O Primeiro Homem na Lua, em análise

O Primeiro Homem na Lua é uma obra-prima sensorialmente inebriante, que nos leva consigo num propulsor de puxões severos e toques sensíveis, na viagem espacial mais realista e assustadora da história do cinema.

O Primeiro Homem na Lua
Ryan Gosling, Corey Stoll e Lukas Hass em “O Primeiro Homem na Lua”

Se puxarmos a fita do tempo atrás quarenta e nove anos, todos nos recordamos dos nossos pais e avós falarem daquela memorável noite veranal, em que pelas 2 horas e 56 minutos do fuso horário americano, Neil Armstrong (Ryan Gosling) e “Buzz” Aldrin (Corey Stoll) decalcavam os filamentos das suas solas de borracha na face lunar, fazendo daquele auspicioso 21 de Julho de 1969 uma memória épica para toda a eternidade. Depois disso, muita tinta correu debaixo da ponte com vozes dissidentes a contaminarem a opinião pública sobre um alegado embuste televisionado, que colocaria um ponto final na frenética e obsessiva corrida espacial travada com a antiga União Soviética. Mas hoje, os fantasmas da suposta pegada mais famosa do mundo podem dormir descansados na paz do Senhor graças a Damien Chazelle, que ainda antes de dar música a Gosling em “La La Land”, já congeminava a sua subida à lua para calar as más línguas e desmistificar a qualidade do homem que precede o mito. Baseado na única obra biográfica autorizada de Armstrong, publicada pelo antigo historiador da NASA James R. Hansen, que inscreve o seu nome na ficha de coprodução ao lado de Spielberg, o argumento adaptado de Josh Singer (O Caso Spotlight/The Post) esteve quatro anos na forja para absorver todos os segredos privados da vida pessoal de Neil.

(…) Gosling vive tão bem nessa pequenez silenciosa das emoções embutidas num armário entreaberto de esqueletos dolorosos (…)

É sobre ele e com ele que Chazelle abre logo as hostes, num cubículo de ponteiros analógicos e botões mecânicos quase impossíveis de manobrar, no pico da estratosfera a 207 mil pés de altitude, a uma velocidade de 560 quilómetros por hora. Recorde que o foguetão experimental X-15 ainda detém na atualidade, mas que em 1962 quase custava a vida a Armstrong, depois de ser cuspido para a atmosfera terrestre como uma bala humana numa lata de conserva. E é com essa sensação de vertigem abrupta, que nos afundamos numa dúzia de minutos com a câmara documental de Chazelle a trepidar como um abalo sísmico ensurdecedor, enquanto a esboroável fuselagem assente numa plataforma hidráulica, se amarrota toda numa paisagem digital projetada numa tela gigante com 10 metros de altura e 19 metros de largura. Mas só assim, é que a lente crua e granulosa da sua velhinha Super 16mm, conseguiria penetrar no âmago daquelas emoções furiosas com tanta fulgurância e vivacidade, como se estivéssemos a viver uma experiência extracorpórea naquele preciso momento. Até iríamos mais longe ao afirmar que, Chazelle, “reinventa” de certa maneira, a fórmula antiga do cinema-verdade ou cinéma verité, influindo na imagem os ditames instintivos e táteis de uma filmagem mais clássica, que apenas se serve da tecnologia para atualizar o seu lado inerentemente orgânico. É por isso que somos capazes de sentir cada fotograma na pele como Armstrong sentiu, que Chazelle descreveu como se estivéssemos sentados no nariz de uma nave espacial.

