Piercing, em análise

Depois dos horrores monocromáticos de “Os Olhos da Minha Mãe”, Nicolas Pesce assina, em “Piercing”, uma homenagem às maravilhas do giallo e do terror japonês.

Não obstante a sua hipotética espontaneidade, qualquer interação social é, em certa medida, uma performance. Quer seja uma improvisação baseada em anos de comportamento adquirido ou uma nervosa récita planeada até ao mais ínfimo detalhe, uma conversa entre duas pessoas está sempre a dois passos de ser um exercício de atuação. Tal como no mundo das artes performativas, há sempre algo de fascinante, até divertido e cruelmente prazeroso, em ver um ator ser confrontado com o imprevisto. Afinal, a vida é cheia de imprevistos e rara é a récita conversacional que se pode ensaiar na perfeição sem que, na hora da ação, um acaso não a descarrile por completo.

Em “Piercing”, o realizador Nicolas Pesce muito explora este fenómeno, exagerando sua fórmula, mas mantendo a essência do dilema de alguém planear uma interação com outra pessoa e ver toda a sua preparação implodir face à imprevisibilidade que é o “outro”. É evidente, contudo, que, neste caso em particular, será difícil um espectador ver-se a si mesmo refletido nas personagens e seus problemas. Isso é entendível, considerando que Reed, o protagonista do filme, não ensaiou na sua cabeça uma mera conversa casual ou mesmo uma sedução romântica. Quando ele está face a uma prostituta num quarto de hotel, seu intuito é mais animalesco, mais monstruoso e difícil de aceitar.

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Técnicas como o split screen recordam os devaneios de De Palma e os exageros do giallo.

Reed quer matar a mulher com um picador de gelo, cortar-lhe a cabeça, desmembrá-la na casa-de-banho e depois voltar incólume para a sua idílica existência suburbana na companhia da mulher e sua filha bebé. Foi aliás com a esposa que este aspirante a assassino planeou o homicídio e, qual treinadora de um desportista com pouca autoconfiança, ela está sempre pronta a oferecer-lhe palavras de motivação. Tal cumplicidade devém de um certo pragmatismo, pois as necessidades sanguinárias de Reed têm-se manifestado sob a forma de desejos de matar a filha, pelo que se terá de sacrificar uma prostituta para matar a sede de violência e morte. Contudo, como já mencionámos, o plano dá para o torto e, estranhamente, Pesce parece querer que o espectador se ria de tudo isto.

A outra protagonista desta comédia negra com um cheirinho de thriller erótico é Jackie, uma mulher que não está, de modo algum, disposta a ser somente um corpo anónimo a ser usado como ferramenta para a paz mental de Reed. Se alguma violência vai ser infligida sobre Jackie, ela prefere ser a autora da agressão. Reed assim descobre quando, a meio do seu guião de conversa barata antes do ataque, ele se depara com a potencial vítima a espetar o picador de gelo na própria perna. Face a tal autodestruição, este principiante da arte de matar outros seres humanos, vê-se aflito e desamparado, dando início a um jogo demente de violência, submissão, erotismo e loucura.

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Ao longo da noite, vamos mudando de cenário, à medida que Jackie vai controlando este teatro de sangue e trauma, não obstante o modo como parece perfeitamente incapaz de controlar o quer que seja, mesmo seu próprio comportamento. Nesta dança de caos e ordem, é imperativo termos dois intérpretes capazes de sustentar a insanidade da narrativa e sua estilização. Felizmente, para “Piercing”, Christopher Abbott e Mia Wasikowska estão mais do que aptos a confrontar tal desafio. Ele faz a escolha contraintuitiva de salientar a passividade e ineptidão de Reed, deixando que seus impulsos violentos somente sejam entendíveis através das suas ações abortadas e nunca pelo seu comportamento comicamente disciplinado.

Mia Wasikowska, por outro lado, esconde por completo a interioridade da sua personagem, oferecendo uma caracterização opaca que é tão imprevisível para o espectador como é para o seu potencial assassino. Dentro do jogo tonal de “Piercing”, tal abordagem faz perfeito sentido, mas também temos de entender que a atriz não tinha muitas outras opções. Dizemos isto pois, ao adaptar esta história a partir de um romance de Ryû Murakami, Nicolas Pesce basicamente eliminou toda a informação referente às motivações e biografia das personagens principais. Ao fazer isto, o cineasta reduziu estas figuras humanas a superfícies grotescas, fascinantes pela sua estranheza, incompreensíveis e deliberadamente vazias.

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Dois monstros vazios.

Por um lado, isto é uma clara deturpação do texto de Murakami. Aí, o humor negro e o horror devêm da natureza traumatizada dos monstros humanos que se tentam destruir um ao outro e, quiçá, encontrar na sua vítima/agressor um espelho de si mesmos. Por outro, tal simplificação do texto é um gesto que coalesce bem com a linguagem formal de “Piercing”, por onde Nicolas Pesce tentou homenagear o cinema giallo. Esse subgénero do terror italiano é famoso por exaltar o dramatismo estético acima de quaisquer considerações narrativas. Com sua banda-sonora cheia de referências, espaços enfaticamente artificiais e composições rígidas, esta é uma clara homenagem. Infelizmente, o trabalho de Pesce é quase perfeito demais para funcionar enquanto giallo moderno.

No melhor terror italiano, há uma certa impolidez, um elemento de risco, que não existe em “Piercing”. O filme de Nicolas Pesce é frio e impessoal, sendo que até o seu erotismo é castrado pela esterilidade do formalismo. Quando olhamos para Mia Wasikowska vestida em lingerie provocadora, o seu figurino e maquilhagem são tão exatos que não pensamos em sexo. Pensamos na Vogue. O problema de basear todo um filme nessa dinâmica performativa de uma interação social obsessivamente preparada a dar para o torto é que tal engenho é insustentável. O erro e a surpresa são um prazer imediato e diabolicamente temporário. Se, num espetáculo de circo, um dos acrobatas vacila, o que é interessante é ver a sua recuperação e não só o instante em que vacilou. Como o instante em que o acrobata erra, o filme consegue surpreender e ser imprevisível, mas para tal tem de sacrificar complexidade narrativa e expressividade formal. No final, isso não é suficiente.

Piercing, em análise
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Movie title: Piercing

Date published: 2019-04-08

Director(s): Nicolas Pesce

Actor(s): Christopher Abbott, Mia Wasikowska, Laia Costa, Maria Dizzia, Olivia Bond, Marin Ireland, Dakota Lustick, Wendell Pierce

Genre: Terror, Thriller, 2018, 81 min

  • Cláudio Alves - 55
55

CONCLUSÃO:

“Piercing” quer ser um giallo, mas é demasiado polido, quer ser uma tragicomédia sanguinária, mas as suas personagens são demasiado vazias. Os atores muito fazem para redimir as fragilidades de uma má adaptação literária e a execução formal tem algumas mais-valias. No entanto, esta segunda longa-metragem de Nicolas Pesce nunca consegue ser mais que uma coleção de bons elementos muito mal aproveitados num projeto cronicamente superficial, vazio e aborrecido.

O MELHOR: Wasikowska, Abbott e seu pas de deux de loucura caótica e ordem obsessiva.

O PIOR: O modo como Pesce sacrifica o que é mais interessante na história de Murakami para fazer um giallo moderno, mas depois acaba por ser incapaz de reproduzir os particulares prazeres desse subgénero do terror italiano.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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