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“Projecto Hail Mary”: O Milagre Cósmico de Ryan Gosling

Em o “Projecto Hail Mary”, Ryan Gosling acorda no espaço, descobre que o Sol está a morrer e que salvar a humanidade pode depender da física, da amizade interplanetária e de um professor que preferia estar com os seus alunos e com os pés bem assentes no chão.

Há uma regra não escrita em Hollywood: quanto maior o orçamento, menor a imaginação. Nos últimos quinze anos, o cinema comercial norte-americano transformou-se num parque temático de si próprio. Sequelas de sequelas, reboots de reboots, super-heróis que salvam universos paralelos enquanto discutem traumas de infância e um algoritmo invisível que decide o que é “seguro” produzir para ninguém perder dinheiro. E depois aparece um filme como “Projecto Hail Mary” — que estreia nas salas a 19 de março —, realizado por Phil Lord e Christopher Miller, e lembra-nos de algo quase revolucionário: a ficção científica pode ter ideias, ciência, humor e até uma coisa rara no cinema contemporâneo de grande orçamento: ternura, como já não víamos há muito tempo.

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Ryan Gosling
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Um professor acorda no espaço

Não, não é uma metáfora, senhores professores, que me estão a ler. A premissa de “Projecto Hail Mary” é mesmo deliciosa na sua simplicidade absurda. Um homem acorda numa nave espacial a anos-luz da Terra. Não sabe quem é. Não sabe porque está ali. E os dois colegas de missão estão mortos. Esse homem chama-se Ryland Grace e é interpretado pelo canadiano Ryan Gosling, que já tinha passeado pelo espaço em “O Primeiro Homem na Lua” (2018). Gosling parece, aliás, ter desenvolvido uma especialidade curiosa: personagens silenciosos, inteligentes e ligeiramente deslocados, como se tivesse sido enviado à Terra por um planeta onde todos falam pouco e pensam muito. Mas aqui a ironia é ainda maior: Grace não é astronauta. É um entusiasta professor de Ciências do ensino secundário. Um tipo que, até há pouco tempo, estava mais preocupado com experiências de laboratório e com adolescentes que confundem gravidade com preguiça. Agora tem um problema ligeiramente maior: descobrir porque é que o Sol está a morrer. Uma forma de vida microscópica — chamada astrophage — está a devorar a energia das estrelas, incluindo a do nosso astro-rei. O resultado será previsível: dentro de cerca de trinta anos a Terra transformar-se-á lentamente numa bola de gelo cósmica. Caramba, nada de dramático, portanto.

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Ficção científica com inteligência

O filme adapta o romance “Project Hail Mary” (2021), do escritor americano Andy Weir, o mesmo responsável por “Perdido em Marte”, adaptado ao cinema por Ridley Scott em 2015. Weir tem um talento raro: escrever ficção científica onde a ciência não é decoração, mas o motor da história. Nos seus livros, os heróis não resolvem problemas com lasers. Resolvem-nos com inteligência, engenho, perspicácia, cálculos científicos, física, biologia e uma quantidade considerável de atrapalhação e pânico científico. Essa lógica está totalmente presente também neste filme. Aqui, o verdadeiro protagonista não é a humanidade: é o método científico. Ryland Grace passa grande parte da narrativa sozinho a fazer aquilo que qualquer professor de Ciências reconheceria imediatamente: testar hipóteses, falhar, tentar outra vez, falhar novamente e, de vez em quando, descobrir algo que pode salvar o mundo. É basicamente o laboratório mais caro da história da humanidade.

