Queer Lisboa ’18 | Sauvage, em análise

“Sauvage” é um filme mais complicado do que aparenta ser, delineando um fascinante retrato da vida de um prostituto francês. Este é um dos projetos na competição de Longas-Metragens desta edição do Queer Lisboa.

Não há cineastas mais hábeis em drenar o sexo de qualquer pinga de erotismo ou sensualidade que os franceses. Quão mais explícitas são as representações em questão, mais punitivo o ato sexual tende a parecer ao olhar da câmara de inúmeros cineastas gálicos, cujas obras muitas vezes se assumem como provocações libertinas, mas acabam por transmitir uma ideia anti sexo que tresanda a moralismos reacionários. Um olhar na diagonal sobre a premissa e o estilo de “Sauvage” sugere mais um desses infelizes filmes, mas a estreia de Camille Vidal-Naquet é uma criação mais complicada e difícil de caracterizar que isso.

Desprovido de qualquer tipo de esqueleto narrativo, “Sauvage” é um exercício em estudo de personagem por meio da observação crua. O sujeito de tal retrato e exploração cinematográfica é um prostituto francês que anda sem rumo pelas ruas de Salzburgo. Segundo os créditos, o seu nome é Léo, mas essa informação nunca é oferecida ao espectador ao longo de todo o filme, sendo que para este homem que vende o corpo e, para espanto dos colegas de rua, parece gostar de o fazer, o anonimato, mais do que uma ferramenta de proteção pessoal, é uma identidade permanente. Também para ele, a prostituição não é uma fase transitória na sua vida ou um simples meio de sobrevivência. Para ele, é uma forma de vida.

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Hedonismo compulsivo.

Tal discrição sugere uma figura endurecida pela miséria e pela degradação, uma ideia que somente se intensifica quando lhe acrescentamos o uso pervasivo de drogas recreativas e indulgência em muitos pequenos crimes. Contudo, Léo é uma figura de considerável inocência, algo que o torna tão fascinante como contraditório. Repare-se, por exemplo, na atitude quase infantil com que ele responde a um companheiro de ofício que considera estranha a facilidade com que Léo beija clientes. Há nele uma incapacidade de mentir, de fingir, de entender as complexidades da pergunta que sugerem alguém que não considera as permutações dos seus atos, que é motivado constantemente por algo quase primordial ou primitivo.

Para Léo é normal beijar os clientes, tal como é normal procurar intimidade e calor humano nos encontros com homens que o veem como pouco mais que um brinquedo. Léo é um agente ativo na sua objetificação, mas, ao mesmo tempo, é uma criatura sedenta de contacto humano. Num dos gestos mais poderosos de “Sauvage”, conhecemos Léo numa cena que parece ser uma consulta médica e acaba por se revelar como um roleplay sexual. O poder do momento vem em retrospetiva, quando Léo volta a entrar num contexto médico e, desta vez, depara-se com a genuína preocupação de uma médica. Face a isso, ele abraça-a, como uma criança a procurar o conforto materno.

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O facto que é Léo quem inicia o contacto afetuoso nesse e em quase todos os outros casos é importante, pois este é um homem que, acima de tudo o mais, necessita de estar em controlo da sua vida, mesmo que, para uma audiência distante, essa vida pareça uma queda-livre em inexorável desgraça. Quando um cliente francês mostra real preocupação e atração potencialmente romântica pelo prostituto, Léo rejeita-o com inesperada crueldade. Em contraste, quando está na companhia de dois clientes abusivos, o protagonista de “Sauvage” toma controlo do seu abuso, chegando mesmo a assustar os dois homens com a sua atitude obstinadamente masoquista.

Essa necessidade de controlo em muito se relaciona com uma putativa busca por liberdade, um conceito que o filme praticamente admite dificuldade em definir. Pelo seu lado, Léo parece igualmente incapaz de definir aquilo que quer, escolhendo uma existência a flutuar sobre o mundo, como um espectro que não se prende a nada. Quando alguém tenta agarrá-lo, ele foge. Quando Léo se tenta aproximar, agarrar a alguém, essa pessoa representa sempre uma rejeição certa. É fácil caracterizar tais comportamentos como autodestrutivos, uma realidade que organismo frágil de Léo verifica, mas, novamente, “Sauvage” surpreende pelo modo como complica a representação do protagonista e suas complexidades.

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Félix Maritaud é animalesco e magnético, vulnerável e psicologicamente opaco. Um triunfo.

Na tradição de tantos outros exemplos de dramas realistas europeus dos últimos 20 anos, Vidal-Naquet filma “Sauvage” com uma câmara ao ombro em constante oscilação, com imagem tremida, cores lúgubres e uso de luz natural que tenta dar a ideia de um objeto artístico intocado pelo artifício. Como tal, este é um filme feio, poroso e cru, onde as cenas de sexo seguem o exemplo e, somente com algumas exceções raras, tendem a parecer quase tortuosas na sua estética. Só na sua obsessão com o corpo masculino, é que a câmara demonstra algum individualismo, indicando como este filme representa uma problematização de Léo, sua fisicalidade, seu desejo, seu sexo, sua constante fuga de si mesmo.

É só no ato de escapar de alguma pressuposta prisão humana, de uma dessas pessoas que quer controlar, que Léo é filmado com algo mais próximo de cânones de beleza cinematográfica. Tais momentos são normalmente passados entre a natureza, remetendo para ideias bucólicos do Homem entre o mundo natural, em total liberdade animalesca. É certamente devido a essa variação estética que “Sauvage” consegue evitar ter no seu final um sinal de tragédia. De novo, a realidade do filme é mais complicada que isso.

Essa já muito referida complexidade nem sempre beneficia o filme, dando ao projeto uma aura de indecisão concetual que a deliberada ausência de quaisquer conclusões acaba por reforçar. Por isso mesmo, Vidal-Naquet deveria agradecer aos céus pela presença de Félix Maritaud em frente à sua câmara. O ator em início de carreira suporta todo o edifício do filme, personificando a ambiguidade da sua moralidade sem julgamentos e a opacidade contraditória de Léo. Na sua figura, o paradoxo de um prostituto toxicodependente inocente, ingénuo, quase puro, é algo que parece fazer sentido e a sua fisicalidade sugere tanto o animal sedutor que ronda a selva urbana, como a pequenez de um menino perdido.

Sauvage, em análise
Queer Lisboa Sauvage critica

Movie title: Sauvage

Date published: 2018-09-16

Director(s): Camille Vidal-Naquet

Actor(s): Félix Maritaud, Eric Bernard, Nicolas Dibla, Philippe Ohrel, Marie Seux, Lucas Bléger, Lionel Riou, Philippe Koa, Thierry Desaules, Nicolas Fernandez, Nicolas Chalumeau

Genre: Drama, 2018, 97 min

  • Cláudio Alves - 75
75

CONCLUSÃO

“Sauvage” é um exercício em cinema de antichoque, atirando inúmeras provocações à cara do espetador, mas cuidadosamente despindo-as de qualquer sugestão de sensacionalismo ou grotesco. Enquanto a abordagem formal é perfuntória, um texto denso em ideias, mas escasso em narrativa, e uma prestação titânica redimem os maiores problemas do filme.

O MELHOR: Quão transgressivas, mas nunca grotescos ou desnecessariamente chocantes, muitas cenas do filme conseguem ser. Veja-se, como máximo exemplo disso, as interações entre Léo e um cliente idoso.

O PIOR: A qualidade punitiva, tanto para Léo como para o espetador, de muitos dos momentos mais sexuais e gráficos de “Sauvage”.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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