À Procura de Dory, em análise

À Procura de Dory faz-nos regressar aos tempos em que éramos crianças de imaginação fértil, sempre com o habitual e carismático encanto Pixar. 

À muito que se tem questionado sobre o percurso que as produções da Pixar têm vindo a adotar. A grande produtora de cinema de animação digital – foi deste estúdio que surgiu a ideia para Toy Story, o primeiro projeto de animação gráfica totalmente computadorizada -, já lançou dezassete filmes, sendo Up-Altamente! (2009) e Toy Story 3 (2010) aqueles que entendemos como os ‘melhores’, na medida em que ambos foram nomeados à categoria principal de melhor filme nos Óscares, tornando-se o segundo e terceiro filmes de animação a alcançar tal feito, depois de A Bela e o Monstro, nos inícios dos anos 90. 

A valer, também Inside Out: Divertida-Mente revelou ser um belíssimo produto no ano passado, das mais ricas histórias dos últimos tempos, tanto pela meticulosa familiaridade com o processo de crescimento de uma criança, como pelo diversidade de emoções sentidas durante o seu visionamento. Talvez, por isso, para À Procura de Dory o espetador tenha expetativas excessivamente altas, embora o último a ter estreado tenha sido A Viagem de Arlo, um dos menos da produtora. Na verdade, trata-se de uma atitude compreensível, afinal esta é a sequela do filme que nos fez mergulhar, enquanto crianças, nas profundezas, nos perigos e na magnificência do Oceano, nos seus tão diversificados habitats que, por incapacidade humana, ainda não temos todo o conhecimento.

De recordar que, em 2003, À Procura de Nemo foi um filme de inigualável sucesso, superando em receitas de bilheteira The Matrix Revolutions, o terceiro da trilogia de Lana e Lilly Wachowski (como os irmãos Wachowski). Foram, aproximadamente, 936 milhões de dólares obtidos pelo mundo fora, sobre a aventura de um peixe-palhaço desesperado à procura do seu filho Nemo, acompanhado por Dory, um cirurgião-pateia fêmea, com a particularidade de ser amnésica. Assim sendo, para este novo filme, do qual apenas passou um ano desde o antecendente, Marlin e Nemo estão em segurança no recife, ainda na companhia de Dory, que acaba por se lembrar da família perdida. Repete-se a fórmula de encontros e desencontros em alto mar, por conseguinte renovam-se as gerações, inclui-se uma mensagem para a inescusável salvação do planeta e pronto, temos um filme Pixar e seguramente um dos ‘produtos’ mais vendidos do verão.

À Procura de Dory

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À Procura de Dory insiste, espantosamente, não tanto em impor-se como uma sequela, mas mais como um mesclar entre os tons ambiciosos de sequela e spin-off, tal como as histórias paralelas de Toy Story 2 e da vindoura comédia romântica entre Woody e Bo Peep, que assistiremos em Toy Story 4, cuja estreia está prevista para 2018. É reconhecível o metódico procedimento comercial do estúdio, para que não hajam dúvidas, mas tal tem um significado importante, para que não o entendamos num sentido pejorativo da crítica. A Dory desde há treze anos que faz parte de uma memória popular, quer individual quer coletiva, prefigurando em t-shirts, em cartazes, em piñatas, em festas de aniversário, num variado amontoado de acessórios, que não conseguimos evitar. Entretanto, as crianças de outrora são agora jovens adultos a terminar os estudos e a iniciar a vida profissional, os jovens adultos de antes são, hoje em dia, pais presumivelmente exaustos da rotina que abraçaram nas suas vidas.

Com efeito, o cinema devota-se, enquanto escape, a que muitas pessoas narrassem as suas experiências cinematográficas aos seus filhos, sendo que uma delas foi exatamente a de À Procura de Nemo. E como não o fazer? Os nossos pais fizeram connosco com outros produtos fílmicos e televisivos que marcaram as suas vidas, mas que talvez pelas dificuldades de produção não tiveram direito, as ditas e tão tendencialmente aborrecidas sequelas. É calculista trazer ao cinema uma personagem adorada p0r todos nós e, conhecermos mais da sua história? A resposta é um quanto paradoxal. À Procura de Dory pode ter interpelar o papel dos filmes 2 e 3, mas fomos nós, cidadãos que exigimos a sua produção, como um redizer da experiência, que jamais é igual à primeira.