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Um alienígena chamado Rocky

Mas o verdadeiro coração de “Projecto Hail Mary” surge quando percebemos que Grace não está sozinho no universo. Aliás, será que estamos todos? Outra nave chegou ao mesmo ponto da galáxia com exactamente o mesmo objectivo: salvar a sua própria estrela. O piloto chama-se Rocky ou, mais precisamente, é assim que Grace acaba por lhe chamar quando ambos aprendem pacientemente a comunicar. E não é exactamente o tipo de extraterrestre que Hollywood costuma vender em bonecos de plástico. Rocky parece uma espécie de aranha mineral com cinco membros e comunica através de vibrações sonoras. Não tem olhos. Não tem boca. Nem sequer tem cara. Mesmo assim — ou talvez precisamente por isso — torna-se uma das criaturas alienígenas mais simpáticas do cinema recente. A relação entre Grace e Rocky transforma o filme numa inesperada história de amizade interplanetária e de respeito pelo outro. Dois seres de mundos diferentes, sem língua comum, a tentar resolver o mesmo problema cósmico. Num planeta como o nosso, onde as nações mal conseguem cooperar entre si — mas neste caso acabam mesmo por ser obrigadas a fazê-lo, lideradas por uma cientista implacável interpretada, surpreendentemente, pela grande actriz alemã Sandra Hüller — a metáfora não podia ser mais clara e oportuna.

Project Hail Mary Ryan Gosling
Sandra Hüller. ©Big Picture Films

Lord & Miller e o milagre da emoção

A realização de “Projecto Hail Mary” pertence à dupla Phil Lord e Christopher Miller, conhecidos por misturar humor, caos e emoção em filmes como “The LEGO Movie”. À primeira vista poderia parecer uma escolha estranha para uma história sobre astrofísica e extinção planetária. Mas acaba por fazer sentido. Lord e Miller sabem fazer algo que Hollywood parece ter esquecido: equilibrar espectáculo e humanidade. E aqui fazem-no com inteligência visual e um uso surpreendente de efeitos práticos. Rocky, por exemplo, é parcialmente uma marioneta real, uma escolha quase artesanal numa era dominada pelo CGI invisível. O resultado dá ao filme uma textura física rara, aquela sensação de que os objectos realmente existem dentro do enquadramento e não apenas num croma verde. É o tipo de detalhe que nenhuma inteligência artificial — nem o mais potente computador — consegue replicar completamente.

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Project Hail Mary Ryan Gosling
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Um blockbuster que acredita no cinema

Há ainda outro detalhe curioso em “Projecto Hail Mary”: o estúdio. O filme é produzido pela Amazon MGM Studios, empresa normalmente associada ao streaming. Mas desta vez a aposta foi clara: uma estreia global em salas de cinema e IMAX. Ryan Gosling resumiu isso de forma perfeita na CinemaCon: “Tentámos pôr o filme na televisão… mas não cabia.” É uma frase meio piada, meio manifesto. Em plena era de algoritmos e consumo doméstico de streaming, “Projecto Hail Mary” reivindica algo quase romântico: o cinema como experiência colectiva. Uma espécie de “E.T. – O Extraterrestre” para adultos, mas que pode perfeitamente estender-se a toda a família. E isto num ecrã gigante, com silêncio e emoção na sala, mesmo quando estão lá sentados um punhado de críticos de cinema sisudos. E depois aquela sensação infantil de estarmos a olhar para algo maior do que nós.

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A ficção científica que ainda acredita na humanidade

No fundo, “Projecto Hail Mary” é um filme sobre responsabilidade. Ryland Grace não quer ser herói. Não se voluntaria para salvar o mundo — pudera. Aliás, quando lhe propõem a missão, a resposta dele é basicamente: “Eu coloco não onde diz astronauta.” Mas acaba por ir. Não por glória. Nem por fama. Mas porque alguém tem de tentar. Para os americanos, “Hail Mary” é uma expressão do futebol americano: um passe longo e desesperado lançado nos segundos finais de um jogo, quando já só um milagre pode salvar a partida. A metáfora acabou por se popularizar como sinónimo de última tentativa, evocando também a oração católica “Ave Maria”. E talvez seja essa a ideia mais radical do filme. Não a existência de alienígenas simpáticos ou micróbios que devoram estrelas, mas a possibilidade de que, perante um desastre global, a humanidade ainda escolha ciência, cooperação e coragem, como a última jogada de desespero. Que grande mensagem para os tempos em que vivemos. Num mundo cada vez mais cínico, isso pode parecer ficção científica. Mas talvez seja apenas esperança e fé na humanidade.

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