"Projeto Gemini" | © NOS Audiovisuais

Projeto Gemini, em análise

Will Smith aparece em dose dupla no mais recente filme de Ang Lee, “Projeto Gemini” – uma experiência tecnológica que deixa um pouco a desejar enquanto empolgante objeto de cinema de ação.

Cinema experimental e blockbusters de ação são usualmente dois extremos opostos no espectro da sétima arte. No caso de “Projeto Gemini”, contudo, vemos como estes conceitos não são mutualmente exclusivos e podem, de facto, resultar num bizarro matrimónio de ambições desmedidas e o engenho dispendioso dos grandes estúdios. Depois de se consagrar um mestre do cinema com obras como “Sensibilidade e Bom Senso”, “O Tigre e o Dragão” e “O Segredo de Brokeback Mountain”, o realizador taiwanês Ang Lee tem vindo a dedicar os últimos anos a este mesmo tipo de estranhas aventuras. Ele tem vindo a arriscar tudo no desenvolvimento de novas técnicas e linguagens audiovisuais suportadas pelos orçamentos astronómicos que os mais altos píncaros de Hollywood são capazes de prover.

“Projeto Gemini” perpetua o mesmo tipo de investigação formal que o cineasta já havia feito em “Billy Lynn: A Longa Caminhada”. Ambos os filmes foram rodados em formato 3D com HFR (high-frame-rate), uma mistura de técnicas tão arrojada que existem poucos cinemas capazes de o mostrar em toda a sua glória. Para se entender um pouco melhor do que falamos, há que dizer que a maioria dos filmes que vemos projeta 24 fotogramas por segundo, dando a ilusão de movimento ao olho humano sem, no entanto, replicar a experiência do real e do imediato. Os projetos de Ang Lee, no entanto, têm cinco vezes mais informação visual por segundo, resultando num tipo de imagem que está mais próximo daquilo que o olho humano regista como realidade e não virtualidade cinemática.

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Em Portugal não existem salas de cinema capazes de mostrar “Projeto Gemini” com 120 fotogramas por segundo, mas as descrições de quem o viu nesse formato são deveras fascinantes. A essa velocidade e riqueza de informação visual, é quase como se não se visse um ecrã em frente aos olhos, mas uma janela. Esse fenómeno é intensificado pelo uso do 3D e sua criação de profundidade artificial. É claro que tais feitos tecnológicos necessitam de ser sustentados por uma série de problemáticas soluções de engenharia cinematográfica e aí entramos num perdidoso caminho pelo qual a qualidade artística é sacrificada em prol da funcionalidade básica.

Em linguagem mais leiga, este tipo de técnica faz com que muitos dos aspetos clássicos de fazer cinema sejam complicados e, muitas vezes, sabotados. Há uma necessidade de sobreiluminação imensa, pois as câmaras que conseguem gravar estas experiências têm dificuldade em capturar luz. Além disso, a hiper-realidade que os filmes tentam alcançar faz com que composições complicadas ou esquemas de fotografia mais estilizados pareçam duplamente falsos e incoerentes com a experiência da audiência. Ang Lee pode ser um mestre cineasta, mas a sua mestria de nada vale quando confrontada com uma técnica que demanda ao realizador uma simplificação atroz da sua linguagem audiovisual.

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Por consequência, apesar de “Projeto Gemini” ter laivos de intensidade imersiva, a sua experiência geral é uma de cinema anónimo e sem cunho pessoal. Se retirarmos o espetáculo do 3D e do HFR, ficamos com um objeto cinematográfico esteticamente enfadonho, o que é exatamente o oposto do que se quer encontrar num filme de ação. Pelo menos, a montagem tem algum vigor e as coreografias violentas ocasionalmente eletrificam o filme, especialmente em sequências filmadas à luz do sol ao invés de em cenários muito pouco convincentes. Uma desenfreada perseguição em mota é o ponto alto do filme por isso mesmo. Em contraste, o clímax, passado num espaço claustrofóbico e mal iluminado, parece anódino e um tanto ou quanto desapontante para o que se espera ser o desfecho emocional de um grande enredo de aventura.

Hão de reparar que, além de questões técnicas e estéticas, quase nada referimos sobre o conteúdo narrativo do filme em questão. Fizemos isso pois, verdade seja dita, a história de “Projeto Gemini” não chega aos calcanhares da sua curiosa construção formal. A trama centra-se em Henry Brogan, um assassino profissional aos serviços de agências governamentais americanas. Quando ele decide reformar-se, os seus mandatares vêm-no como um perigo e decidem eliminá-lo, encomendando o serviço homicida ao único homem capaz de fazer frente a esse perito em carnificina. Ele é Junior, um clone de Henry, cujo aparecimento desenrola todo um mistério e leva a um confronto final entre o homem clonado e o pai dessa mesma cópia.

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Pelo meio, há muitas cenas de ação, umas mais interessantes que outras, e uma transversal falta de investimento emocional. Em todo o edifício cinematográfico, só uma pessoa parece estar realmente a trabalhar por capturar a atenção e o coração da audiência. Trata-se de Will Smith, pois claro, que aqui interpreta duas personagens distintas e separadas por camadas de rejuvenescimento digital tão credível que assusta. De facto, arriscaríamos dizer que Smith impressiona mais como Junior do que como Henry, sendo que o papel mais antagónico requer mais epítetos de vulnerabilidade e evolução sentimental que o protagonista que passa a maior parte da história como uma frustrante cifra.

Tirando estas duas figuras, “Projeto Gemini” é povoado por arquétipos mal esboçados interpretados por grandes atores perfeitamente incapazes de injetar qualquer humanidade num guião anémico. Além do mais, este malfadado projeto é culpado do pecado capital de qualquer filme de ação: é aborrecido e nada que os atores fazem consegue contradizer tal fado. Enfim, há que se respeitar a ambição de Ang Lee e o empenho de Will Smith, o primor dos efeitos digitais e o vigor de uma singular perseguição motorizada. De resto, “Projeto Gemini” é uma experiência tecnológica que mais facilmente recomendaríamos como uma curiosidade de inovação e engenharia do que como um filme de ação.

Projeto Gemini, em análise
Projeto Gemini

Movie title: Gemini Man

Date published: 2019-10-10

Director(s): Ang Lee

Actor(s): Will Smith, Mary Elizabeth Winstead, Clive Owen, Benedict Wong, Linda Emond, Ralph Brown, Theodora Miranne, Douglas Hodge

Genre: Ação, Drama, Ficção-Científica, 2019, 117 min

  • Cláudio Alves - 50
  • Marta Kong Nunes - 55
53

CONCLUSÃO:

Depois do malfadado “Billy Lynn”, Ang Lee continua a sua odisseia em busca do futuro do cinema. Desta vez, as suas experiências tecnológicas foram adaptadas ao modelo do blockbuster de ação, resultando num produto entediante e com poucas mais-valias. Felizmente, “Projeto Gemini” tem uma estrondosa estrela de cinema no seu centro, pronta a fazer tudo para revitalizar a carcaça moribunda de um argumento imaginado por David Benioff, entre outros.

O MELHOR: Will Smith em dose dupla, com especial destaque para a versão rejuvenescida do ator e sua surpreendente vulnerabilidade emocional.

O PIOR: Os limites formalistas a que o filme se sujeita devido às suas arrojadas experiências em 3D e HFR.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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