"Women Talking - A Voz das Mulheres" | © Orion Pictures

Óscares 2023 | Women Talking – A Voz das Mulheres, em análise

Women Talking,” também conhecido como “A Voz das Mulheres,” é a mais recente longa-metragem de Sarah Polley e um dos filmes mais aclamados do ano passado. Estreado no Festival de Telluride, a obra é uma adaptação do livro homónimo de Miriam Toews com um elenco de luxo que inclui Rooney Mara, Claire Foy, Jessie Buckley e Ben Whishaw.  Entre peritos e prognosticadores, o trabalho já se afigura como um dos favoritos na corrida para os Óscares. De facto, quando foram publicadas as listas de finalistas em certas categorias, “Women Talking” apareceu como um dos potenciais nomeados para Melhor Banda-Sonora Original. Dia 24 de Janeiro, saberemos se conquista essa e outras nomeações.

Em 2009, os anciãos de uma colónia ultraconservadora de Manitoba na Bolívia levaram um grupo de nove dos seus homens até à polícia. Os indivíduos apresentavam-se culpados de crimes hediondos, sendo que, ao longo de vários anos, haviam perpetrado abusos sexuais sistémicos sobre as mulheres suas vizinhas. Dentro da comunidade Menonista fechada, a influência da modernidade era de tal modo rejeitada que o horror foi vivido em silêncio, com os patriarcas a descartarem os primeiros incidentes como obra de Satanás. Veio-se a descobrir que os atacantes usavam um spray anestésico usado em gado para incapacitar as vítimas cuja idade ia desde os três aos 65 anos.

Os relatos do sucedido são atrozes, feitos mais terroríficos pela pressão social e religiosa para desacreditar naquilo que sentiam no corpo. Além do mais, não sabendo ler nem escrever, falando um idioma arcaico de origens germânicas que pouca gente domina fora destas comunidades insulares, as sobreviventes do abuso foram postas entre a espada e a parede. Vítimas de violência masculina, seus intermediários para a justiça eram muitos deles parentes dos perpetradores. Em 2011, começou o julgamento e, antes do ano terminar, sete dos homens foram condenados a 25 anos de prisão. Ainda hoje eles se dizem inocentes, mesmo que o testemunho de mais de uma centena mulheres e meninas atacadas tenha vindo a chocar e comover o mundo.

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© Orion Pictures

Dentro da comunidade, a justiça exterior não foi unanimemente aceite e sagrou-se um imperativo sobre as sobreviventes – há que perdoar para preservar o seu lugar no Paraíso depois da morte. Lendo relatos do caso, apercebemo-nos que a questão do perdão consome muitas das mulheres, testando a sua fé dentro do único mundo que conheceram desde o nascimento. A tensão entre a crença na doutrina Menonista e a dor visceral do que lhes aconteceu, a repugna física e o asco para com as forças suas opressoras, foram elementos inspiradores para a escritora canadiana Miriam Toews. Seu romance, “Women Talking,” narrativiza os eventos em Manitoba pelo apelo à ficção, inventando uma comunidade semelhante chamada Molotschna.

Em termos estilísticos, há um certo espartanismo na obra literária, sendo a narrativa delineada pelas minutas de uma discussão entre duas famílias. Começa tudo in media res, depois de meses de terror e a subsequente descoberta do crime cometido. Num acesso de raiva, Salome, vítima de violação e mãe de uma menina de três anos também ela atacada, defrontou os homens acusados com uma foice. Apesar de terem, até então, mantido o caso dentro da comunidade os patriarcas mais velhos levaram os homens para longe das suas vítimas, entregando-os à custódia da polícia para sua própria proteção. Entretanto, todos os homens de Molotschna foram pagar a fiança dos seus irmãos, deixando a comuna durante dois dias.

Só ficam para trás os rapazes ainda na meninice e August Epp, o professor local que em tempos excomungado da fé. É através da sua perspetiva que descobrimos a história. Como só ele sabe ler e escrever, fará as atas da reunião, registando os argumentos das mulheres analfabetas em debate sobre o seu futuro. Três opções foram votadas – nada fazer, ficar e lutar, partir. A primeira foi prontamente descartada, somente defendida por uma fração pequena das mulheres. Em relação às outras possibilidades, um empate dita o impasse, levando à discussão entre as duas famílias, cada uma representando uma das filosofias. Apesar da natureza deseducada das intervenientes, o diálogo é um espetáculo de retórica levada aos extremos de teologia e academismos ontológicos.

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Longe de se restringir a um exercício intelectual, as minutas são um testamento à complexidade interna de pessoas a quem a voz nunca foi permitida ou o pensamento celebrado. Transcendendo essa matéria, são também um testemunho de como a fé sobrevive ou não ao transtorno deste inferno terreno, revelando-se o conto em jeito de reflexão sobre os ideais Agostinianos. No final, só uma opção é possível e termina o texto numa nota de redenção antonímica ao que aconteceu na vida real. Trata-se de um texto extremamente denso, aquele tipo de trabalho discursivo que parece remeter mais para o diálogo Socrático que para o drama moderno. Por isso mesmo, adaptá-lo a um meio dramático nos parece um desafio. A estrutura digna-se à transformação em diálogo, mas o domínio da palavra sobre uma ausência de ação complica a questão.

