Queer Lisboa ’22 | Goin’ to Town, em análise

Mae West foi uma figura singular da Velha Hollywood, ícone camp e diva provocadora com gosto por quebrar tabus. O Queer Lisboa e a Cinemateca Portuguesa prestaram homenagem a essa estrela de outros tempos no seu ciclo retrospetivo dedicado ao Gay Girls Riding Club e os filmes que inspiraram suas paródias. “Goin’ to Town,” originalmente estreado em 1935, conta com West no papel principal e Alexander Hall na realização.

Nunca houve ninguém comparável a Mae West e nunca haverá. Como dizia numa das falas atrevidas que escreveu para si mesma, quando era boa ela era muito boa. Quando era má, era ainda melhor. A carreira desta iconoclasta não começou no cinema, contudo, tendo a sua génese nos palcos nova-iorquinos. Inspirando-se nas danças e tradições musicais da comunidade Afro-Americana assim como no estilo de prostitutas locais, ela cedo concebeu uma imagem de marca que se assumia transgressiva para as audiências brancas da altura. Num circuito underground, Mae West tornou-se sinónimo de libertinagem pura, sexualidade sem vergonha e êxtase hedonista, polémica personificada.

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© Paramount Pictures

Não é preciso muito para entender quanto a persona de Mae West se assemelha à personagem da drag queen. De facto, durante os anos 20, a atriz trabalhou ao lado de drag queens numa tentativa de chocar as autoridades e, mais uma vez, mostrar desprezo para com os ditos bons costumes. A carreira foi uma montanha-russa de altos e baixos, incluindo triunfos e fracassos, até algumas batalhas jurídicas pelo caminho. Sua peça, “Sexo,” pôs-lhe o nome no mapa, mas também levou à sua prisão. Com os lucros do espetáculo, West pagou a própria fiança e ganhou a liberdade, usando a controvérsia para vender mais bilhetes.

Assim foi durante toda a década, esses loucos anos de ascensão meteórica por parte da atriz que encarava todo o insucesso como mera pausa no caminho para o estrelato. Dito isso, com a repetição constante, as audiências nova-iorquinas começarem a mostrar cansaço face aos truques habituais da diva. As suas personagens eram sempre iguais, e até o contexto das histórias não mudava muito, quase todas situadas no virar do século. Essa preferência de época não tinha muito que ver com preferências temáticas. Na verdade, era uma forma de Mae West envergar estilos démodé que melhor acentuavam as suas curvas que as novas tendências.

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Os espetadores fora de Nova Iorque, no entanto, não conheciam West pelo que o cinema provou ser a melhor forma de ela perpetuar a fama. Um papel pequeno em “Night After Night” levou a conflitos com os estúdios, pois a atriz recusava-se a dizer as falas escritas pelo guionista. Irritados, os produtores disseram-lhe para reescrever o diálogo ela mesma se estava assim tão ofendida. Foi exatamente isso que West fez, mostrando que ninguém sabia promover a sua fama melhor que ela. Boas reações do público e lucros avultados levaram a um maior investimento e confiança, elevando Mae West ao estatuto de estrela, quase autora do seu próprio cinema

A adaptação de “Diamond Lily,” antigo espetáculo teatral por si produzido, consagrou-a como uma das sensações mediáticas da Grande Depressão nesses dias antes de o Código Hays estragar tudo. Há que entender quanto a popularidade de Mae West se apoiava na amoralidade do humor, numa comédia desbocada cheia de insinuações sexuais e outras marotices que tais. Em 1934, quando o malvado Código se abateu sobre Hollywood, impondo a censura puritana, os projetos da artista tiveram de se adaptar, perdendo muito do seu poder transgressor. “Belle of the Nineties” foi filme de transição, mas “Goin’ to Town” realmente representa uma nova era no cinema de Mae West.

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© Paramount Pictures

Ela é Cleo Borden, uma escandalosa senhora dos saloons que decide abandonar a má vida quando tem oferta matrimonial de um homem rico. Abandonado o Velho Oeste rumo à fortuna, os planos da heroína são atrapalhados pela morte inesperada do noivo. Felizmente, o contrato de casamento é válido e, mesmo sem desposar, Borden herda o dinheiro do seu quase-marido. Assim começa uma desventura em forma de escalada social, uma odisseia em nome da legitimação do seu nome, passando de bailarina de terceira categoria a grande matriarca da alta sociedade. Esse projeto até envolve a incursão no teatro sério, com consequências meio risórias e figurinos espalhafatosos a condizer.

Há uma qualidade irónica no trabalho de West que, perdendo acesso ao seu material mais explícito, tem que apelar a outros tipos de humor. Nomeadamente, há um tenor de humilhação nas aspirações de Cleo Borden, desde a cantoria nasalada ao trejeito teatreiro. Não que a atriz provoque o riso às suas custas – ela está sempre em controlo da situação e também partilha a gargalhada. Infelizmente, nenhum dos restantes atores tem a mesma facilidade com este argumento escorregadio – em certa medida, o seu desamparo tem o seu quê de engraçado. Os figurinos desenhados por Travis Banton também são mais cómicos que o usual, distorcendo o glamour até que toda a imagem parece paródia. Em jeito irónico, “Goin’ to Town” fracassa enquanto melodrama atrevido, mas vinga como sátira de uma nova ordem de produção cinematográfica. Passando a perna à censura, West deita-lhe a língua de fora e faz dos seus preceitos a maior piada deste filme meio disfuncional, mas muito divertido.

Goin' to Town, em análise
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Movie title: Goin' to Town

Date published: 26 de September de 2022

Director(s): Alexander Hall

Actor(s): Mae West, Paul Cavanagh, Gilbert Emery, Marjorie Gateson, Tito Coral, Ivan Lebedeff, Fred Kohler, Monroe Owsley, Grant Withers, Luis Alberni

Genre: Comédia, Musical, 1935, 71 min

  • Cláudio Alves - 60
60

CONCLUSÃO:

De um western malcriado a comédia de costumes, “Goin’ to Town” representa um período complicado na carreira de Mae West. Forçada a reinventar-se face à revolução moralista da indústria cinematográfica, a estrela continua a brilhar, acrescentando novas ironias ao seu trabalho. O filme é uma história de transigências criativas em momento de reinvenção, um engenho desengonçado com suas mais-valias humorísticas. Acima de tudo, é um precioso artefacto histórico.

O MELHOR: A vertente paródica de West, os figurinos de Travis Banton, a velocidade a que todo o enredo se desenrola e transcende géneros.

O PIOR: O final abrupto, a perda de piadas lúridas devido ao Código de produção, o moralismo vinculado no guião.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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