O Primeiro Homem na Lua
Ryan Gosling e Claire Foy em “O Primeiro Homem na Lua”
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E era esse o habitat natural de Neil, um homem introvertido e obstinado, que desde pequeno se enclausurava no quarto a construir modelos de aeronaves em escala, que mais ninguém se atrevia a mexer ou tocar. É em Gosling que embatemos nessa rigidez de emoções reprimidas à superfície, como se a sua vida pessoal tivesse de ser encarada como um teste rigoroso de mais um exigente programa da NASA. Mas à medida que vamos desfolhando pelas diversas camadas da sua personalidade taciturna, tomamos consciência de uma agonia interior que fervilha nas mesmas veias gélidas que, lá em cima, fizeram dele um convidado especial num mundo proibido de extraterrestres. E Gosling vive tão bem nessa pequenez silenciosa das emoções embutidas num armário entreaberto de esqueletos dolorosos, de onde emerge uma mulher destemida e feroz que veste as calças daquela família destroçada pelo luto porfioso. Janet é essa mulher, a quem Claire Foy atribui uma espinha dorsal de aço, capaz de esbarrar Neil à parede com as verdades ignoradas. São duas forças de caráter que só se compreendem num jogo de cedências bruscas, e que só amainam no olhar inocente e frágil de Rick e Mark.

A textura sonora é tão fidedigna e autêntica, que nos invade a cabeça como uma prova cega de sabores estranhos, que nos deixam num estado hipnótico de adrenalina constante.

Mas é neste inexorável suspiro angustiante de falência material e humana, que Armstrong ainda consegue murmurar interiormente com a lua cintilante como um consolo desculpável do rasto de perdas insubstituíveis que ensombram o seu caminho tortuoso até ela, numa clara demonstração de tenacidade e perseverança, que Gosling magistralmente reconstitui à imagem do seu legítimo autor. E se por um lado, estamos a lidar com um astronauta com sete vidas no espaço, na terra lidamos com uma mãe de sete machados de guerra no bolso, que libertam Foy para a dianteira daquelas decisões fraturantes, que inspiram qualquer mulher submissa a agir contra tudo e contra todos pela defesa dos seus direitos e convicções. Numa cena eletrizante, Janet irrompe intempestivamente pelos corredores hospitalares da agência espacial americana, e confronta o chefe dos astronautas para a missão Apollo, dizendo-lhe na cara, com todas as letras maiúsculas, que são “um bando de crianças imaturas que ainda fazem modelos de foguetões a partir de madeira balsa” e que “não têm nada sob controle”. E é assim que Foy fustiga os lobos, enchendo-nos as medidas do principio ao fim desta louca e quase impossível empreitada lunar.

O Primeiro Homem na Lua
Lukas Haas, Ryan Gosling, e Corey Stoll em “O Primeiro Homem na Lua”
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Chazelle é exímio em maniatar-nos entre a escadaria incomensurável que sobe até à lua e a que desce na mesma medida até ao lavatório da roupa suja daquela cozinha familiar, numa bipolaridade imagética que se apoia mutuamente como se dois dançarinos de estilos opostos estivessem perfeitamente sincronizados e alinhados num só. E quando Armstrong embarca naquela miniatura de Apollo 11 imprimida aos bocados numa impressora tridimensional, e o módulo lunar todo chamuscado e deformado com um maçarico, aterra lentamente à beira daquela cratera gigante esculpida à mão, numa pedreira em Atlanta com mais de 200 metros de comprimento, damos por nós completamente perdidos na magia do cinema no seu estado mais puro e sóbrio. Mas antes de Armstrong plantar a bandeira de Kennedy, Johnson e Nixon na vastidão do rochedo luminoso, tivemos de estremecer, e bem, com a turbulência metálica proveniente dos passeios de simulador instalados no Parque Temático da Universal Studios. A textura sonora é tão fidedigna e autêntica, que nos invade a cabeça como uma prova cega de sabores estranhos, que nos deixam num estado hipnótico de adrenalina constante.

(…) Chazelle, “reinventa” de certa maneira, a fórmula antiga do cinema-verdade ou cinéma verité, influindo na imagem os ditames instintivos e táteis de uma filmagem mais clássica, que apenas se serve da tecnologia para atualizar o seu lado inerentemente orgânico.