Por isso mesmo, há que aplaudir o trabalho destemido de Sarah Polley, atriz feita realizadora, que aqui assina a sua quarta longa-metragem atrás das câmaras. Juntamente com Toews, a cineasta reimaginou “Women Talking” em forma de filme, mantendo a estrutura literária com alguns afinamentos. A alteração mais potente é o divórcio da história à perspetiva masculina de August, configurando os poucos usos de narração voz-off como uma mensagem das adolescentes presentes no debate para com as gerações futuras. Além disso, o final é ajustado, procurando a catarse limpa em gesto que poderia trair a brandura Hollywoodesca, não fosse a severidade com que todo o espetáculo se evidencia no ecrã.

Em tons de osso e sombra, nenhuma da beleza pastoral inerente ao cenário trespassa em cena, sendo a saturação diminuída até ao ponto de estarmos na vertigem do preto-e-branco. Também a iluminação remete para uma aspereza estética, optando por recortes dramáticos e escuridão crescente. Para Polley, tratou-se de tentar transmitir a ideia de um mundo fora de tempo, perdido num passado de costumes como uma fotografia envelhecida. Diríamos que este é o elemento mais fracassado do projeto, fazendo cair o filme no cliché do drama prestigiado. O contraste entre o horror e algo belo seria mais desafiante, mais em sintonia com as questões propostas no texto. Para compensar, a montagem é afiada e dá energia à discussão, enquanto a música de Hildur Guðnadóttir mantém o compasso com acessos de som campestre e disrupções de percussão e sinos eclesiásticos.

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© Orion Pictures

Dito isso, a principal razão para ver “Women Talking” é o modo como o elenco interpreta o diálogo deliberado de Toews. Nesse sentido, a adaptação cinematográfica é um triunfo assombroso, sendo que todos os intérpretes em cena dão o seu melhor e respiram vida para dentro de papéis que, noutras mãos, poderiam ser reduzidos a objeto de ventriloquismo concetual. Rooney Mara e Ben Whishaw impressionam de forma menor como a estranha Ona e August, mas conseguem encontrar a honestidade comportamental nas figuras. Claire Foy faz de Salome um poço sem fundo de ultraje, dando corpo à fúria patente no livro, mas tingindo o fogo com a sombra do medo.

Jessie Buckley é capaz de conquistar uma segunda nomeação pelo seu trabalho como Mariche, filha pródiga que se sente abandonada pelas outras mulheres depois de anos a viver um matrimónio abusivo. Contudo, se houvesse justiça no mundo, seriam as brilhantes Judith Ivey e Sheila McCarthy a ceifar as maiores honras, ambas brilhantes como as matriarcas dos dois clãs em conversa altiva. Se a segunda veterana da atuação oferece ao filme variações tonais a sugerir o humor, Ivey serve de contraposto para as labaredas de Foy. Do contraste nasce o humanismo mais forte de “Women Talking,” fazendo vingar “A Voz das Mulheres” dentro e fora do ecrã. Enquanto montra interpretativa, é difícil imaginar um trabalho mais proveitoso que este. Quase nos dá vontade de ver o guião passado aos palcos, destinado a reinterpretação eterna por várias atrizes sedentas por fincar os dentes nestes papéis carnudos.

“Women Talking – A Voz das Mulheres” tem estreia portuguesa programada para 9 de março deste ano. 




Women Talking - A Voz das Mulheres, em análise
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Movie title: Women Talking

Date published: 5 de January de 2023

Director(s): Sarah Polley

Actor(s): Rooney Mara, Ben Whishaw, Jessie Buckley, Claire Foy, Frances McDormand, Judith Ivey, Sheila McCarthy, August Winter, Michelle McLeod, Liv McNeil, Kate Hallett

Genre: Drama, 2022, 104 min

  • Cláudio Alves - 80
80

CONCLUSÃO:

“Women Talking – A Voz das Mulheres” contém um dos grandes elencos do ano, dando a alma a um manifesto entre a fé e a filosofia, entre a tradição ancestral e a procura por uma justiça feminina, quiçá um perdão que não seja subalterno à força patriarcal. Sarah Polley fraqueja nas escolhas estéticas, mas seu trabalho com atores compensa, assim como algumas escolhas acertadas no que se refere à escrita.

O MELHOR: O trabalho do elenco, com especial destaque para Judith Ivey e Sheila McCarthy.

O PIOR: A fotografia lamacenta, no precipício do monocroma e sempre feia, caindo no cliché de que assunto sério não pode ser apresentado com beleza ou sua sobriedade seria contradita.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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