À Procura de Dory

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De longe, À Procura de Dory não é um mau filme, é um belíssimo e arriscado projeto que vai sustentar o espírito da pequenada atual, com repercussões do seu futuro. Quanto ao mote da intriga do filme, conhecemos uma Dory bebé, sempre risonha e divertida com as admiráveis belezas do seu lar. Os seus pais (vozes de Diane Keaton e Eugene Levy) são um quanto pacientes com a espontânea trapalhice da filha, em simultâneo temem pelo seu futuro, acabando por perde-la. Entretanto, a história será toda explicada, portanto se é daquelas que pensa que À Procura de Nemo deixara pontas soltas no argumento então À Procura de Dory preenche-as sempre ao seu agrado, e com uma certa nostalgia.

Já adulta, Dory (a voz de Ellen DeGeneres), relembra, esquece, relembra e volta a esquecer os seus progenitores, desesperando por encontra-los. A aventura marinha leva-a até um aquário californiano onde irá descobrir o seu passado. Entre os restantes segredos que exigirão uma ida ao cinema para serem desvendados, À Procura de Dory inclui referências admiráveis a outros filmes da Pixar, como Wall-E, ou a Toy Story. Além disso, as novas personagens não ficam aquém. Surge um polvo-gigante-do-Pacífico, algumas lontras marinhas, um peixe-lua, outros cavalos-marinhos, enguias-de-jardim que não são, mesmo em nada, arquétipos das convencionais imagens de marca que prefiguram no guia do Oceanário. Todos estes animais têm um certa mal formação na sua estrutura física, solicitando a atenção do espetador para as ameaças que enfrentam no que concerne à sobrevivência em habitats naturais versus à vida em cativeiro. Desde à poluição e às alterações climáticas, a biodiversidade marinha está estado em alerta máximo e À Procura de Dory capta esse poder da sétima arte, sempre em tom suave e carismático.

À Procura de Dory

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Em cada segundo sentimos que Dory é uma personagem ‘real’, que não foge da matriz do primeiro filme, contudo sentimo-la mais afetuosa e determinada, dando esse exemplo já cliché de como nunca deveremos desistir dos nossos objetivos, aliás como a própria insiste “basta nadar, nadar, nadares”, e tudo graças a Ellen DeGeneres, capaz de nos fazer rir e chorar. A mensagem da vida pessoal e profissional desta artista mostra como a amizade e o respeito  ultrapassam todas as barreiras e divergências quer sejam de cariz político, social e cultural. Inclusive, são notáveis as metáforas de À Procura de Dory, que repercutem a lógica de igualdade, liberdade e fraternidade, já vistos noutros filmes do género este ano, nomeadamente em Zootrópolis (da Walt Disney) e O Panda do Kung Fu 3 (da Dreamworks Animation), prova de que como somos todos diferentes, cada um à sua maneira e todos iguais.

Por sua vez, o espetador não sente a falta da presença de um vilão na história. O verdadeiro problema não é enfrentar o inimigo com atitudes sádicas, mas encontrar ajuda nos outros, para os outros em momentos hesitantes. Esses outros chamam-se Destiny (voz de Kaitlin Olson), Bailey (Ty Burrell)  e Hank (Ed O’Neill), este que é um polvo articulado com capacidades únicas de camuflagem, que quer estar a salvo do mar. Hank, por muitas vezes, é crucial para que Dory se decida, tal como ela havia feito com Marlin no filme anterior.

À Procura de Dory

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Enfim, À Procura de Dory é um filme sofisticado capaz de entreter pais e crianças, desafiando igualmente os seus espectadores mais atentos. Não esqueçamos também de mencionar a curta-metragem Piper, também da Pixar, que acompanha este filme no início e tem a mesma mensagem: da natureza, para a natureza e pela natureza, do planeta que temos o prazer de chamar casa.

O MELHOR – A voz de Ellen DeGeneres.

O PIOR – Alguns momentos da animação caminham para um registo infantil ao estilo de A Viagem de Arlo e Carros, e não tanto das histórias tidas adultas como Inside Out, Up-Altamente!, Wall-E ou Toy Story 3.

Consulta também: Guia das Estreias de Cinema | Junho 2016


Título Original: Finding Dory
Realizador: Andrew Stanton
Elenco:  Ellen DeGeneres, Albert Brooks, Hayden Rolence, Ed O’Neill, Ty Burrell, Kaitlin Olson, Diane Keaton
NOS Audiovisuais | Comédia, Animação, Aventura | 2016 | 103 min

À Procura de Dory

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VJ

One thought on “À Procura de Dory, em análise

  • À Procura de Dory: 5*

    “À Procura de Dory” tem um argumento bem construído e uma história bastante tocante…

    Cumprimentos, Frederico Daniel.

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