor Ator, a começar com…

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10. Gary Cooper em SARGENTO YORK

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© Warner Bros.
  • Ano da cerimónia: 1942
  • Papel: Sargento Alvin York, um camponês empobrecido com fortes crenças religiosas que acaba por se tornar num dos soldados americanos mais condecorados da 1ª Guerra Mundial.
  • Quem devia ter ganho: Orson Welles em “O Mundo a Seus Pés”.

Para começarmos esta lista, temos uma escolha um tanto ou quanto contraintuitiva. De certo modo, a personagem do Sargento Alvin York é perfeita para Gary Cooper, especialmente no que se refere a esta particular fase na carreira do ator. Há aqui uma abundância de sinceridade, inexistência de interioridade psicológica, um certo ar de respeitabilidade americana de mãos dadas com a humildade de um homem comum. Tudo isso tipifica Gary Cooper enquanto estrela de cinema dos anos 40 e tudo isso está aqui sintetizado e exagerado até ao extremo.

Afinal, não haverá estrela mais apropriada como esta para o filme que temos perante nós. “Sargento York” é putativamente um docudrama biográfico passado na 1ª Guerra Mundial, mas, na verdade, trata-se de um hino jingoísta a tentar apelar a uma nação teimosamente decidida a manter-se fora de um novo conflito mundial. Muitos são os historiadores que até definem “Sargento York” como o primeiro filme propagandista que Hollywood fez para a 2ª Guerra Mundial, apesar de ter sido filmado antes do ataque a Pearl Harbor. Nesse aspeto, trata-se de um dos filmes mais historicamente importantes de 1941.

A importância histórica, contudo, não se traduz em qualidade. Do mesmo modo, não importa quando York parece ser a personagem prototípica de Gary Cooper, pois isso não faz desta uma performance cativante. Existe sempre um módico de competência no trabalho do ator, mas talvez pelo modo como o papel parece ecoar tantas outras personagens dele, Gary Cooper parece interpretar o texto de modo mecânico, automatizado e sem energia. Sem contar com as suas tentativas de “vender” a ideia de um jovem ingénuo ou a natureza mais forçada de alguns discursos portentosos, Cooper raramente demonstra fragilidades técnicas, mas a soma total de todo o seu trabalho em “Sargento York” é uma bomba de aborrecimento mortal, uma injeção de soporíferos para gado diretamente nas veias, o trabalho de um ator que mais parece um zombie pachorrento que um soldado heroico.

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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