O Primeiro Homem na Lua encerra, em si mesmo, um acontecimento histórico, não só porque redefine para sempre a memória turva e longínqua que temos desse evento marcante, como suplanta qualquer fasquia alcançada até à data em termos de fidelidade visual e sonoplástica. Contudo, o mordaz docudrama biópico de Chazelle concretiza um feito ainda mais relevante e notável, faz-nos o homem antes de ele se fazer a si mesmo. Se Armstrong ainda fosse vivo, rejeitaria qualquer distinção ou louvor, mas se ele foi capaz de dar “um pequeno passo para um homem, e um salto gigante para a humanidade”, Chazelle dá um pequeno passo para um homem, e um salto “gigante” para a indústria cinematográfica.

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O Primeiro Homem na Lua
O Primeiro Homem na Lua

Movie title: First Man

Movie description: Depois do sucesso em La La Land (vencedor de seis Óscares®), o realizador Damien Chazelle e a estrela Ryan Gosling voltam a juntar-se em O PRIMEIRO HOMEM NA LUA, da Universal Pictures, que retrata a história da primeira missão tripulada à lua, focando-se em Neil Armstrong e na década que antecedeu ao histórico voo espacial Apollo 11. Um relato visceral e intimo contado através da perspetiva de Armstrong, baseado no livro de James R. Hansen, que explora os triunfos e os sacrifícios – de Armstrong, da sua família, companheiros e da própria nação – numa das missões mais perigosas da história da humanidade. Escrito por Josh Singer (vencedor de um Óscar® de Melhor Argumento Original – “O Caso Spotlight”, “The Post”), este drama sobre comandar sob pressão é produzido por Wyck Godfrey & Marty Bowen (saga “Twilight”, “A Culpa é das Estrelas”), juntamente com Isaac Klausner (“Com Amor, Simon”) e Damien Chazelle. A produção executiva é de Steven Spielberg, Adam Merims e Josh Singer. O filme é cofinanciado pela DreamWorks.

Date published: 2018-10-23

Director(s): Damien Chazelle,

Actor(s): Ryan Gosling, Claire Foy, Ciarán Hinds, Jason Clarke

Genre: Biografia, Drama, História

  • Miguel Simão - 100
  • Rui Ribeiro - 88
  • Cláudio Alves - 65
  • Inês Serra - 80
  • Daniel Rodrigues - 70
  • Maria João Sá - 65
  • Filipa Machado - 75
  • Miguel Pontares - 76
  • Virgílio Jesus - 100
  • Catarina d'Oliveira - 75
79

CONCLUSÃO

O Primeiro Homem na Lua é um dos melhores filmes do ano e um crónico candidato a levar para casa umas estatuetas de ouro. A fita de Chazelle estabelece um novo marco para o realismo da cinematografia e sonoplastia, que deverá ser dificil de igualar nos próximos tempos. Envolvente, comovente e arrepiante, é assim que se caraterizam os grandes poemas cinematográficos, e o Primeiro Homem na Lua é um desses casos sérios de genialidade em movimento.

O Melhor: Ryan Gosling e Claire Foy oferecem-nos duas interpretações muito impactantes; enredo denso e dinâmico com múltiplos focos de interesse e vasos comunicantes, que permitem a interação com outras personagens secundárias; cinematografia brilhante e sonosplastia estonteante; cenas de ação de cortar a respiração e dotadas de uma autenticidade impressionante.

O Pior: Se quissessemos ser picuinhas, alguns arranjos musicais repetidos em determinadas cenas; ter de pagar outro bilhete para ver o filme outra vez.

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Miguel Simão

Jurista e Poeta em algumas horas vagas. Cinéfilo incurável com forte pancada pelo sci-fi, que se perde algures pelo vício noturno de umas quantas séries televisivas de renome; amaldiçoado pelo perfecionismo estético de uma resma de palavras mais ou menos caras. Podem encontrar-me a divagar entre a Terra e o Espaço no meu blogue premiado Última Transmissão Humana.

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