"Ice Merchants" | © Curtas Metragens CRL / Agência - Portuguese Short Film Agency

Porto/Post/Doc ’22 | Ice Merchants, em análise

Já passa uma semana desde o fim do nono Porto/Post/Doc, mas ainda há muito bom cinema para analisar. Não podíamos, por exemplo, deixar passar a oportunidade de escrever sobre uma das melhores curtas-metragens do ano. “Ice Merchants” de João Gonzalez é uma pequena obra-prima animada que tem merecido muito sucesso no circuito dos festivais. Oxalá essa popularidade se traduza em sucesso noutros lados. Se houvesse justiça no mundo, “Ice Merchants” seria aposta certa para o Óscar de Melhor Curta-Metragem Animada.

No paradigma do cinema contemporâneo, raros são os cineastas que se atrevem a experimentar a narrativa muda. Durante décadas, todo o cinema se fazia sem o auxílio do diálogo sonoro, mas os mecanismos dessa expressão têm-se vindo a perder além do ocasional exercício em jeito de pastiche. Há, no entanto, um mundo particular onde este tipo de filme continua a vingar. Certamente poderíamos dar o exemplo do experimentalismo, mas não é esse cinema que perpetua as vias clássicas. Na verdade, trata-se da animação, especialmente quando é feita em formato de curta-metragem, impressões fugazes e economia de gesto afirmando-se acima de qualquer texto.

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© Curtas Metragens CRL / Agência – Portuguese Short Film Agency

É assim que encontramos um dos melhores filmes de 2022, neste mundo do desenho-animado onde cada movimento é contido e preciso, valendo mais de mil palavras. Num registo que recorda o arranhar de lápis de cor no papel, João Gonzalez conta uma história épica sem falas, sem voz. A sua curta-metragem animada centra-se num pai e seu filho, mercadores de gelo que vivem na encosta vertiginosa de uma grande montanha. Nessas altitudes imensas, eles fazem e recolhem o gelo que vendem na aldeia, lá em baixo, no vale. Para o saque não derreter na viagem, a descida é feita em queda livre, a gravidade a melhor estrada para o comércio.

Só um singelo para-quedas serve de máxima salvação – a única coisa entre uma aterragem ligeira e morte certa. Não é fácil esse voo picado e muitos são os chapéus que se perdem pelo caminho, rasgos de cor contrastando com o céu gelado. Pai e filho continuam a rotina, fazem-na como parte do seu quotidiano e a tela assim se espelha em matizes multicoloridas de dia-a-dia pacato. Os ciclos repetem-se, qual sinfonia marcada por ritmos regulares. É claro que, como todo o compasso estável em cinema, a disrupção é inevitável, quase essencial. A aparente felicidade parte-se, revelam-se fraturas, corre-se o risco suprassumo.

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© Curtas Metragens CRL / Agência – Portuguese Short Film Agency

Sem querer revelar todo o engenho narrativo, fica a noção que um dia a temperatura sobe e um desastre precipita-se sobre a pequena família. Com imensa economia, Gonzalez conta-nos tudo isto, estabelecendo os afazeres desse quotidiano antigo e os espaços vazios que pesam sobre a alma de pai e filho. A arquitetura do domicílio é desenhada em planos amplos, espaços vazios evidenciando a falta de algo, a perda da figura materna. Esse tenor melancólico informa as leituras do filme, o modo como aquele final assombroso se desenrola. O luto já paira no ar e, se saborearmos a névoa nessas grandes altitudes, sentimos o sabor da tragédia.

Não que Gonzalez siga as linhas esperadas ou se deixe render à potencial displicência do cenário. Há sempre esperança neste conto singular, uma constância de espírito que atravessa o movimento animado, o ritual paciente, o desastre. Do desenho passa ao ecrã luminoso e depois explode no coração do espetador. Trata-se este filme de um sublime estudo sobre ausências, chegado ao clímax num voo milagreiro e as cores codificadas de chapéus caídos. É um poema que rima, um eco que faz um som responder a si mesmo, lá nessas montanhas onde a vida devia ser impossível, mas não é. Pelo menos, não o é neste mundo maravilhoso do cinema animado.

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Em Cannes, “Ice Merchants” foi premiado e também no Curtas Vila do Conde ganhou galardões, tanto do júri como das audiências. No BendFilm Festival, Gonzalez saiu com prémio e em Chicago levou dupla honra. Está também nomeado para o European Film Award, contando, ao todo, com já 14 vitórias e um total de 19 nomeações ao longo da sua carreira. Esperamos só que estes sucessos ajudem o filme a tornar-se acessível ao espetador comum. Todos deviam ver “Ice Merchants,” essa bela joia do cinema português em miniatura.

Ice Merchants, em análise
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Movie title: Ice Merchants

Date published: 4 de December de 2022

Director(s): João Gonzalez

Genre: Animação, Curta, 2022, 14 min

  • Cláudio Alves - 90
90

CONCLUSÃO:

“Ice Merchants” é um épico em formato pequeno, uma aventura dos sentidos e das emoções materializada em desenhos aos quais o cinema concedeu vida. Uma história de perda e amor aqui se desenrola, tudo muito primordial a cair no poético, mas não por isso menos sincero ou poderoso. Em queda livre, caímos de amores por este brilhante filme.

O MELHOR: O final arrebatador que é como um murro no estômago para gente sentimental, o silêncio santo, a textura de lápis digital sobre a tela.

O PIOR: Nada a apontar.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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